Miguel Pinto
Miguel Pinto
11 Mai, 2026 - 15:00

Passadiço da Senhora da Piedade: caminho de madeira, pedra e lenda

Miguel Pinto

O Passadiço da Senhora da Piedade é um daqueles lugares que se visitam pela primeira vez e onde se volta sempre. Venha conhecê-lo

passadiço da senhora da piedade

Há sítios que nos surpreendem não por uma única razão, mas pela soma de tudo o que oferecem: a paisagem que muda a cada curva, o peso da história que se sente no ar, a frescura da água a convidar-nos no fim do caminho. Como o Passadiço da Senhora da Piedade, na Lousã.

Um percurso de pouco mais de um quilómetro que consegue juntar natureza, história medieval e uma lenda de amor impossível, tudo embrenhado no verde denso da Serra da Lousã.

O Passadiço da Senhora da Piedade é um percurso pedonal de madeira, com 1200 metros de extensão, que liga o lugar do Cabo do Soito, junto à vila da Lousã, ao Complexo Turístico da Senhora da Piedade, um vale escondido na serra onde confluem o Castelo de Arouce, o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, a praia fluvial e uma cascata.

Antes deste passadiço, o acesso pedonal seguro entre a vila, o Castelo e as Piscinas Naturais simplesmente não existia. O percurso veio preencher essa lacuna de forma elegante e funcional.

Passadiço da Senhora da Piedade: o que vai ver

O passadiço acompanha a estrada ao longo de todo o trajecto, em construção de madeira que se integra naturalmente na paisagem. O percurso é considerado fácil, adequado a famílias com crianças e a pessoas de diferentes condições físicas. À medida que se avança desde o Cabo do Soito, a paisagem vai abrindo. Primeiro, vistas panorâmicas sobre a vila da Lousã e o vale que a abraça.

Perto do castelo, uma parte da construção de madeira acompanha a descida até ao Santuário da Senhora da Piedade e à praia fluvial. O percurso termina precisamente junto às piscinas naturais do Burgo, convidando a um mergulho bem merecido.

Pontos de interesse ao longo do percurso

  • Vista panorâmica sobre a vila da Lousã, especialmente impressionante ao entardecer;
  • Castelo de Arouce (Monumento Nacional), o coração histórico da visita;
  • Santuário de Nossa Senhora da Piedade, pequena ermida branca encostada à encosta;
  • Praia Fluvial da Senhora da Piedade, com duas piscinas naturais e uma cascata;
  • Baloiço do Burgo, sobre a água, um dos mais fotogénicos da região.

Pormenor que faz a diferença: passadiço à noite

Poucos percursos pedestres em Portugal permitem caminhadas nocturnas em segurança. Este é um deles. O passadiço está equipado com iluminação, o que o transforma numa experiência completamente diferente quando o sol se põe.

Ao início da noite, a panorâmica sobre a vila da Lousã com as suas luzes é uma das mais interessantes que o percurso oferece. Uma razão mais do que suficiente para não restringir a visita às horas de ponta da tarde.

O Castelo de Arouce: a história por trás do passadiço

vista do passadiço da senhora da piedade

Se o passadiço é o caminho, o Castelo de Arouce, também conhecido como Castelo da Lousã, é o seu coração. Classificado como Monumento Nacional desde 1910, este castelo integra a Rede de Castelos e Muralhas do Mondego e é uma das estruturas medievais mais enigmáticas de Portugal.

Origens: do século XI à Reconquista

A primeira referência documental ao topónimo Arouce remonta ao ano 943, num contrato entre um moçárabe e o abade do Mosteiro de Lorvão. Mas a construção (ou reedificação) do castelo tal como o conhecemos é atribuída à segunda metade do século XI, durante o mandato do conde Sesnando Davides, governador da circunscrição conimbricense por ordem de Fernando Magno, rei de Leão e Castela, que havia reconquistado Coimbra aos mouros em 1064.

O castelo tinha um valor estratégico claro: defender os acessos a sul de Coimbra e travar as investidas muçulmanas vindas do vale do rio Zêzere. Em 1124, uma incursão islâmica tomou o castelo. Foi depois reconquistado por D. Teresa de Leão e com a independência de Portugal passou a integrar a linha defensiva do Mondego.

