Teresa Campos
Teresa Campos
28 Jun, 2021 - 10:32

Lago de Resia, o lago que guarda uma torre e uma história

Teresa Campos

O Lago de Resia não é um mero lago. Ele exibe uma torre sineira e guarda, nas suas profundezas, uma história, uma vida, uma vila. Desvende mais detalhes.

Lago de resia

Na verdade, este artigo poderia dar antes pelo nome de Curon Venosta, pequena vila que faz fronteira com a Suíça e com a Áustria. Mas quis o destino, que o seu Lago de Resia se tornasse no seu principal símbolo. Muito por conta da torre sineira da igreja que se ergue, precisamente, nas águas deste lago.

Mas já lá vamos à história!… Para já, importa dizer que a vila de Curon Venosta fica no Tirol do Sul, na região italiana do Trentino-Alto Ádige e possui cerca de 2400 habitantes. A sua beleza e encanto são verdadeiramente comoventes. Como um postal ilustrado que, assim que vemos, queremos visitar e ficar a conhecer mais em detalhe…

O Lago de Resia e a sua torre

Como já antecipámos, atualmente, a torre sineira da igreja que se ergue nas águas do Lago Resia é o ex-líbris da vila, o verdadeiro símbolo local.

A torre e a respetiva igreja de Santa Caterina d’Alessandria remontam às origens do próprio vilarejo, datando dos princípios do século XIV, sendo que apenas viriam a ficar submersos em meados do século XX.

Foi, na realidade, entre os anos de 1949 e de 1950, com a criação de um lago artificial entre o lago de Curon e o lago de Resia, que não só a torre e a igreja, como parte da vila de Curon Venosta, ficaram totalmente submersas.

Hoje em dia, o Lago de Resia pode ser “aproveitado” tanto no verão, como no inverno. Uma vez que no verão pode receber praticantes de kite surf e no inverno, quando congelado, pode permitir o acesso a pé à torre sineira.

Lago de resia congelado

Mas vamos lá à história… O projeto da barragem

O projeto pode detrás da criação deste lago artificial foi da responsabilidade do engenheiro Josef Duile Curon e começou ainda em oitocentos. O seu propósito era baixar o nível da água do lago Curon (à época chamado Lago di Mezzo), de modo a que, assim, a vila de Curon Venosta pudesse ampliar o seu terreno agrícola.

Contudo, nem tudo decorreu como previsto e, devido ao rompimento da catarata do lago, as vilas de Burgusio, Clusio, Laudes e Glorenza ficaram submersas, dando-se então a suspensão das obras em curso.

Já sob o domínio do Império Austro-Húngaro, o projeto voltou a ganhar forma, desta feita com a finalidade de criar uma reserva para a produção de eletricidade. Todavia, é mais tarde, já em 1920, que o governo italiano retoma a empreitada, desta vez com o objetivo de aumentar o nível da água até 5 metros. Finalmente, em 1939, é decidida a construção de uma barragem.

No entanto, essa mesma decisão coincidiu com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e, por isso, o projeto que parecia malfadado desde o princípio, acabou por ser novamente suspenso. Porém, anos mais tarde, em 1947, sempre foi contruída a barragem que acabou por submergir a 22 metros de profundidade 677 hectares de terreno, deixando aproximadamente 150 famílias desalojadas.

Os protestos e as reclamações da população, inclusive junto do Papa, não foram suficientes para impedir esta construção que mudou de forma profunda a história e a paisagem desta vila.

vista sobre torre no lago resia

O simbolismo da torre da igreja

Assim, torna-se mais fácil perceber o simbolismo e o significado desta torre que, afinal, é o único vestígio visível na paisagem da vida e da história que existiu naquela vila, na velha Curon Venosta. Por isso mesmo, esta torre é tida como um monumento, protegido pelo Departamento de Belas-Artes local e exibido como o ex-líbris máximo da vila de Curon Venosta.

Há mais de 10 anos, foram mesmo levados a cabo trabalhos de reabilitação urbana na torre, de modo a reparar fissuras e a substituir o telhado medieval, de forma a preservar ao máximo o bom-estado deste elemento tão importante para os habitantes de Curon Venosta.

Se visitar o Lago de Resia, além de observar a torre, não deixe de aproveitar para fazer passeios e caminhadas ao ar livre e andar de bicicleta. Além disso, existe por lá o Museu Alta Val Venosta que reúne fotografias e objetos pertencentes aos agricultores locais e que ajudam a contar a história dos Lagos de Resia e Curon.

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Curiosidades

O Lago de Ressia, a sua torre e a história por detrás deste lugar ganharam mais fama após a divulgação da série da Netflix intitulada, precisamente,  “Curon”.

Mas, também, da publicação, em 2018, do romance “Resto qui” (Daqui não saio), de Marco Balzano, onde ele conta, precisamente, a história desta vila e das suas gentes, sujeitas aos terrores da guerra e do fascismo, e que tiveram de lidar com o desapego para com as suas terras, as suas casas, no para com tudo o que tinham e que lhes foi tirado.

A este propósito, vale ainda a pena lembrar que, também em Portugal, houve localidades que desapareceram, nomeadamente devido à construção de barragens. Eis alguns exemplos:

  • Aldeia de Barca do Bispo submersa pelas águas da barragem da Bouçã;
  • Foz do Dão (Óvoa, Santa Comba Dão) submersa pelas águas da barragem da Aguieira;
  • Vilar da Amoreira, em Portela do Fojo (Pampilhosa da Serra), submersa em 1954 pelas águas da barragem do Cabril;
  • Vilarinho das Furnas (Terras de Bouro) submersa em 1971 pelas águas da barragem de Vilarinho, mas ainda parcialmente visível quando o nível das águas está baixo;
  • Parte da Aldeia da Luz (Mourão) submersa, em 2002, pelas águas da barragem do Alqueva.
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