Share the post "Trilho do morto que matou o vivo: lenda e natureza na Serra da Arada"
Sim, o nome é mesmo o Trilho do morto que matou o vivo. É estranhos, sabemos, mas não deixa de ser curioso e a merecer uma vista e uma caminhada pela natureza exuberante que o abraça.
Fica na Serra da Arada, em São Pedro do Sul, ligando a aldeia da Pena à aldeia de Covas do Rio. São três quilómetros de caminho antigo, íngreme e não sinalizado, que esconde uma das histórias mais insólitas do folclore português.
Para quem ainda não conhece esta região, prepare-se para ser surpreendido. É que a Serra da Arada integra o território das chamadas Montanhas Mágicas, uma região turística do interior centro de Portugal onde a natureza ainda dita as regras e as aldeias de xisto resistem ao tempo com uma dignidade silenciosa.
A lenda do trilho do morto que matou o vivo
A história tem a textura das que se contam à lareira, entre o crível e o impossível. Antigamente, a aldeia da Pena não tinha cemitério próprio. Quando alguém morria, o caixão tinha de ser transportado a braços pelo carreiro acima até Covas do Rio. Era uma tarefa dura, física e que exigia esforço coletivo.
Num desses trajetos fúnebres, o terreno traiçoeiro fez a sua parte: um dos carregadores escorregou, o caixão resvalou encosta abaixo e levou consigo um dos homens que o transportava. O morto tinha matado o vivo. A narrativa perpetuou-se de geração em geração, e o caminho acabou por ficar com o nome do incidente.
É provável que outras aldeias do país reivindiquem uma história semelhante, mas é à Pena (e ao vale do Ribeiro da Pena) que a lenda fica mais associada. Como diz quem conhece bem estas paragens, não há fumo sem fogo.
Três quilómetros de outro mundo

O trilho começa na aldeia da Pena, uma das 7 Maravilhas de Portugal e um lugar que parece ter ficado preso no tempo.
As casas de xisto, as ruelas estreitas e as encostas que a abraçam fazem desta aldeia um destino por si só, antes mesmo de se dar o primeiro passo no trilho.
A partir daqui, o caminho desce ao longo do Ribeiro da Pena em direção a Covas do Rio. O terreno é bastante íngreme e com pedra solta, especialmente nos primeiros metros após sair da aldeia, pelo que é necessário calçado adequado e atenção redobrada. Apesar disso, o percurso é acessível a todas as idades, desde que as pessoas estejam preparadas para o esforço.
Quem prefere uma experiência mais completa pode optar pela versão circular, que inclui também a aldeia de Covas do Monte e permite percorrer paisagens variadas, desde o bosque denso do vale até às colinas cobertas de urzes e carquejas que anunciam a serra aberta.
Este trilho não está sinalizado. Recomenda-se fortemente a contratação de um guia local ou a participação numa caminhada organizada. O percurso manteve-se intacto após os incêndios de 2016, o que é, por si só, um testemunho da sua robustez natural.
Uma floresta que surpreende
Mas o que verdadeiramente distingue este trilho de tantos outros em Portugal não é apenas a lenda, é a riqueza botânica que o envolve. Ao longo dos três quilómetros contam-se mais de 20 espécies de árvores diferentes, todas autóctones. Um conjunto raro que transforma o vale num bosque de outro tempo.
O ulmeiro-da-montanha (Ulmus glabra) é particularmente notável por ser uma espécie bastante rara em Portugal. Ao longo do caminho é também possível avistar o heléboro, uma planta rara nesta região que aparece com alguma frequência nestas margens húmidas.
Fósseis com 480 milhões de anos
A biodiversidade não se fica pela flora. Quem percorre este vale com olhos atentos pode observar o falcão peregrino, que sobrevoa a zona com alguma frequência, assim como a toupeira-de-água, presente na bacia hidrográfica do rio Deilão.
Junto às margens da ribeira, é possível encontrar a salamandra-lusitânica e a rã-ibérica, dois anfíbios que preferem os ambientes frescos e húmidos desta galeria ripícola.
Mas há ainda uma surpresa geológica que não espera ninguém, a Livraria da Pena. Este geossítio, classificado na Rota da Água e da Pedra, é um afloramento rochoso onde são visíveis icnofósseis de trilobites com cerca de 480 milhões de anos.
Trilho do morto que matou o vivo: como chegar

O ponto de partida habitual é a aldeia da Pena, em São Pedro do Sul, distrito de Viseu. A aldeia está situada na Serra de São Macário, a cerca de 10 km a norte.
A estrada de acesso é estreita e sinuosa, mas ela própria já faz parte da experiência, como quem desce às profundezas da terra antes de encontrar a aldeia erguida em xisto.
O percurso integra a Rota da Água e da Pedra, uma rota turística que se estende do Douro ao Vouga, atravessando as serras da Arada, Freita e Montemuro.
Na proximidade existem outros pontos de interesse como São Macário, o Portal do Inferno, Covas do Monte e as turfeiras da Fraguinha.
Quando visitar
O trilho pode ser percorrido durante todo o ano, mas a primavera é a época de eleição. É nesta estação que as árvores e plantas estão em flor, que as cores do bosque atingem a sua máxima intensidade e que a água corre com mais força pela ribeira. Nos meses de verão, a secção entre Covas do Rio e Covas do Monte pode ser particularmente quente por ser mais exposta ao sol. Por isso, convém sair cedo.