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Teresa Campos
Teresa Campos
24 Set, 2020 - 15:09

Pílula contracetiva chegou há 60 anos e mudou a vida das mulheres

Teresa Campos

A pílula contracetiva celebra 60 anos de conquistas e vitórias. Um marco na medicina, mas também na sociedade e no movimento feminista.

Pílula contracetiva surgiu há 60 anos

A primeira pílula contracetiva foi lançada em 1960, tendo sido antecedida por muitos estudos e pesquisas que permitiram chegar a uma solução contracetiva que, ao longo de 60 anos, conheceu vários avanços e desenvolvimentos.

A história da pílula contracetiva é protagonizada por homens, mas também por mulheres e a sua influência social é indiscutível. Além de um anti-concecional, este método contribuiu de forma decisiva para que as mulheres ganhassem, progressivamente, mais poder sobre os seus corpos e sobre as suas vidas. Perceba porquê.

pílula contracetiva: criada por homens, sustentada por mulheres

Foi em 1921 que Haberlandt, através de experiências feitas em coelhas, concluiu que os extratos de ovários poderiam funcionar como anticoncecionais eficazes. Em 1931, o austríaco Huberland explorou a possibilidade de uma esterilização hormonal, tendo por base estudos como os de Haberlandt.

Já perto dos anos 40, Russell Marker conseguiu isolar as hormonas e sintetizar vários quilogramas de progesterona, embora este ainda fosse um fraco inibidor da ovulação. Foi então que, em 1950, Carl Djerassi sintetizou, a partir da diosgenina, a noretisterona, uma hormona semelhante à progesterona.

Também na década de 1950, nos Estados Unidos da América, a ativista, feminista e enfermeira Margaret Sanger e a milionária Katherine McCormick juntaram forças no sentido de criarem uma pílula contracetiva que fosse fácil de usar, eficaz e acessível.

embalagem de pílula contracetiva

Década de 1960

Dez anos mais tarde, em 1960, Colton, outro investigador, produziu um progestógeno, o noretinodrel, o qual foi combinado com um estrogénio sintético, o mestranol, na composição da primeira pílula contracetiva combinada, o contracetivo oral combinado (COC).

Porém, foi o biólogo Gregory Pincus que ficou conhecido como o “pai da pílula”, uma vez que foi ele que fez a maior parte dos estudos acerca dos primeiros COC, incentivado por Sanger e subsidiado por McCormick. O COC foi aprovado pela Food and Drug Administration no dia 23 de junho de 1960, tendo essa pílula sido comercializada a partir de 18 de agosto de 1960, nos EUA, com a designação de Enovid-10.

Oito anos depois, em 1968, foi lançada a primeira pílula composta apenas por progestógeno (a minipílula), a qual pretendia evitar alguns efeitos secundários da outra pílula, como o mal-estar e o aumento de peso. Importa referir que, além de Pincus, outros investigadores participaram nestes avanços e descobertas, como foi o caso do ginecologista John Rock, de M.C.Chang ou de Celso Ramón-Garcia.

Todavia, convém notar que até 1965 os contracetivos eram oficialmente proibidos nos EUA, o que significa que Pincus teve de fazer as suas pesquisas clandestinamente e alegar que aquela não se tratava de uma pílula contracetiva, mas sim de um fármaco para atenuar os desconfortos e incómodos menstruais.

Alemanha

Apesar dos EUA terem sido o epicentro das pesquisas, o lançamento da pílula contracetiva teve impacto noutros países. Na Alemanha, por exemplo, a pílula começou a ser comercializada a 01 de junho de 1961, pela Schering, com a designação de Anovlar.

Também em terras germânicas esses pequenos comprimidos verdes foram vendidos sob o pretexto de aliviarem as dores menstruais. Porém, a revista alemã Der Stern dedicou uma manchete ao dia do lançamento da Anovlar, reconhecendo o seu impacto ao afirmar que aquele era: “Um dia histórico e um tremendo passo em frente”.

