Miguel Pinto
Miguel Pinto
24 Abr, 2026 - 10:00

Cada vez mais pessoas com alta continuam internadas nos hospitais

Miguel Pinto
doentes com alta

Imagine que o seu médico lhe diz que já está clinicamente recuperado, que, do ponto de vista da saúde, pode ir para casa. Tem alta. Mas, na prática, não há casa para onde ir. Não há cuidador, não há vaga numa estrutura residencial, não há apoio domiciliário disponível.

E assim, fica internado num hospital durante dias, semanas, ou até meses, não porque precise de cuidados hospitalares, mas porque o sistema não tem outra resposta para si. É isto que se chama um internamento social ou internamento inapropriado. Os dias que um doente passa num hospital após ter recebido alta clínica, sem que exista qualquer motivo de saúde que justifique a sua permanência nesse ambiente.

Este fenómeno, silencioso mas devastador, está a crescer em Portugal e os números mais recentes são difíceis de ignorar.

Doentes com alta: uma realidade em aceleração

De acordo com a décima edição do Barómetro dos Internamentos Sociais, realizado pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) em parceria com a EY Portugal, atualmente há 2.807 pessoas internadas nos hospitais públicos portugueses após terem recebido alta clínica.

Este valor representa um aumento de 19% face a 2025, quandono ano anterior o total era de 2.342 casos. Ou seja, em apenas doze meses, mais 465 pessoas ficaram retidas num hospital sem necessidade clínica que o justificasse.

Para perceber a dimensão do problema, basta olhar para a proporção. Estes internamentos inapropriados representam já 13,9% de todas as camas do SNS ocupadas nos hospitais participantes .

O estudo contou com a participação de 41 hospitais públicos, num total de 20.383 camas, representando 97% da capacidade total de internamento do SNS, uma amostra suficientemente abrangente para ser considerada representativa da realidade nacional.

Custo humano e financeiro

Por detrás de cada número há uma pessoa, seja um idoso que recuperou de uma fratura da anca, mas não tem família disponível para o acolher. Alguém com demência cujo regresso a casa se tornou inviável ou um doente de saúde mental sem vaga numa resposta intermédia adequada.

Mas há também um custo financeiro que recai sobre todos os contribuintes.

O barómetro estima que os internamentos inapropriados custam ao Estado 351 milhões de euros por ano, mais 63 milhões do que na edição anterior do estudo.

No espaço de um ano, o SNS registou 439.871 dias deste tipo de internamentos, um aumento de 20% face à análise anterior.

Este dinheiro não está a comprar saúde. Está a pagar estadias hospitalares para pessoas que não precisam de hospital, enquanto outras que precisam podem estar à espera de uma cama.

As causas por trás do problema

médicos tarefeiros

O principal motivo identificado pelo barómetro é a falta de resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), responsável por 45% dos casos de internamento social, um valor que subiu face aos 38% do ano anterior.

A RNCCI foi criada precisamente para dar resposta a doentes que, após alta hospitalar, ainda necessitam de cuidados de reabilitação ou de apoio social estruturado. Mas a capacidade instalada não acompanha a procura e o resultado é uma fila de espera invisível, que se materializa em camas de hospital ocupadas.

Lisboa e Norte concentram o problema

O barómetro revela que Lisboa e Vale do Tejo e o Norte do país são responsáveis por 85% do total dos internamentos inapropriados a nível nacional.

As disparidades regionais são também evidentes no tempo médio de espera. Enquanto no Norte um doente fica em média 239 dias além da alta clínica, em Lisboa e Vale do Tejo esse valor é de 124 dias e no Alentejo de apenas 32 dias.

Estas diferenças refletem não apenas a concentração populacional, mas também as distintas capacidades de resposta das redes locais de apoio social e saúde.

O que falta implementar?

O barómetro não se limita a diagnosticar o problema. Aponta também caminhos. Em março de 2026, 1.035 doentes estavam em vagas contratualizadas fora do hospital, e 714 tinham sido integrados ao abrigo de uma portaria de 2023 que permite a hospitais do SNS recorrer a alternativas externas para estes casos. São sinais positivos mas claramente insuficientes face à dimensão do problema.

Entre as recomendações do estudo há recomendações que se destacam:

Reforço da capacidade da RNCCI e das estruturas residenciais para pessoas idosas. Não basta ter redes no papel. É necessário garantir vagas reais, acessíveis e em tempo útil.

Expansão do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), com equipas multidisciplinares. Muitas das pessoas que ficam internadas sem necessidade clínica poderiam regressar a casa se houvesse um apoio domiciliário competente, regular e preparado para situações complexas. Investir neste serviço é mais barato do que manter alguém num hospital.

Agilização dos processos legais associados ao Maior Acompanhado, para que as questões jurídicas não se tornem um veto ao processo de alta.

Aposta em respostas intermédias, incluindo na área da saúde mental, que funcionem como ponte entre o hospital e o domicílio ou a estrutura residencial.

O impacto no SNS e nos outros doentes

Teste da covid-19

Há uma consequência que raramente é dita em voz alta, mas que qualquer profissional de saúde conhece: quando uma cama está ocupada por alguém que não precisa de hospital, outro doente que precisa não tem onde ficar.

Os 2.807 casos registados em março de 2026 representam quase 2.807 camas bloqueadas num sistema de saúde que já opera sob pressão.

Cada internamento social não é apenas um desperdício de recursos: é uma cama que pode fazer falta para uma urgência, para um pós-operatório, para alguém que entra de ambulância.

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