Miguel Pinto
Miguel Pinto
23 Abr, 2026 - 15:00

Ponte de Meirinhos e o Sabor que ninguém consegue esquecer

Miguel Pinto

A ponte de Meirinhos desafia a gravidade sobre um dos rios mais agrestes do nordeste português: Saiba como lá chegar.

ponte de meirinhos

A Ponte Sardão-Meirinhos surge na curva de uma estrada transmontana e paralisa quem passa, suspensa sobre o Sabor como um argumento silencioso a favor da beleza do interior de Portugal.

Aliás, existe uma certa ironia na história da Ponte Sardão-Meirinhos. Durante mais de meio século constou nos mapas rodoviários portugueses como uma ligação prometida, traçada a régua sobre o papel, mas inexistente no terreno.

Quem precisava de cruzar o rio Sabor entre os concelhos de Mogadouro e Alfândega da Fé tinha de fazer longos desvios por estradas sinuosas, contornando as gargantas profundas que o rio foi esculpindo ao longo de milénios na rocha granítica de Trás-os-Montes. Quando finalmente foi concluída, em 2003, a ponte não se limitou a encurtar distâncias.

Tornou-se, rapidamente, num elemento de identidade para a região, uma estrutura que os transmontanos olham com orgulho legítimo e que os visitantes, esses, ficam a olhar com a boca aberta esta travessia com um comprimento total de 560 metros.

Ponte de Meirinhos já é um ex-libris local

A Ponte Sardão-Meirinhos foi construída numa das zonas mais acidentadas e inacessíveis do rio Sabor, onde o vale se fecha abruptamente e o leito corre muito abaixo do nível das estradas.

Os engenheiros optaram por um tabuleiro em caixão unicelular de betão armado pré-esforçado, executado pelo método de consolas sucessivas (o chamado cantilever) avançando em aduelas de cerca de cinco metros a partir dos pilares, sem que fosse necessário colocar andaimes ou escoramentos sobre o leito do rio. Uma solução elegante para um problema complexo.

Pilares de 75 metros

Os pilares centrais, com uma altura máxima de 75 metros, foram pré-esforçados excentricamente e assentam sobre maciços ancorados diretamente na rocha.

Quando a Barragem do Baixo Sabor foi concluída, em 2014, parte dos pilares ficou submersa pelas águas da albufeira, o que obrigou a cuidados adicionais de impermeabilização do betão para garantir a longevidade da estrutura ao longo das décadas.

A harmonia com a paisagem

Mas a admiração que a ponte desperta não é apenas técnica. Há qualquer coisa de quase cinematográfico na forma como a estrutura se integra no vale.

A linha longa e horizontal do tabuleiro contrasta com a verticalidade dos pilares e com o relevo recortado das encostas, criando uma composição de rara elegância.

Em dias de verão, com o espelho de água dos Lagos do Sabor a refletir o céu azul transmontano, o cenário torna-se verdadeiramente irreal.

A importância para as comunidades

Há ainda uma dimensão humana que não deve ser esquecida. A ponte de Meirinhos não existe apenas para ser fotografada.

Encurtou distâncias reais entre pessoas reais, ligando dois concelhos que partilham história e vizinhança mas que estavam separados por uma das zonas mais acidentadas do território nacional.

O IC5 que atravessa a estrutura é, para muitas famílias transmontanas, a estrada do dia a dia.

Ponte de Meirinhos: o que ver na envolvente

A Ponte de Meirinhos é um excelente ponto de partida para explorar uma região que tem muito mais para oferecer do que a maioria dos visitantes imagina.

Lagos do Sabor

Lagos do Sabor

A Barragem do Baixo Sabor criou, em 2014, um conjunto de três lagos (Cilhades, Santuários e Medal) que se estendem por mais de 70 quilómetros entre quatro concelhos.

O espelho de água entre penhascos e serras é um dos cenários mais impressionantes do nordeste transmontano.

Miradouro de Santo Antão da Barca

Mesmo ao lado da ponte, este miradouro em Alfândega da Fé é considerado um dos melhores vistas sobre os Lagos do Sabor. A nova capela foi transladada quando o Sabor subiu e é, ela mesma, um lugar de peregrinação.

Castelo de Mogadouro

Na vila de Mogadouro, o castelo erguido por ordem régia e depois entregue aos Templários oferece uma vista de 360° sobre o planalto mirandês. A Torre de Menagem é o seu ex-libris.

Castelo de Penas Róias

Estrutura militar do século XII aninhada numa colina a cerca de 750 metros de altitude, de onde se avistam a Serra da Castanheira e o castelo de Algoso. Especialmente belo em fevereiro e março, quando as amendoeiras cobrem os campos de branco.

Miradouro da Fraga do Poio

Um dos melhores pontos de vista sobre as Fragas do Sabor, no concelho de Mogadouro. Ideal para quem quer perceber a escala impressionante das gargantas que o rio talhiu ao longo de milénios.

Parque Natural do Douro Internacional

A sul, o Douro traça a fronteira com Espanha pelas suas arribas dramáticas. Área protegida de biodiversidade excecional, com abutres e águias-reais, e paisagens que parecem saídas de um quadro.

Albufeira do Azibo

Albufeira do Azibo em Macedo de Cavaleiros

Já no concelho de Macedo de Cavaleiros, esta paisagem protegida com praia fluvial e desportos náuticos é o complemento perfeito para quem visita a região no verão.

Gastronomia: o sabor de Trás-os-Montes

Nenhuma visita à região é completa sem sentar à mesa. A gastronomia transmontana é generosa, honesta e profundamente enraizada na terra.

Em Mogadouro, a posta mirandesa é um ritual obrigatório. O cabrito e o borrego assados, o javali, as costeletas de borrego grelhadas e os fumeiros que se penduram nas lojas da aldeia completam uma mesa que não precisa de artifícios.

Para a sobremesa, os bolos económicos típicos de Mogadouro, as rosquilhas de forno, os barquinhos e rochedos de Alfândega da Fé (feitos com amêndoa local) e o queijo de ovelha com compota de marmelo são escolhas impossíveis de errar.

Torre de Moncorvo
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Como chegar

A Ponte Sardão-Meirinhos integra o IC5, o principal acesso rodoviário à vila de Mogadouro.

A partir do Porto, a viagem demora cerca de duas horas e meia. De Lisboa, cerca de quatro horas. Não existe forma viável de chegar por transportes públicos aos miradouros e pontos naturais da região.

melhor época para visitar é entre fevereiro e outubro. Em fevereiro e março, as amendoeiras cobrem os campos transmontanos com uma floração branca de tirar o fôlego.

No verão, os Lagos do Sabor brilham com uma intensidade azul que justifica qualquer desvio. O outono, com as cores da folhagem e a temporada de caça, tem um charme mais silencioso e não menos poderoso.

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