Pedro Martins
Pedro Martins
27 Mar, 2019 - 15:10
Volkswagen Carocha: do tempo da guerra

Volkswagen Carocha: do tempo da guerra

Pedro Martins

Nasceu antes da II Guerra Mundial e cumpriu serviço nas tropas alemãs. Foi um dos carros mais vendidos do mundo. Chama-se Volkswagen Carocha e o responsável pela sua invenção foi Ferdinand Porsche.

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O Volkswagen Carocha é um dos automóveis mais famosos do mundo e foi, durante muito tempo, o carro mais produzido globalmente. O Volkswagen Carocha está ligado ao nome Porsche, embora com uma geração de diferença até chegar aos carros de Züffehausen. Como explicamos na história do Porsche 911, o responsável do Carocha foi Ferdinand Porsche, pai do Ferdinand criador do Porsche 356 e avô do Ferdinand que concebeu o primeiro 911.

Antes do Volkswagen Carocha ser produzido com sucesso, houve algumas tentativas infrutíferas. Ferdinand Porsche construiu três protótipos para a Zündapp, fabricante de motos que pretendia lançar-se no mercado dos automóveis. A empresa que solicitou o projeto a Ferdinand forneceu o motor radial 1.2 de cinco cilindros, género de motorização muito utilizada em aeronaves, que dispunha dos cilindros em torno de um ponto central.

Por razões financeiras, a Zündapp cancelou o contrato e durante a guerra os protótipos desapareceram. Ferdinand Porsche acabou por desenvolver um novo Volkswagen com a NSU. Já tinha motor boxer de quatro cilindros e suspensão por barras de torção. Mais uma vez, por razões financeiras acabaram por ditar o fim do projeto. O protótipo que Ferdinand guardou, sobreviveu à grande guerra e está no museu da Volkswagen, na Alemanha.

Volkswagen Carocha: pedido de Hitler

Volkswagen Carocha

Decidido a desenvolver um carro alemão que servisse o interesse dos alemães, Hitler procurava um responsável que pudesse dar forma à sua ambição. Após a apresentação dos projetos por parte de três engenheiros, Ferdinand – com conhecimentos privilegiados junto do Fürher -, acabou por ser selecionado. Hitler tinha um caderno de encargos específico e com exigências como transportar dois adultos e três crianças, não gastar mais que 7l/100 km, manter velocidades de 100 km/h, motor refrigerado a ar e manutenção fácil e económica.

Após alguns meses de negociações, o contrato foi assinado em Junho de 1934. O desenvolvimento do projeto Volkswagen Carocha foi conturbado e encontrou diversas dificuldades, quer técnicas, quer impostas por entidades que deveriam aprovar o carro. A empresa responsável por testar e aprovar o carro tinha preferência por carros de luxo (habituada ao período antes da guerra) e o Volkswagen Carocha era tudo menos isso.

Outro dos obstáculos era Heinrich Nordhoff, um executivo ligado à Opel (que viria, ele próprio, a ser responsável pelo sucesso do Carocha), para quem os automóveis deveriam ser construídos pelos fabricantes e não pelo estado. Após meses de ensaios com vários tipos de motores, em outubro de 1936, o Carocha foi submetido a rigorosos e extensos testes de estrada, que passou com distinção. Após muitos outros protótipos do Carocha, utilizados para diversos fins, e com o Volkswagen já pronto para início de produção, a associação RDA – responsável pela aprovação do “carro do povo” – acabou por interromper o projeto do Carocha, ligado ao estado.

Para levar avante a produção daquele que viria a ser um carro icónico, foi fundada uma sociedade especificamente para a construção do automóvel. A 15 de agosto de 1940, sai das linhas de produção o primeiro Carocha, mas ainda sem se chamar Volkswagen. Chamava-se KdF, de Kraft durch Freude, numa tradução livre, “veículo da Força pela Alegria”. Dos 640 KdF-Wagen produzidos, nenhum deles chegou ao povo, tendo ficado todos na elite do partido nazi.

Volkswagen Carocha: carro de guerra

Durante a segunda Guerra Mundial, a força de produção foi centrada em prol do exército alemão. O Volkswagen Carocha deu azo a outros tipos de veículos para uso militar. É conhecido o Kübelwagen, uma espécie de todo-o-terreno, com tração 4×2, que permitia deslocações por caminhos mais difíceis ou acidentados. A mesma base serviu para criar um carro anfíbio e um outro carro destinado a oficiais. Este já se distinguia pela carroçaria aerodinâmica que conhecemos do Carocha e destinava-se a patentes mais elevadas do exército alemão.

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Depois da guerra, a fábrica onde se produzia o Volkswagen – batizada Wolfsburg – foi reativada pelo Major britânico Ivan Hirst, produzindo o Carocha para o povo alemão e forças de ocupação. Em 1948, a administração da fábrica passou para as mãos de Heinz Nordhoff, que nunca vira o Carocha com bons olhos quando o carro foi apresentado.

Nordhoff acabou por ser responsável pelo aumento de produção, promovendo o Volkswagen a vários níveis e atraindo novos clientes com a fiabilidade e simplicidade como trunfos. Foi o responsável pelo início de exportação do Carocha, nomeadamente para os Estados Unidos, onde se chamava Beetle.

O carro mais vendido do mundo

Volkswagen "Pão de forma"

A adaptação do Volkswagen Carocha fora da Alemanha não foi um processo fácil. Além das contrariedades do menor valor da moeda alemã face ao dólar, os americanos – bem como clientes de outros países – não estavam acostumados a carros com uma estética tão peculiar e uma motorização refrigerada a ar. A adaptação do Carocha começou a ser mais fácil à medida que as dificuldades económicas desciam.

Surgiu a oportunidade de investir mais em manobras de publicidade e marketing. Os custos de manutenção reduzidos, consumos abaixo dos de automóveis concorrentes, fiabilidade e versatilidade eram argumentos usados na venda. A base mecânica do Carocha deu azo a outros modelos, como o mais requintado Karmann Ghia ou a carrinha Kombi, conhecida como “Pão de Forma”, que usava o mesmo motor apesar de outro chassis.

Novas dificuldade financeiras, durante os anos 1950, impediram a Volkswagen de investir na evolução do Carocha, o carro único da marca e que, com a passagem do tempo, precisava de progredir. Os mercados sul americanos foram alguns dos responsáveis pela continuidade do sucesso do Carocha nas décadas seguintes.

O Volkswagen Carocha foi o carro mais vendido do mundo por muitos anos, com mais de 24 milhões de unidades. A Volkswagen terminou a produção do Beetle nos anos 1980, exceto na fábrica mexicana de Puebla, de onde a última unidade saiu no dia 30 de Julho de 2003. Está no Museu da Volkswagen, na Alemanha.

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