Por vezes, o mundo automóvel oferece-nos realidades paralelas fascinantes e nenhuma é tão intrigante como o catálogo da Renault brasileira.
A marca francesa, que em Portugal nos habituou a nomes como Clio, Mégane ou Captur, assume por terras de Vera Cruz uma personalidade distinta, com modelos próprios, outros com nomes diferentes e até alguns que jamais pisaram solo europeu.
Este fenómeno, embora estranho à primeira vista, tem explicações claras. São estratégias de mercado, contextos económicos distintos, gostos culturais e necessidades de mobilidade específicas de cada região.
No caso, a Renault brasileira adaptou-se, e bem, às exigências locais, criando uma linha de produtos que combina robustez, acessibilidade e simplicidade mecânica. Mas, para nós deste lado do Atlântico, o resultado é quase exótico.
Renault Kwid: o mini SUV que queria ser gigante

Um dos exemplos mais notórios é o Renault Kwid. Lançado como o “SUV dos compactos”, este pequeno citadino é um verdadeiro best-seller no Brasil. Com dimensões diminutas e estética inspirada nos SUV, o Kwid é, na verdade, um modelo nascido na Índia e adaptado para os mercados emergentes.
Na Europa? Nunca se viu. Bem, é muito parecido com o Dacia Spring, é verdade. Apesar do seu tamanho reduzido, o Kwid oferece uma altura ao solo generosa e um visual musculado que agrada ao público brasileiro, mais habituado a estradas difícieis e a desafios urbanos.
A simplicidade mecânica torna-o acessível e barato de manter, características essenciais num país onde o custo de propriedade pesa bastante na decisão de compra.
Captur: o mesmo nome, outro automóvel

Se dissermos que o Renault Captur está disponível no Brasil, um europeu poderá pensar que se trata do mesmo crossover elegante que conhecemos bem nas estradas portuguesas. Mas a semelhança acaba no nome.
O Captur brasileiro é, na realidade, uma adaptação do Kaptur russo (sim, com “K”) montado sobre a plataforma do antigo Duster, e com dimensões ligeiramente maiores.
O design foi suavizado para se aproximar da estética europeia, mas por baixo da carroçaria, tudo é diferente: a plataforma, a mecânica e até o comportamento em estrada.
A versão brasileira até oferece motorização turbo 1.3 TCe, algo que até parece mais sofisticado do que a realidade de alguns modelos europeus. Mas, no geral, o Captur tropical é um produto desenhado para resistir ao calor, às estradas de terra e ao uso intensivo.
Duster Oroch: a pick-up que gostaríamos de ter

Outro exemplo de exclusividade sul-americana é a Renault Duster Oroch. Nunca ouviu falar? Não se preocupe, não é o único.
A Oroch é uma pick-up de cabine dupla baseada no conhecido Duster, mas com um conceito muito mais utilitário. Criada para preencher o espaço entre as pick-ups compactas e as médias, oferece versatilidade e espaço de carga num pacote acessível.
Com um design robusto, tração integral disponível em algumas versões e motores fiáveis, a Oroch poderia ter o seu lugar no mercado europeu, especialmente em contextos mais rurais ou profissionais. Mas, até agora, a Renault Europa não mostrou intenção de a importar.
Sandero e Logan: sucessos evidentes

Os nomes Sandero e Logan podem soar familiares aos condutores europeus, sobretudo enquanto modelos da Dacia.
Contudo, no Brasil, foram vendidos como Renault, com algumas diferenças no design e no acabamento. Agora saíram de produção, mas foram um sucesso assinalável.
Esta curiosa inversão de marcas (Dacia na Europa, Renault no Brasil) é apenas uma questão de posicionamento. No mercado brasileiro, a Renault tem mais prestígio e uma rede consolidada de distribuição.
E a segunda geração destes modelos recebeu melhorias significativas, incluindo versões automáticas e acabamentos mais sofisticados, mas continuaram a ser, essencialmente, carros práticos e de custo controlado, tal como na Europa.
Saíram das linhas de produção para abrir caminho a mais uma novidade da Renault brasileira.
Kardian: o futuro tropical da Renault

Com o crescimento dos SUV e crossovers, a marca tem vindo a apostar fortemente na renovação do seu portefólio no Brasil. Modelos como o Kardian (um SUV urbano desenvolvido especificamente para a América Latina) mostram que a marca está disposta a investir seriamente nos seus mercados fora da Europa.
E nós, do lado de cá, ficamos a observar com curiosidade este universo alternativo da Renault brasileira, onde o losango francês veste outras roupas, fala outra língua e responde a outras necessidades.
Se é verdade que muitos destes modelos poderiam ter algumas complicações com as regulamentações europeias, também é certo que há algo de refrescante nesta abordagem descomplicada ao automóvel.
Talvez um dia vejamos um Kwid elétrico a circular nas ruas de Portugal ou uma Oroch nas mãos de um agricultor transmontano. Até lá, só nos resta admirar, e invejar um pouco, esta Renault que, apesar de ser a mesma, é tão diferente.