Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
10 Jun, 2026 - 08:00

10 de junho: o que é o Dia de Portugal, como nasceu e o que representa hoje

Cláudia Pereira

O 10 de junho celebra Portugal, Camões e a diáspora. Saiba a história do feriado, como nasceu, o que representa e porque escolhemos um poeta como símbolo nacional.

Todos os anos, a 10 de junho, Portugal para. Há cerimónias militares, discursos presidenciais, bandeiras hasteadas e comemorações espalhadas por cidades de quatro continentes. Mas o que está verdadeiramente por detrás desta data? Porque é que o dia nacional de Portugal homenageia um poeta e não uma batalha ou uma revolução? A resposta é mais rica e mais disputada do que parece.

Tudo começa com Camões e com alguma incerteza histórica

O 10 de junho assinala a data em que terá morrido Luís Vaz de Camões. A data exacta, porém, é menos óbvia do que parece: foi estabelecida no século XIX pelo Visconde de Juromenha, que descobriu na Torre do Tombo um documento relativo a um pagamento feito à mãe do poeta após a sua morte, e a partir daí fixou o ano de 1580 e o dia 10 de junho. Os historiadores actuais inclinam-se, aliás, para que a morte tenha ocorrido em 1579, mas a tradição comemorada em 1880 ficou e perpetuou-se.

O que é incontestável é que Camões foi o autor d’Os Lusíadas, publicado em 1572, o poema épico que narra a viagem de Vasco da Gama à Índia e, ao fazê-lo, celebra a história e o carácter de Portugal. Uma obra escrita longe da pátria, pois, Camões passou anos em Ceuta, em Goa, em Macau e que se tornou o espelho literário de uma nação em expansão. Como sublinhou o Presidente da República António José Seguro nas comemorações de 2026, no Luxemburgo, “Camões escreveu Os Lusíadas longe de Portugal” e talvez seja isso que o torna tão próximo de todos os portugueses que vivem fora.

De feriado municipal a feriado nacional: uma história longa

A data não nasceu feriado nacional. O percurso até aí foi lento e atravessou regimes políticos muito diferentes.

1880 – A primeira homenagem. A primeira referência oficial ao 10 de junho como dia festivo surge com um decreto do rei D. Luís I, que declarou a data “Dia de Festa Nacional e de Grande Gala” para assinalar os 300 anos da morte de Camões. Foi uma celebração pontual, não um feriado permanente. A iniciativa partiu em grande medida de Teófilo Braga, destacado intelectual republicano, e transformou-se numa das primeiras grandes manifestações de massas do movimento republicano em plena monarquia.

1910 A República laiciza os feriados. Com a implantação da República, a 5 de outubro de 1910, o Estado remodelou o calendário de feriados, eliminando os de cariz religioso e substituindo-os por datas cívicas. Nesse contexto, Lisboa escolheu o 10 de junho como feriado municipal em honra de Camões. Em 1925, a Lei n.º 1.783 consagrou-a oficialmente como “Festa de Portugal”, celebrada a 10 de junho de cada ano.

1933–1974 – O Estado Novo e o “Dia da Raça”. Foi com o regime de Salazar que o 10 de junho ganhou peso de feriado nacional com toda a pompa institucional — mas com uma designação que ainda hoje gera desconforto: “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”. O epíteto “da Raça” foi introduzido por Salazar em 1944, na inauguração do Estádio Nacional do Jamor, e serviu a narrativa imperial do Estado Novo: a ideia de um Portugal “uno e indivisível”, que incluía as colónias africanas e asiáticas.

1978 – O nome que temos hoje. Com a Revolução dos Cravos em 1974 e o processo de democratização que se seguiu, a data foi profundamente ressignificada. Em 1978, o feriado passou a chamar-se oficialmente Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a denominação que mantém até hoje. O acrescento “das Comunidades Portuguesas” representou um reconhecimento explícito dos milhões de portugueses que viviam no estrangeiro e a intenção de os incluir na identidade nacional.

Três palavras, três ideias

O nome atual do feriado condensa três conceitos que vale a pena separar:

Portugal – a nação, o território, a história. O dia é um momento de reflexão colectiva sobre o que é ser português, sobre o legado dos Descobrimentos, sobre os desafios do presente. Cada ano, as cerimónias oficiais decorrem numa cidade diferente, continental, insular ou no estrangeiro, num gesto deliberado de descentralização e de afirmação da diversidade do país.

Camões – a língua, a literatura, a identidade cultural. Escolher um poeta como símbolo do dia nacional é uma opção invulgar no panorama internacional. A maioria dos países centra os seus dias nacionais em batalhas, independências ou revoluções. Portugal escolheu um escritor, o que diz muito sobre a forma como o país se vê a si próprio. Os Lusíadas não são apenas uma obra literária; são o documento fundador de uma identidade que transcende fronteiras geográficas.

Comunidades Portuguesas – a diáspora, a ligação ao mundo. Segundo o relatório Emigração Portuguesa 2025 do Observatório da Emigração (CIES-ISCTE), estima-se que cerca de 1,8 milhões de pessoas nascidas em Portugal residam no estrangeiro, o equivalente a 17% da população residente no país. França é o principal destino, com cerca de 600 mil portugueses, seguida da Suíça (204 mil), Estados Unidos (158 mil) e Reino Unido (156 mil). O 10 de junho é o dia em que Portugal reconhece formalmente este vínculo e em que as comunidades da diáspora organizam as suas próprias celebrações, de Paris ao Luxemburgo, de Newark a Toronto.

O que acontece nas comemorações oficiais

Todos os anos, o Presidente da República escolhe uma cidade como sede das comemorações — uma tradição que percorre Portugal de norte a sul, do continente às ilhas, e que nos últimos anos inclui sempre uma celebração no estrangeiro, junto de uma comunidade portuguesa significativa.

Em 2026, a escolha recaiu sobre a ilha Terceira, nos Açores, num ano em que se assinalam os 50 anos da autonomia regional, e sobre o Luxemburgo, onde vive uma das maiores comunidades portuguesas da Europa. O programa inclui cerimónias militares, hasteamento da bandeira, condecoração de individualidades com medalhas de mérito, discursos e eventos culturais e é transmitido em direto pela RTP.

O que distingue o 10 de junho do 25 de abril

As duas datas são feriados nacionais com forte carga identitária, mas celebram coisas diferentes.

O 25 de abril celebra a liberdade política: o fim da ditadura em 1974, a democracia, os direitos cívicos. É uma data de ruptura, de transformação do sistema.

O 10 de junho celebra a identidade cultural: a língua, a literatura, a herança histórica, a ligação à diáspora. É uma data de continuidade, de afirmação do que Portugal é ao longo do tempo, para além de qualquer regime político.

As duas datas são, nesse sentido, complementares e a sua coexistência no calendário diz muito sobre a forma como Portugal procura equilibrar memória e renovação.

Um feriado que ainda se debate

O 10 de junho não é uma data isenta de tensão. O passado “Dia da Raça” continua a suscitar reflexão sobre como a memória do colonialismo é — ou não — integrada nas comemorações oficiais. Há vozes que defendem que o feriado deve ser também um momento de questionamento crítico da história imperial, e não apenas de celebração. Outros sublinham que a ressignificação de 1978 foi precisamente esse gesto de ruptura com a narrativa colonial, ao centrar o feriado nas comunidades e na língua partilhada, em vez da “raça”. É um debate que o próprio nome do feriado, com a sua história de três designações diferentes em menos de um século, convida a fazer.

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