Há ironias que não têm graça nenhuma e um país conhecido pela luz, pelo “clima ameno” e pelas varandas com roupa ao sol, aparecer entre os piores da União Europeia quando o assunto é pobreza energética e aquecimento.
E não estamos a falar de “hoje está fresco”. Estamos a falar de gente a viver o inverno dentro do casaco, dentro de casa. Um indicador do Eurostat mede a percentagem da população que não consegue manter a casa adequadamente aquecida por falta de capacidade financeira.
Em 2023, Portugal surge no grupo da frente, com 20,8% da população a não conseguir aquecer a casa, valor idêntico ao de Espanha, e só atrás de poucos países (Bulgária, Lituânia, Grécia também muito elevados). A tradução simples diz que 1 em cada 5 pessoas passava frio em casa
Em 2024, houve uma melhoria na UE (média 9,2%) e os piores valores passam a ser Bulgária e Grécia (19%), seguidas de Lituânia (18%) e Espanha (17,5%). Ou seja, o retrato muda de ano para ano, mas o problema não desaparece, só troca de lugar no ranking.
Portugal está mesmo no top 4 da pobreza energética na Europa?
Em 2023, Portugal esteve entre os países com maior percentagem
de população incapaz de aquecer adequadamente a casa (20,8%), figurando
no grupo de topo da UE.
O que significa “não conseguir aquecer a casa” nos dados do Eurostat?
Significa incapacidade financeira para manter a habitação adequadamente aquecida.
A situação melhorou em 2024?
A nível da UE melhorou (9,2%). Em Portugal, há indicadores que
apontam descida para valores ainda elevados (ex.: 15,7% referido pela ADENE).
Porque é que um país “ameno” tem tanta pobreza energética?
Porque o problema é menos sobre clima e mais sobre qualidade
da habitação, rendimento disponível e custos de energia.
O que é a pobreza energética
Pobreza energética não é só “não ter gás”. É quando um agregado não consegue pagar o que precisa para viver com um mínimo de conforto e saúde, como aquecer no inverno, arrefecer no verão, cozinhar, ter água quente, evitar humidade e bolor.
E isto tem efeitos em cadeia, designadamente ao nível da saúde respiratória, bem-estar, sono, produtividade, crianças a estudar com frio, idosos vulneráveis. A casa deixa de ser refúgio e vira problema.
Porque é que Portugal fica tão mal na fotografia?
Casas antigas, mal isoladas e “frias de raiz”
Há muita habitação com isolamento fraco, caixilharia velha, infiltrações, paredes húmidas. E uma casa assim não “aguenta” calor, ou seja, o aquecedor liga, o dinheiro sai, o conforto não fica.
Há também uma realidade estrutural. Muitos edifícios têm classificações energéticas baixas (C ou inferior) e isso empurra famílias para escolhas impossíveis (aquecer ou pagar outras contas).
Rendimentos apertados e energia cara
Mesmo quando o preço “médio” parece comportável em teoria, na prática há demasiada gente a viver no limite. O aquecimento é o primeiro a ser cortado. Não devia ser, mas é.
Um país que aquece de forma desordenada
Em Portugal aquece-se por divisões, por aparelhos soltos, muitas vezes de forma improvisada. É uma questão económica e de infraestrutura. O resultado é que aquecer custa mais e rende menos.
Ruralidade e casas maiores
A evidência europeia aponta que áreas rurais tendem a ter habitação mais antiga e menos eficiente, o que agrava a vulnerabilidade.
A boa notícia: há sinais de melhoria

Segundo a Agência para a Energia (ADENE), o indicador “incapacidade de manter a casa adequadamente aquecida” para Portugal em 2024 é apontado em 15,7% (ainda alto, mas melhor do que 2023).
E há um esforço institucional mais visível, com o Observatório Nacional da Pobreza Energética (ONPE) a medir, explicar e apoiar políticas públicas.
O que pode mesmo ajudar
Reabilitação térmica a sério, com isolamento, janelas, coberturas, ventilação adequada. Avançar com programas que cheguem a quem precisa, com menos burocracia e apoios direcionados a famílias vulneráveis e zonas com habitação mais degradada.
É importante ainda contar com Informação clara sobre apoios e eficiência (literacia energética) e promover intervenções pequenas com retorno rápido, como vedantes, isolamento simples, cortinas térmicas e manutenção de equipamentos.