Miguel Pinto
Miguel Pinto
15 Mar, 2026 - 12:30

Mil anos de silêncio: o mosteiro perdido por terras de Barroso

Miguel Pinto

O Mosteiro de Santa Maria das Júnias é um testemunho incrível de outros tempos. Uma viagem a não perder até às terras de Barroso.

mosteiro de santa maria das júnias

O Mosteiro de Santa Maria das Júnias não é apenas um monumento histórico, é uma janela aberta para dez séculos de fé, silêncio e vida monástica.

Classificado como Monumento Nacional desde 1950, este conjunto religioso situado nos arredores da aldeia de Pitões das Júnias, em Montalegre, surpreende pelo enquadramento natural verdadeiramente raro.

Do conjunto original, sobrevivem a igreja de nave única e elementos arquitectónicos que atravessam estilos e séculos, como o portal em arco de volta perfeita do estilo românico, a cabeceira gótica reconstruída, a talha barroca do retábulo-mor e o campanário com relógio de sol datado de 1777.

Nas ruínas do claustro, resistem ainda três arcos de volta perfeita que testemunham a grandiosidade passada do complexo.

A sua importância é tal que, em 1950, o Estado Português classificou o Mosteiro de Santa Maria das Júnias como Monumento Nacional, pelo Decreto n.º 37.728 de 5 de janeiro desse ano.

Mosteiro de Santa Maria das Júnias: as origens

Mosteiro de Pitões das Júnias

A história deste lugar começa bem antes da construção do actual mosteiro. Acredita-se que, no século IX, treze monges fundaram neste vale um eremitério pré-românico, obedecendo ao critério de isolamento que caracterizava a espiritualidade da época.

O local foi escolhido precisamente pela sua dificuldade de acesso e pelo afastamento das zonas habitadas, condições ideais para uma vida de recolhimento, oração e penitência.

A lenda local acrescenta um elemento mais poético à fundação. Conta-se que dois caçadores encontraram numa nesga de carvalho uma imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, e que esse sinal divino terá dado origem ao eremitério.

O mosteiro românico: séculos XII e XIII

O actual mosteiro foi erguido durante a primeira metade do século XII, possivelmente por volta de 1140.

Inicialmente, a comunidade seguia a Regra de São Bento de Núrsia, segundo a matriz cluniacense. Os monges viviam em isolamento, dependendo da pastorícia para a sua subsistência.

O mosteiro não estava, porém, completamente isolado do mundo. Pelos seus caminhos passavam peregrinos a caminho de Santiago de Compostela, que encontravam aqui abrigo e amparo.

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Séculos XVI a XVIII: renovação e decadência

No início da Idade Moderna, o mosteiro beneficiou de obras de renovação tendo sido reconstruído no estilo gótico que hoje apresenta, com cruzaria de ogivas na abóbada e janelas de arco quebrado.

Na primeira metade do século XVIII, o interior da igreja foi restaurado, e redecorado com os retábulos em talha dourada que ainda se podem admirar. O campanário de dupla ventana foi construído neste período.

Fim da vida monástica e o abandono

Com a extinção das ordens religiosas masculinas em Portugal, decretada em 1834, o Mosteiro de Santa Maria das Júnias perdeu os seus últimos monges.

O derradeiro religioso que habitou este lugar passou a exercer a função de pároco da aldeia de Pitões das Júnias, encerrando formalmente a vida monástica que ali se praticara durante quase mil anos.

Na segunda metade do século XIX, um devastador incêndio consumiu grande parte das dependências conventuais, deixando em pé apenas a igreja.

As restantes construções foram progressivamente saqueadas e degradadas, restando hoje as ruínas parciais do claustro, da cozinha setecentista e de algumas alas do convento.

Como chegar de carro até Pitões das Júnias

Gado em Pitões das Júnias

O ponto de partida para visitar o mosteiro é a aldeia de Pitões das Júnias, que se encontra a cerca de 20 quilómetros de Montalegre.

A partir de Braga, o percurso é de aproximadamente 100 km pela A11 e depois pela N103 até Montalegre, seguindo depois pela EM557. Quem parte do Porto faz cerca de 150 km. De Lisboa, a distância é de mais de 460 km.

A estrada de acesso a Pitões das Júnias é estreita e com algumas curvas apertadas típicas da montanha transmontana, pelo que se recomenda precaução, especialmente em condições de chuva ou neve.

Do parque de estacionamento ao mosteiro

Junto ao cemitério da aldeia existe um parque de estacionamento a partir do qual é necessário percorrer o trilho a pé. O mosteiro fica a cerca de dois quilómetros de Pitões das Júnias, num vale pedregoso com declive acentuado.

