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Há um comboio a vapor que sopra fumo sobre as colinas da Provença francesa, atravessa viadutos de pedra, contorna aldeias medievais e carrega consigo mais de cem anos de história e tem raízes profundamente portuguesas. Sim, a Portugaise.
A «Portugaise» é o nome carinhoso com que os habitantes da região Sul de França baptizaram a locomotiva a vapor E 211 Mallet, que puxa o célebre Train des Pignes nas suas circulações históricas. Esta máquina nasceu em Portugal, trabalhou em Portugal durante décadas e só depois atravessou os Pireneus para terminar a sua vida activa no coração da Provença.
A alcunha «Mallet» vem do nome do engenheiro suíço Anatole Mallet, que desenhou o sistema articulado que permite a estas locomotivas negociar as curvas apertadas de linhas de montanha. Uma engenharia inteligente para paisagens exigentes.
Portugaise: uma máquina com passaporte português
A história da «Portugaise» começa em 1923, nos ateliers alemães da Henschel & Sohn, em Kassel. Construída a pedido dos Caminhos de Ferro Portugueses, fez parte de uma série de dezasseis locomotivas articuladas, numeradas de E 201 a E 216, que percorreram durante décadas as linhas do Minho e Douro, no norte de Portugal.
Durante 63 anos a E 211 serviu as linhas portuguesas, transportando passageiros e mercadorias pelos vales verdes do Noroeste do país. Em 1986, chegou ao fim desta primeira vida e o Groupe d’Étude pour les Chemins de fer de Provence (GECP) adquiriu a locomotiva e transportou-a para o Sul de França.
Depois de uma exigente revisão, a «Portugaise» regressou aos carris em junho de 1988, desta vez ao serviço do Train des Pignes, onde trabalhou por cinco temporadas até ao verão de 1992. Classificada monumento histórico, ficou então parada à espera de uma revisão profunda, trabalhos que decorreram entre 2005 e 2010 nos ateliers italianos Lucato Termica.
Desde 19 de junho de 2010, a «Portugaise» está em serviço todos os anos em França, assegurando as circulações históricas do Train à Vapeur des Pignes entre Puget-Théniers e Annot, com paragem em Entrevaux.
Centenário de 2023: 100 anos de vida extraordinária

Em 2023, a E 211 cumpriu cem anos e a celebração esteve à altura da data. Nas Journées du Patrimoine de setembro, uma exposição dedicada às duas locomotivas portuguesas Mallet restauradas pelo GECP foi montada em Puget-Théniers, em parceria com a associação Puget Photo Partage.
Numa antiga montra da localidade foram expostos um cartaz, duas notas explicativas e dez fotografias que mostravam a E 211 e a sua irmã, a E 182, em serviço em Portugal. A «Portugaise» desfilou com as bandeiras portuguesa e francesa hasteadas, nos cenários turísticos da Costa Azul, um gesto simbólico que resume bem a sua dupla identidade.
Entretanto, uma segunda locomotiva, a E 182, foi adquirida por um membro do GECP e transferida para Puget-Théniers em março de 2020, aguardando restauro. O GECP, que tem a sua sede e o depósito de locomotivas nesta localidade dos Alpes Marítimos, tem já um novo desafio pela frente.
O Train des Pignes: uma linha com alma
Para perceber o que torna este passeio tão especial, é preciso conhecer a linha que o suporta. A linha Nice–Digne-les-Bains, com 151 quilómetros em via métrica e mais de mil obras de arte (viadutos, túneis, pontes), foi inaugurada a 6 de agosto de 1911 após décadas de planeamento.
A ideia surgiu em 1861, da mente de Alphonse Beau de Rochas, engenheiro nascido em Digne-les-Bains e inventor do motor de quatro tempos, que sonhava ligar o Mediterrâneo aos Alpes.
O nome «Pignes», que em provençal designa as pinhas dos pinheiros, tem, segundo a lenda mais afectuosa, uma origem bem-humorada: o comboio era tão lento que os passageiros tinham tempo de saltar, apanhar pinhas do chão e voltar a embarcar. Hoje, esse ritmo pausado é precisamente o que torna a viagem tão apreciada.
O percurso: o que se vê da janela?
