Já entrou num stand de carros usados em Portugal e ficou sem palavras com o preço que lhe pediram? Não está sozinho. Atualmente, os portugueses confrontam-se com um mercado de automóveis em segunda mão onde os preços parecem ter perdido o contacto com a realidade.
Um carro de cinco anos, com 100 mil quilómetros, a custar praticamente o que custaria novo há uma década. Como é que chegámos aqui?
Mercado de carros usados: uma fotografia atual
Antes de entrar nas causas, convém perceber a dimensão do problema. Em Portugal, vendem-se cerca de 800 mil carros usados por ano, quatro vezes mais do que carros novos.
O mercado de usados é, de longe, a espinha dorsal do comércio automóvel português e a procura só aumenta. No final de 2025, a procura por carros usados cresceu 25% face ao período homólogo do ano anterior.
A oferta de veículos abaixo dos 30 mil euros diminuiu enquanto a procura por esses mesmos veículos disparou até 32%. O desequilíbrio é evidente e o preço paga essa factura.
7 razões que explicam os preços elevados

Podemos dizer que cada cabeça, sua sentença. Toda a gente que está no mundo automóvel terá uma lista de razões sobre o porquê de os carros usados estarem tão caros. No entanto, há algumas razões que são mesmo incontornáveis:
ISV: o imposto que encarece tudo logo ao início
O Imposto Sobre Veículos (ISV) é talvez a causa mais estrutural do problema. Em teoria, é um imposto ambiental que penaliza carros mais poluentes. Na prática, encarece todos os carros novos em Portugal de forma significativa, o que, por efeito dominó, inflaciona também os preços dos usados.
Quando um carro novo entra caro no mercado, o seu valor de revenda nunca desce para valores “normais”. O preço de referência inicial é artificialmente alto e o mercado de usados ajusta-se a essa base. Além disso, quem importa um carro usado do estrangeiro volta a pagar ISV (com desconto por idade, mas ainda assim um custo real).
Portugal surge consistentemente entre os países europeus onde é mais caro comprar e manter um automóvel, seja ele novo ou usado.
Pandemia criou cicatriz no mercado
A COVID-19 perturbou profundamente as cadeias de abastecimento globais. A crise dos semicondutores, que começou em 2020 e se prolongou por anos, travou a produção de carros novos em todo o mundo.
Os fabricantes passaram a ter listas de espera de meses e as gestoras de frotas, que habitualmente alimentam o mercado de seminovos, deixaram de ter carros novos para substituir as suas frotas.
O resultado? Os carros de segunda mão tornaram-se mais escassos e, por isso, mais caros. A procura disparou precisamente quando a oferta diminuiu. Esta tempestade perfeita fez subir os preços de forma expressiva e o mercado ainda não regressou totalmente ao equilíbrio pré-pandemia.
Carros novos mais complexos (e caros)
Os automóveis modernos são objetos tecnologicamente sofisticados. Sistemas de assistência à condução, ecrãs táteis, conectividade permanente, motorizações eletrificadas. Tudo isto tem um custo.
A adaptação às normas ambientais cada vez mais exigentes (e às utópicas metas da União Europeia para 2035, que preveem o fim do motor de combustão nos carros novos) também obriga os fabricantes a investimentos enormes.
Esses custos repercutem-se no preço de venda e, consequentemente, no valor residual dos carros usados. Um híbrido chega facilmente aos 30 000 euros em Portugal. O que acontece quando esse carro aparecer no mercado de usados daqui a cinco anos? O preço de partida vai ser elevado.
Mais procura, menos oferta
Com 93% dos portugueses a considerar os carros novos demasiado caros, o mercado de usados tornou-se o único ponto de entrada acessível para a maioria das famílias. Mais de metade dos portugueses planeia comprar carros usados nos próximos cinco anos, um valor acima da média europeia.
Essa procura crescente pressiona os preços para cima. Enquanto houver compradores dispostos a pagar, os vendedores não têm incentivo para baixar os preços.
Mercado de seminovos secou

As gestoras de frotas são um dos principais fornecedores de carros usados de qualidade. Normalmente, ao fim de dois ou três anos, os veículos de frota entram no mercado de seminovos a preços razoáveis e com quilometragens controladas.
Mas após a pandemia, com a escassez de carros novos, as gestoras passaram a prolongar os contratos de renting, alguns chegaram a renovar os mesmos veículos duas ou três vezes, ou a aplicar renting a carros com até três anos de idade. O canal que alimentava o mercado de seminovos apertou e a consequência foi uma quebra de oferta que ainda hoje se faz sentir.
Inflação e custo do crédito
A subida das taxas de juro nos últimos anos tornou o crédito automóvel mais caro. As famílias recorrem cada vez mais ao financiamento para comprar carro (76% dos créditos automóveis pedidos em Portugal destinam-se a carros usados) com taxas a rondar dois dígitos.
Em média, uma família portuguesa pede cerca de 14 500 euros de crédito para um carro usado. Paradoxalmente, quando o crédito é caro, os compradores tendem a escorrer para segmentos mais baratos do mercado de usados, aumentando a concorrência, e os preços, nessa faixa. É um ciclo difícil de quebrar.
Transição elétrica criou incerteza
O abandono progressivo dos motores diesel nos carros novos está a criar uma dinâmica inesperada nos usados. Com os fabricantes a descontinuar motorizações a gasóleo, os diesels usados ficaram mais escassos e a sua procura subiu, puxando os preços para cima.
Em 2024, cerca de 40% dos carros usados importados em Portugal eram diesel, o que demonstra o apetite do mercado por estas motorizações. Por outro lado, os carros elétricos usados enfrentam desconfianças quanto à degradação da bateria e custos de manutenção imprevisíveis, o que limita a sua penetração no mercado de segunda mão.
O resultado é um mercado desequilibrado: poucos diesels disponíveis, elétricos que não convencem, e uma classe média sem alternativas acessíveis.
O que se pode esperar para o futuro?

Os sinais do mercado em 2025 e inícios de 2026 não são animadores para quem procura um usado a bom preço. O preço médio dos carros usados nos stands profissionais subiu para os 24 200 euros no final de 2025, um aumento anual de 2,5%.
A oferta de carros abaixo dos 30 000 euros está a diminuir, enquanto a procura por esses veículos dispara.
Para que os preços baixem de forma sustentada, seria necessária uma conjugação de fatores difícil de alcançar a curto prazo.
Falamos de uma reforma fiscal que reduza o peso do ISV, retoma plena da produção de carros novos a preços acessíveis, e um mercado de seminovos mais robusto.
É que atualmente, Portugal não é apenas mais um país europeu caro para ter carro. É, sistematicamente, um dos mais caros.