O percurso é feito por uma calçada de pedra com alguns troços em mau estado, pelo que se recomenda calçado adequado de caminhada e, eventualmente, um bastão de apoio. Quando molhadas, as pedras tornam-se escorregadias.

O nível de dificuldade é moderado, mas acessível para a generalidade dos visitantes com boa condição física. O percurso de ida e volta não excede os quatro quilómetros e pode ser feito em cerca de duas horas, incluindo a visita ao mosteiro.

Panorâmica de Pitões das Júnias
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O que ver na região envolvente

A visita ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias é o ponto de partida natural para um dia, ou mesmo um fim-de-semana, de descoberta da região de Montalegre e do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

A aldeia de Pitões das Júnias

Panorâmica de Pitões das Júnias

Antes ou depois de descer ao mosteiro, vale a pena percorrer as ruelas de Pitões das Júnias. Esta é uma das aldeias mais altas de Portugal, plantada a cerca de 1.100 metros de altitude, e conserva o charme intacto das aldeias de granito do Barroso.

As casas de pedra, os celeiros, as eiras e os habitantes que continuam a praticar a pastorícia e o cultivo do centeio compõem um quadro de autenticidade que se torna raro no Portugal do século XXI.

A Igreja Matriz de São Rosendo, de arquitectura barroca, é outro ponto de interesse dentro da própria aldeia.

Cascata de Pitões das Júnias

A menos de um quilómetro do centro da aldeia fica o acesso à Cascata de Pitões das Júnias, uma das mais belas quedas de água do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Abastecida pelas águas cristalinas da Ribeira de Pitões, a cascata desdobra-se em vários patamares, sendo o principal de cerca de 30 metros de altura. As águas desembocam numa lagoa ladeada por afloramentos graníticos.

O acesso ao miradouro da cascata faz-se por um percurso pedestre de cerca de 600 metros a partir do parque de estacionamento, parte do qual percorre passadiços de madeira.

Planalto da Mourela

No planalto da Mourela, por onde se passa a caminho de Pitões, encontram-se vários monumentos funerários megalíticos pertencentes a uma importante necrópole pré-histórica.

São visíveis junto ao cruzamento para Pitões das Júnias e em campos sobranceiros à ribeira de Campesinho.

Centro Interpretativo do Lobo Ibérico (CILI)

Na própria aldeia de Pitões das Júnias funciona o Centro Interpretativo do Lobo Ibérico, um projeto dedicado ao estudo e divulgação das populações selvagens deste predador e à sua relação com o Homem.

O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma das últimas áreas em Portugal onde o lobo ibérico ainda vive em liberdade.

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Barragem de Paradela e o Alto Rabagão

Em dias de céu limpo, do centro de Pitões das Júnias é possível avistar a albufeira da Barragem de Paradela, uma das mais altas de Portugal.

O Alto Rabagão é outra das paisagens marcantes desta região de Montalegre, com a sua vasta albufeira rodeada de montanhas.

A cerca de 20 quilómetros de Pitões, Montalegre oferece o seu castelo medieval, o Ecomuseu do Barroso e um conjunto de restaurantes onde experimentar a gastronomia local.

Ponte de Misarela e os trilhos do Gerês

ponte da misarela em montalegre

Para quem deseja prolongar a exploração, a famosa Ponte de Misarela, uma ponte medieval sobre o Rio Rabagão, envolta em lendas e de grande beleza, fica a cerca de 30 quilómetros de Pitões.

A aldeia de Fafião, nas imediações, é outro destino de referência, ponto de partida para o Trilho das 7 Lagoas do Gerês e para as cascatas de Pincães e da Rajada.

Quando visitar e dicas práticas

O mosteiro pode ser visitado em qualquer época do ano, mas cada estação oferece uma experiência diferente. A primavera (abril e maio) é a época mais recomendada, com as temperaturas são amenas, a vegetação mais exuberante e os caudais das cascatas mais vigorosos.

O verão permite banhos na cascata. O outono tinge a paisagem de tons de cobre e ocre graças aos carvalhos e castanheiros. O inverno pode ser rigoroso, com neve, mas quem aprecia a solidão e a paisagem nevada encontrará aqui uma beleza única.

Gastronomia: comer sempre bem

Uma visita ao mosteiro fica incompleta sem uma refeição que honre a tradição gastronómica do Barroso.

Montalegre e a região são famosos pela vitela barrosã (com Denominação de Origem Protegida), servida em posta ou costeleta.

O fumeiro, o presunto, a chanfana de cabra ou de javali e as sopas de pedra são outros pratos que merecem ser experimentados.

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