Foi neste período que a rainha D. Mafalda de Sabóia, esposa de D. Afonso Henriques, aqui vinha passar o Verão com a sua corte, um detalhe que diz muito sobre o isolamento bucólico e a qualidade do lugar.

Em 1151, D. Afonso Henriques concedeu foral ao território de Arouce. Mais tarde, a torre de menagem foi erguida algures no século XIV. Sob D. Manuel I (1513), o castelo passou a ser designado oficialmente como Castelo da Lousã.

A Lousã e os seus domínios foram senhorio dos duques de Aveiro até 1759, quando reverteram para a Coroa portuguesa. Hoje, o castelo funciona também como Centro de Interpretação e Acolhimento, onde se pode obter informação turística sobre o concelho.

A lenda da Princesa Peralta

Nenhuma visita ao Castelo de Arouce fica completa sem conhecer a sua lenda, uma história que atravessou séculos e ainda hoje dá nome a ruas, casas e aldeias.

Conta a tradição popular que, na época da ocupação muçulmana, um emir de Conímbriga chamado Arunce mandou construir este castelo, embrenhado na floresta da serra, como local de refúgio para a sua filha, a princesa Peralta, e para os seus tesouros. A floresta densa e o vale recôndito tornavam o castelo quase invisível aos inimigos.

A paz não durou. Quando Conímbriga foi atacada pelo príncipe cristão Lausus, Arunce fugiu com Peralta para o castelo da serra. Mas no momento da fuga, os olhos dos dois jovens cruzaram-se e apaixonaram-se.

Lausus, sem saber onde Peralta se refugiara, embrenhhou-se pelas serras à sua procura. Arunce, ao saber disso, partiu no seu encalço para impedir o encontro.

O destino foi cruel, os dois acabaram por morrer e Peralta ficou aprisionada no castelo, sozinha, à espera de um príncipe que nunca chegou.

Diz a lenda que, ainda hoje, quem visita o vale em certas noites consegue ouvir o soluçar apaixonado da jovem Peralta.

Esta história explica, segundo a tradição, dois nomes que persistem até hoje. Lausus terá dado origem ao nome da Lousã (inicialmente Lausana), e o rio que corre na base do castelo tomou o nome de Arouce, em memória do rei Arunce.

Piscinas naturais e o baloiço do Burgo

baloiço do burgo

O ponto de chegada do passadiço é, por si só, um destino. A Praia Fluvial da Senhora da Piedade fica junto à ribeira de São João, de águas cristalinas, e integra duas piscinas naturais em xisto, uma mais funda para adultos, outra mais rasa para as crianças. Há uma prancha de mergulho em xisto com cerca de 1,75 metros, um café com esplanada e zona de solário.

A época balnear decorre, habitualmente, entre Julho e Agosto, mas o local é visitável ao longo de todo o ano. O Baloiço do Burgo, colocado sobre a água no Verão, é um dos mais icónicos da região e uma paragem obrigatória para quem quer uma fotografia fora do comum.

praia fluvial Foz d'Égua no Piódão
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Informações práticas para planear a visita

Onde fica o início do percurso?
O passadiço começa no lugar do Cabo do Soito, na vila da Lousã, distrito de Coimbra. A cerca de 2 km do centro da vila.

Qual a extensão total?
1200 metros (sentido único). O regresso pode fazer-se pelo mesmo percurso ou pela estrada paralela.

Qual o nível de dificuldade?
Fácil. Adequado a crianças, seniores e pessoas com mobilidade reduzida (com algumas excepções nos troços de descida).

O percurso está iluminado?
Sim. O passadiço tem iluminação, permitindo caminhadas nocturnas em segurança.

Tem custos de entrada?
O acesso ao passadiço é gratuito. As piscinas naturais podem ter regras próprias em época balnear.

Quando é a melhor época para visitar?
O percurso é agradável todo o ano. A Primavera traz flores e vegetação exuberante; o Verão permite terminar com um mergulho; o Outono cobre a serra de tons quentes; o Inverno oferece tranquilidade e caudais mais generosos nas cascatas.

Como chegar?
De carro, a Lousã fica a cerca de 30 km a sul de Coimbra, pela A13 ou EN17. Há estacionamento disponível junto ao Cabo do Soito e na zona do complexo da Senhora da Piedade. De transportes públicos, há ligação de autocarro a partir de Coimbra.

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