A viagem a vapor começa na Gare de Puget-Théniers, no coração do país do olival. Com uma duração de cerca de 1h20 por trajecto, o comboio percorre paisagens que mudam a cada curva: oliveiras, sobreiros, castanheiros, gargantas, cursos de água e montanhas.
O ambiente na estação, antes da partida, já é por si só uma experiência. O fogueiro enche a caldeira, o ruído da vapor mistura-se com as conversas dos passageiros e os homens da equipa circulam pela grelha com a naturalidade de quem pertence a outra era. A 40 km/h, instalados em bancos de madeira envernizada em carruagens com mais de cem anos, os viajantes têm tempo de verdade para admirar o que a janela oferece.
Puget-Théniers: a terra do olival
Ponto de partida e chegada, esta pequena localidade dos Alpes Marítimos é o pórtico do Interior niçois. Os mais aventureiros podem aqui experimentar a via ferrata que contorna as encostas rochosas acima do rio Var.
Entrevaux: a cidade fortaleza
A meio do percurso, o comboio para em Entrevaux para abastecer de água. Esta antiga cidade-fronteira é um dos pontos altos da viagem, cercada de muralhas e dominada por uma cidadela que pertenceu ao génio militar de Vauban, Entrevaux parece saída diretamente de um livro de história medieval. As ruas estreitas, as arcadas e a catedral Notre-Dame de l’Assomption criam uma atmosfera que o tempo parece ter poupado.
Annot: pedra, ruelas e almoço
Destino final, Annot é um dos mais belos aldeamentos medievais da Provença. O comboio chega por volta do meio-dia, tempo suficiente para explorar as ruelas de pedra, passar sob as arcadas das casas de andares salientes e descobrir as casas troglodíticas encostadas aos rochedos.
A grande atração natural são os Grès d’Annot, blocos de arenito esculpidos pela erosão em formas insólitas, percorridos por trilhos de caminhada e reconhecidos a nível mundial. Uma paragem obrigatória para os amantes da natureza e da geologia.
Le Fugeret: destino secreto do outono
Em datas especiais, nomeadamente para a Festa das Castanhas, em novembro, o comboio prolonga o trajeto até Le Fugeret, uma aldeia de carácter rodeada de castanheiros e encostas abruptas. Uma viagem diferente, mais íntima, no adeus à temporada.
Informações práticas: como planear a visita?

Quando funciona? A temporada do Train des Pignes a vapor estende-se geralmente de maio a novembro:
- Todos os domingos, de maio a outubro
- Em julho e agosto, também às quintas e sextas-feiras
- Em setembro, aos sábados e domingos
- Comboios especiais para o Halloween (final de outubro) e a Festa das Castanhas (novembro)
Quanto custa? O bilhete de ida e volta Puget-Théniers–Annot custa cerca de 23 € por adulto. Existem tarifas para famílias. Os bilhetes estão disponíveis online, nos postos de turismo locais e a bordo (mas recomenda-se reserva antecipada na época alta).
Como chegar a Puget-Théniers? É possível chegar de Nice utilizando o próprio comboio regular dos Chemins de fer de Provence, que parte da Gare du Sud. Existe também a possibilidade de adquirir um bilhete combinado.
Vale a pena reservar restaurante em Annot? Sim. Ao domingo, os restaurantes locais ficam cheios durante o intervalo do comboio. Reservar com antecedência garante uma experiência mais tranquila.
Uma máquina portuguesa no coração da Provença
No fim, há qualquer coisa de poético na ideia de uma locomotiva que nasceu nos ateliers alemães para servir os caminhos de ferro portugueses, que respirou o ar húmido do Douro por décadas, e que agora sopra vapor sobre as garrigue provençais, entre oliveiras e castanheiros, com as bandeiras de Portugal e França a tremularem na sua popa.
A «Portugaise» não é apenas uma peça de museu em movimento. É uma história de segunda vida, de recuperação, de amor pelo património ferroviário e de uma ligação improvável mas real entre Portugal e a Provence.
Se um dia passar pelo Sul de França entre primavera e outono, reserve um domingo, suba a bordo em Puget-Théniers e deixe-se levar pelo ritmo pausado desta máquina centenária.