Share the post "Abuso digital em Portugal: 39% dos portugueses já foram vítimas"
Portugal está mais exposto ao abuso digital do que imagina e o problema maior não é a dimensão do fenómeno, mas o facto de a maioria das pessoas nem sequer o reconhecer como tal. Um estudo global da Kaspersky revela que 39% dos portugueses sofreu pelo menos uma forma de abuso tecnológico nos últimos 12 meses, enquanto apenas 32% consegue definir corretamente o conceito. A diferença entre estes dois números diz tudo: há pessoas que estão a ser perseguidas, assediadas ou monitorizadas sem saber que isso tem nome.
O que é o abuso tecnológico?
O abuso facilitado pela tecnologia engloba comportamentos abusivos praticados ou amplificados através de meios digitais: smartphones, redes sociais, plataformas de mensagens, aplicações de localização. Vai do assédio online e da exclusão digital até à perseguição, à usurpação de identidade e à monitorização não autorizada.
O que torna este tipo de abuso particularmente perigoso é a sua invisibilidade, pois, não deixa marcas físicas. Integra-se nas comunicações do quotidiano e, precisamente por isso, muitas pessoas normalizam-no ou simplesmente não o identificam como dano.
Segundo a investigação da Kaspersky, 68% dos portugueses não consegue definir corretamente o conceito de abuso tecnológico, o que, na prática, significa que quase dois em cada três adultos não reconhecem a ameaça quando ela surge.
“Esta falta de clareza faz com que muitas experiências não sejam identificadas, denunciadas ou apoiadas. Sem um enquadramento comum, continua a ser difícil medir a dimensão do problema ou responder-lhe de forma eficaz”, Dra. Leonie Maria Tanczer, Diretora do Gender and Tech Research Lab da Universidade de Londres.
Quais são as formas mais comuns em Portugal
Entre os portugueses que afirmaram ter sofrido abuso tecnológico, os padrões mais frequentes foram:
- Bloqueio e exclusão intencional para causar dano psicológico (14%);
- Discussões agressivas em grupos online (14%);
- Mensagens rudes ou ofensivas enviadas de forma repetida (10%).
Mas os dados não ficam por aqui. 4% dos portugueses inquiridos afirmaram ter sido vítimas de perseguição digital (stalking online) e 5% sofreram doxxing, a exposição pública de dados pessoais sem consentimento, com o objetivo de intimidar ou expor a vítima. Cada pessoa afetada viveu, em média, 2,3 tipos diferentes de comportamentos abusivos.
Stalkerware: a ferramenta de vigilância que atua em silêncio
O stalkerware é talvez a forma mais invasiva de abuso tecnológico. Trata-se de software instalado secretamente no dispositivo da vítima, geralmente por um parceiro, familiar ou conhecido, que permite monitorizar remotamente chamadas, mensagens, localização GPS, fotografias e histórico de navegação, sem que a vítima saiba.
Os números da Kaspersky são expressivos: entre 2024 e 2025, mais de 34 mil utilizadores foram afetados por stalkerware ao nível mundial. Nos últimos cinco anos, o total sobe para 127 mil vítimas em mais de 160 países. E o problema está em expansão, pois, foram identificadas 33 novas famílias de stalkerware ainda desconhecidas até então.
Como o software funciona em segundo plano e sem ser visível, a maioria das vítimas permanece completamente inconsciente de que todos os seus movimentos e atividades estão a ser monitorizados”, Tatyana Shishkova, investigadora sénior da Equipa Global de Investigação e Análise da Kaspersky.
Há sinais de alerta que podem indicar a presença deste tipo de software: consumo invulgarmente rápido da bateria, utilização inexplicável de dados móveis, aplicações instaladas que não reconhece, ou a opção “Fontes desconhecidas” ativada no dispositivo.
O mercado negro do abuso digital
Além do stalkerware, a Kaspersky identificou um ecossistema crescente de serviços de doxxing disponíveis em fóruns da dark web. Os preços variam entre 50 e 4.000 dólares, dependendo do tipo de informação e do perfil da vítima. Há ferramentas avançadas de vigilância capazes de seguir indivíduos em tempo real ou extrair dados pessoais de forma automatizada.
Estes serviços estão acessíveis a qualquer pessoa com acesso à internet e motivação para os usar. Não é um problema de nicho, é uma ameaça que pode afetar qualquer utilizador.
O que fazer se suspeitar de vigilância no seu dispositivo
A Kaspersky recomenda cautela antes de agir. Remover o stalkerware imediatamente pode alertar o agressor e agravar a situação. Por isso, as recomendações são:
Utilize um dispositivo de confiança para contactar serviços de apoio. Proteger as contas com palavras-passe fortes e únicas, alteradas a partir de um equipamento limpo.
Recorra a ferramentas de segurança para detetar ameaças, por exemplo, a aplicação Kaspersky para Android inclui a funcionalidade “Who’s Spying on Me”, que identifica stalkerware e dispositivos Bluetooth desconhecidos utilizados para rastreamento.
Em caso de dúvida, a Coalition Against Stalkerware reúne organizações de apoio em múltiplos países, incluindo Portugal. É possível encontrar apoio especializado sem expor a vítima a risco adicional.
Portugal precisa de falar mais abertamente sobre abuso digital, não apenas como questão de segurança informática, mas como problema social com consequências reais. Enquanto quase metade da população é afetada e apenas um terço conhece o conceito, a lacuna de sensibilização é, ela própria, parte do problema. Saber reconhecer é o primeiro passo para agir.
Receba semanalmente os conteúdos do Ekonomista sobre segurança digital, privacidade e proteção financeira. Subscreva a nossa newsletter gratuita e fique a par das ameaças que mais afetam os portugueses.
Kaspersky (2026). Invisible Control: What is tech-enabled abuse? Relatório global. Disponível em: https://lp.kaspersky.com/global/tech-enabled-abuse-1
Coalition Against Stalkerware. What is stalkerware? Disponível em: https://stopstalkerware.org/
UCL Gender and Tech Research Lab. International Tech Abuse Conference 2026. Disponível em: https://www.genderandtech.net/conference