Depois de mais de cinco décadas de estudos, adiamentos e mudanças de rumo, o novo aeroporto de Lisboa começa finalmente a ganhar forma concreta.
O Aeroporto Luís de Camões, a construir no Campo de Tiro de Alcochete, na margem sul do Tejo, é já o maior projeto de infra-estruturas alguma vez planeado em Portugal, com um investimento que pode ultrapassar os 8 mil milhões de euros.
A localização foi escolhida com base nas conclusões de uma Comissão Técnica Independente que analisou várias alternativas para a expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa, encerrando uma discussão que envolveu, ao longo dos anos, hipóteses como a Ota, o Montijo e Rio Frio.
A nova infraestrutura destina-se a substituir progressivamente o Aeroporto Humberto Delgado, na Portela, que enfrenta há vários anos problemas de saturação de capacidade, sobretudo devido ao crescimento sustentado do turismo e do tráfego aéreo em Portugal.
Números que definem o Aeroporto Luís de Camões
Segundo o relatório técnico apresentado publicamente no Centro Cultural de Belém, o futuro aeroporto deverá abrir com duas pistas e um terminal de passageiros com cerca de 500 mil metros quadrados, equipado com 64 portas de embarque e 72 pontes de embarque em contacto.
A capacidade inicial prevista é de 56 milhões de passageiros por ano, com possibilidade de expansão futura até 85 milhões, um salto considerável face aos cerca de 35 milhões de passageiros que a Portela já regista atualmente em condições de saturação.
Quanto ao investimento, as estimativas mais recentes apontam para um valor entre 7,9 mil milhões e 8,9 mil milhões de euros, a preços de 2024, superior à estimativa inicial de cerca de 8,5 mil milhões de euros avançada em 2025.
O plano prevê ainda que a construção arranque em 2029 e fique concluída até 2033, seguindo-se um período de testes e certificação até à entrada em funcionamento.

Como vai ser feita a ligação ao centro de Lisboa
Um dos aspetos mais aguardados do projeto é a forma como o aeroporto vai ligar-se ao resto do país.
De acordo com o plano apresentado, o Aeroporto Luís de Camões ficará a cerca de 20 minutos do centro de Lisboa por comboio.
A futura estação ferroviária será servida por quatro linhas e três plataformas, com ligações diretas de longo curso a diversas regiões de Portugal, incluindo a futura linha de alta velocidade.
A estimativa oficial aponta para cerca de 20 milhões de passageiros por ano a utilizar os serviços ferroviários para chegar ou sair do aeroporto.
A abertura da linha de alta velocidade e da ligação ferroviária dedicada está prevista para 2034, um marco essencial para garantir que a nova infra-estrutura não fica isolada da restante rede de transportes do país.
Está ainda em discussão a integração com as futuras linhas de alta velocidade Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid, bem como uma eventual nova travessia do Tejo, considerada por vários especialistas como decisiva para o sucesso da localização escolhida.
Calendário: quando abre o novo aeroporto
O calendário oficial tem sofrido pequenos ajustes ao longo dos últimos meses, mas o cenário mais provável aponta para uma abertura entre 2035 e 2037.
A ANA-Aeroportos de Portugal admite conseguir antecipar a inauguração para o final de 2036, caso sejam aprovadas otimizações ao cronograma atual, embora o Governo mantenha como objetivo formal concluir a obra até 2035.
Até essa data, o Aeroporto Humberto Delgado continuará a ser a principal porta de entrada aérea do país.
O Governo já garantiu que vai reforçar a capacidade da Portela durante este período de transição, com obras de modernização de terminais e áreas de embarque, para evitar constrangimentos enquanto Alcochete não estiver concluído.

Novo aeroporto: quem vai pagar a obra
Segundo a proposta apresentada pela ANA, todo o investimento deverá ser suportado sem recurso direto a financiamento público. Cerca de sete mil milhões de euros seriam obtidos através da emissão de dívida pela concessionária.
Para garantir o retorno deste investimento, foi ainda proposto prolongar por mais 30 anos o atual contrato de concessão aeroportuária, que termina em 2062, estendendo-o até 2092.
Está também prevista uma atualização gradual das taxas aeroportuárias cobradas na Portela entre 2026 e 2030, como forma de apoiar o equilíbrio financeiro do projeto.
Antes do início das obras, é ainda necessário desmilitarizar o Campo de Tiro de Alcochete, atualmente sob gestão da Força Aérea Portuguesa.
O Governo já aprovou uma verba até 4,5 milhões de euros para os trabalhos preparatórios, com o objetivo de libertar a área destinada ao novo aeroporto até 2029.
Aeroporto: desafios e críticas ao projeto
Apesar dos avanços recentes, o Aeroporto Luís de Camões continua a gerar debate.
Para vários críticos, esperar até 2036 ou 2037 representa um prazo demasiado longo, tendo em conta a pressão crescente sobre a Portela e o crescimento contínuo do turismo em Portugal.
O impacto ambiental é também motivo de atenção. A zona de Alcochete é vulnerável a cheias e o Estudo de Impacte Ambiental (que a ANA prevê submeter ao Governo ainda este mês) terá de responder a estas preocupações antes de o projeto poder avançar para a fase seguinte.
Outro ponto de discussão prende-se com o próprio dimensionamento da infraestrutura.
O Governo já solicitou à ANA uma revisão das estimativas de tráfego, de forma a garantir que o novo aeroporto não fica subdimensionado face à procura futura, nem sobredimensionado face às necessidades reais.
No fundo, discute-se que tipo de aeroporto Portugal precisa construir para as próximas décadas: uma infraestrutura ajustada às necessidades atuais ou uma grande plataforma pensada para transformar Lisboa num dos principais centros aéreos da Europa.

Projeto com mais de meio século de história
A procura de uma localização alternativa para o aeroporto de Lisboa não é recente. O primeiro estudo remonta a 1969, ano em que foi criado o “Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa”, ainda durante o Estado Novo.
Ao longo de décadas, o processo avançou e recuou várias vezes, sem que nenhuma solução chegasse a ser concretizada.
A decisão final só foi tomada a 14 de maio de 2024, quando o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou oficialmente que o novo aeroporto seria construído em Alcochete e que passaria a chamar-se Aeroporto Luís de Camões, em homenagem ao poeta autor de “Os Lusíadas”.