Portugal

Manuel Neves e Castro foi o primeiro médico a utilizar a pílula contracetiva no nosso país, trazendo dos EUA, em 1960, amostras de Enovid. Numa época em que a Igreja Católica tinha uma influência assumida no governo do país, o médico Neves e Castro teve de enfrentar uma forte oposição pois, apesar de cristão, foi sempre a favor do uso da pílula.

Oposições semelhantes recebeu quando fundou a Associação para o Planeamento da Família, a qual tinha por objetivo prevenir as gravidezes indesejadas e o aborto clandestino. Uma das estratégias usadas pela Associação para atingir os seus propósitos foi, precisamente, a distribuição da pílula.

A história por detrás da famosa embalagem redonda

A pílula era tomada pelas mulheres. Contudo, numa época em que a mulheres ainda viviam muito dependentes dos maridos e eram vistas como o sexo fraco, os homens assumiram um papel muito interventivo nesta matéria.

David Wagner, pai de quatro filhos, foi exemplo disso mesmo, tendo criado, logo em 1961, uma embalagem redonda que lhe permitia controlar se a sua mulher tomava adequadamente ou não a pílula. A sua ideia foi aproveitada por várias farmacêuticas, algumas das quais ainda hoje comercializam o modelo em causa.

Um anúncio publicitário desta embalagem, datado de 1964, da responsabilidade da empresa Ortho-Novum e dirigido aos homens, inclui uma frase claramente misógina: “Fácil de lhe explicar, fácil de ela usar. Mais tarde, em 1969, a marca Lyndiol também lançou um repto, desta vez aos médicos, o qual dizia: “Para proteger a sua paciente do seu próprio esquecimento.”

Assim, fica claro que a aceitação social da pílula esteve mais relacionada com as vantagens que os homens podiam retirar dela, do que propriamente dos benefícios que ela podia trazer à vida das mulheres que, de um modo geral, continuavam a ser vistas como incapazes, até de tomarem diariamente um comprimido, sem supervisão ou orientação dos maridos!

Manifestação a favor da pílula

Polémicas: os detratores da pílula contracetiva

John Rock, que também era católico, foi vítima de vários ataques por parte da sua diocese, devido à sua ligação aos projetos de investigação e criação da pílula. Rock, juntamente com Pincus, criou uma pílula para tomar por três semanas e interromper durante uma.

O propósito dessa medida não foi médico, mas antes uma forma de tentar conseguir o aval da Igreja Católica. É que esse método assemelhava-se ao método rítmico, um sistema anticoncecional já aprovado pela Igreja, o qual consistia em evitar as relações sexuais durante a ovulação, ou seja, durante o período fértil.

Ao longo dos anos 60, a Igreja Católica foi criando várias comissões, ora compostas por médicos, ora compostas por cardeais e bispos, que tinham por objetivo definir a sua posição relativamente ao uso da pílula. Quando em 1967 tudo parecia estar encaminhado para um parecer favorável, por parte da Igreja, relativamente à utilização da pílula, eis que o Papa Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae em que proibiu o uso da pílula como método anti-concecional, por considerar este um método “artificial”.

Cortar o efeito da pílula contraceptiva
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O que a pílula contracetiva trouxe de novo à vida das mulheres?

Naturalmente que a pílula veio revolucionar a vida das mulheres, mas não por pôr fim às dores menstruais.

Numa época em que o sexo era, maioritariamente, visto exclusivamente como um meio reprodutivo, a pílula veio revolucionar a sexualidade, permitindo que as pessoas tivessem relações por prazer e não apenas para procriar.

Se atentarmos nas cronologias, escusado será dizer que a pílula contracetiva beneficiou da libertação e da emancipação também trazidas pelo Woodstock, os hippies, o movimento estudantil e o feminismo.

Apesar de não terem sido erradicadas, a pílula veio ainda dar um contributo determinante na prevenção das gravidezes indesejadas e das interrupções voluntárias da gravidez. Se nas primeiras décadas de existência, ela pode ter apresentado alguns efeitos colaterais adversos, há muitos anos que a pílula é, na sua generalidade, um método anticoncecional fácil de tomar e seguro, caso não haja contra-indicações.

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