Miguel Pinto
Miguel Pinto
05 Fev, 2026 - 14:00

Ozempic comparticipado pelo SNS para diabéticos com obesidade

Miguel Pinto

O medicamento Ozempic passa a ser comparticipado pelo SNS em doentes diabéticos com obesidade. Saiba quem está abrangido.

caneta de ozempic

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) acaba de alargar a comparticipação do Ozempic, um medicamento injetável à base de semaglutido utilizado no tratamento da diabetes tipo 2.

A decisão, anunciada pelo Infarmed, representa uma mudança significativa no acesso a este fármaco que tem estado no centro das atenções pela sua eficácia tanto no controlo glicémico como na perda de peso.

Até agora, o Ozempic era comparticipado apenas para adultos com diabetes tipo 2 e um Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 35 kg/m². Esta restrição deixava de fora milhares de doentes diabéticos que, apesar de terem obesidade ou risco cardiovascular elevado, não atingiam este limiar.

Com a nova decisão, o medicamento passa a ser comparticipado para o tratamento de adultos com diabetes mellitus tipo 2 insuficientemente controlada que apresentem IMC igual ou superior a 30 kg/m² (obesidade), ou risco elevado de doença cardiovascular.

O Ozempic será utilizado como adjuvante à dieta e ao exercício físico, em adição a outros medicamentos para o tratamento da diabetes, sendo prescrito em segunda e terceira linhas terapêuticas.

Ozempic comparticipado: reivindicação antiga

A decisão é particularmente importante porque a diabetes tipo 2 está frequentemente associada a obesidade e complicações cardiovasculares.

Muitos doentes com IMC entre 30 e 35 kg/m² ficavam numa situação de impasse, já que precisavam do medicamento mas não podiam aceder à comparticipação, enfrentando custos elevados num tratamento contínuo.

O Ozempic contém semaglutido, uma substância que atua como agonista dos recetores de GLP-1 (glucagon-like peptide-1).

Este mecanismo de ação imita a função de uma hormona produzida naturalmente no intestino, estimulando a produção de insulina pelo pâncreas em resposta à ingestão de alimentos.

Os estudos demonstram que o Ozempic é eficaz em baixar os níveis de glicose no sangue, reduzir a hemoglobina glicada (HbA1c) e, como efeito benéfico adicional, promover a perda de peso. O medicamento é administrado por injeção subcutânea uma vez por semana.

Implicações práticas para os doentes

mulher que sofre de obesidade

Para os doentes que reúnam os novos critérios, a comparticipação do Ozempic representa uma redução significativa no encargo financeiro.

O medicamento, que sem comparticipação pode custar várias centenas de euros mensais, torna-se acessível através do SNS.

No entanto, é importante sublinhar que o Ozempic não é uma solução isolada. Deve ser utilizado como parte de um plano terapêutico mais abrangente e que tem diferentes exigências.

A prescrição é feita por médicos e destina-se a doentes em segunda ou terceira linha terapêutica, ou seja, quando outros tratamentos já foram tentados ou não são suficientes para controlar adequadamente a diabetes.

A questão do custo e da sustentabilidade

A decisão do Infarmed teve em conta não apenas a necessidade clínica, mas também o impacto financeiro no sistema de saúde.

Segundo uma análise preliminar realizada em 2025, se o Estado comparticipasse medicamentos para tratar todos os casos mais graves de obesidade (graus II e III), a despesa seria superior a 600 milhões de euros por ano.

Este valor representa cinco vezes mais do que o encargo com as doenças cerebrocardiovasculares, que ronda os 115 milhões de euros anuais.

Se fossem abrangidas todas as pessoas com obesidade em Portugal (estimadas em 1,6 milhões) o encargo anual ultrapassaria os dois mil milhões de euros, mais do que toda a despesa de medicamentos em ambulatório.

Por isso, a comparticipação foi desenhada com critérios específicos e destina-se a diabéticos tipo 2 com obesidade ou risco cardiovascular elevado.

Isto para garantir que o medicamento chegue a quem mais precisa dentro de um quadro de sustentabilidade do SNS.

canetas injetáveis
Veja também Obesidade: como funcionam as canetas injetáveis e o que aí vem

Ozempic: comparação com outros países europeus

Portugal não está sozinho na reflexão sobre como gerir o acesso a estes medicamentos. A experiência europeia mostra abordagens variadas.

Reino Unido. O NHS (National Health Service) comparticipa tanto o Ozempic para diabetes como o Wegovy (formulação de semaglutido aprovada especificamente para obesidade), mas com condições rigorosas.

Os doentes precisam de ser referenciados a serviços especializados de gestão de peso, e o tratamento para obesidade é limitado a dois anos.

França. O país enfrenta uma situação complexa. A Haute Autorité de Santé (HAS) atribuiu ao Wegovy uma classificação ASMR V (benefício terapêutico reduzido), e o medicamento apenas pode ser comparticipado em adultos com IMC superior a 35 kg/m².

Um programa de acesso precoce ao semaglutido para obesidade foi posteriormente retirado. Para diabetes, o Ozempic é comparticipado.

Alemanha. Os medicamentos para perda de peso são classificados como “medicamentos de estilo de vida” e excluídos da comparticipação pelo sistema de saúde público.

O Ozempic só é comparticipado quando prescrito para diabetes tipo 2. Quem procura estes medicamentos para perda de peso tem de pagar do próprio bolso, com custos mensais entre 250 e 350 euros.

Espanha. Não há comparticipação para medicamentos anti-obesidade, embora os GLP-1 sejam comparticipados para diabetes.

O mercado privado tem crescido significativamente, com gastos em medicamentos para perda de peso a ultrapassarem 484 milhões de euros em 2024.

Polónia. O Ozempic é comparticipado para doentes diabéticos (custo de cerca de 28 euros com desconto), mas está disponível através de telemedicina, mesmo para não diabéticos, dependendo da avaliação médica.

O medicamento também pode ser adquirido sem comparticipação por aproximadamente 94 euros.

Embora a obesidade em si não seja ainda uma indicação para comparticipação, esta decisão do Infarmed reconhece a importância da gestão integrada da diabetes, obesidade e risco cardiovascular, condições que frequentemente coexistem e se influenciam mutuamente.

Veja também