Há lugares no mundo que ficam na memória não por serem perfeitos, mas por serem absolutamente eles próprios. Islay (pronuncia-se “Aí-la”) é um desses lugares.

Situada no arquipélago das Hébridas Interiores, na costa oeste da Escócia, esta ilha de pouco mais de 600 quilómetros quadrados é considerada por muitos a capital mundial do whisky turfado, mas reduzir Islay a uma bebida seria fazer-lhe uma injustiça enorme.

Paisagens selvagens, aves raras, praias desertas, arquitectura de pedra e uma comunidade com orgulho nas suas raízes, Islay é o tipo de destino que desafia as expectativas e recompensa quem se aventura até lá.

Para chegar até lá, a opção mais comum é o ferry operado pela Caledonian MacBrayne, que parte de Kennacraig, em Argyll, e faz a travessia em cerca de duas horas.

Há também voos regulares a partir de Glasgow, com uma duração de aproximadamente 40 minutos, uma opção cada vez mais popular entre os visitantes internacionais.

A ilha está a apenas 25 quilómetros da costa irlandesa, o que explica tanto a sua história como parte do seu carácter.

Durante séculos, Islay foi um ponto de contacto entre as culturas escocesa e irlandesa, e essa herança ainda se sente na música, nas tradições e até na língua gaélica que alguns habitantes ainda preservam.

Capital do whisky turfado: as destilarias de Islay

destilaria em Islay

Se existe uma razão pela qual o nome de Islay circula em conversas de bares sofisticados e revistas de lifestyle em todo o mundo, essa razão tem um aroma a turfa, a mar e a malte.

A ilha alberga nove destilarias activas, um número extraordinário para um território tão pequeno, e cada uma tem uma personalidade distinta.

O que as une é a utilização de turfa local na secagem da cevada maltada, o que confere ao whisky de Islay aquele sabor fumado e iodado que divide opiniões, mas nunca deixa ninguém indiferente.

Destilarias mais emblemáticas

Laphroaig é talvez a mais famosa de todas. Fundada em 1815, produz um whisky intensamente turfado com notas medicinais e de algas marinhas que é, ao mesmo tempo, divisivo e viciante.

É a destilaria oficial de Carlos III do Reino Unido. O rei é, desde há décadas, um admirador confesso.

Ardbeg, fundada em 1815, tem um estatuto de culto entre os apreciadores mais devotos. Os seus lançamentos especiais geram filas e leilões internacionais, e a destilaria foi eleita várias vezes a melhor do mundo pela revista Whisky Advocate.

Bowmore, a mais antiga em funcionamento na ilha (fundada em 1779), fica mesmo no centro da capital da ilha e tem uma das caves de maturação mais icónicas do mundo, a nº 1, parcialmente subterrânea e banhada pelo Loch Indaal.

Bruichladdich destaca-se pelo estilo mais contemporâneo e pela aposta na destilação de gin, através da sua linha The Botanist, um produto que conquistou o mercado global e ajudou a pôr a destilaria no mapa de um novo público.

Cada visita a uma destilaria inclui, tipicamente, uma tour guiada pelos espaços de produção e uma prova comentada. A experiência é educativa, sensorial e, inevitavelmente, deliciosa.

Dica prática: O festival anual Fèis Ìle (Festival do Whisky de Islay), que decorre habitualmente em maio, é uma celebração de uma semana que combina provas exclusivas, música ao vivo, gastronomia local e abertura especial das destilarias. Os bilhetes esgotam rapidamente.

Islay: natureza e vida selvagem

castelo em Islay

Fora das destilarias, Islay revela-se um santuário natural de rara beleza. A ilha é um dos destinos de observação de aves mais importantes da Europa, com especial destaque para as aves marinhas e migratórias que ali fazem escala ou nidificam.

Aves que vale a pena procurar

A águia-pesqueira e a águia-real são avistadas com regularidade. Mas é a chegada dos gansos-de-frente-branca, que migram aqui em dezenas de milhar durante o inverno, que transforma os campos de Islay num espectáculo de proporções épicas.

Entre outubro e abril, os campos da ilha ficam literalmente cobertos por estas aves vindas da Gronelândia e da Islândia, criando um dos maiores espectáculos de vida selvagem das ilhas britânicas.

A RSPB (Royal Society for the Protection of Birds) mantém reservas naturais em Loch Gruinart e The Oa, dois pontos de observação excelentes e bem equipados.

Praias de Islay: um segredo bem guardado

Poucos esperam encontrar praias de areia branca e água verde-esmeralda numa ilha escocesa.

E, no entanto, é exactamente isso que Islay oferece. Machir Bay, na costa ocidental, é uma das praias mais belas da Escócia, larga, ventosa e quase sempre deserta, com dunas verdejantes na retaguarda e um oceano de cor improvável à frente.

Laggan Bay, perto do aeroporto, oferece quilómetros de areia dourada percorridos por surfistas e viajantes que descobrem ali o antídoto perfeito para a vida urbana.

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Uma ilha com memória longa

Islay tem uma história que remonta à Idade do Bronze, e os seus campos estão salpicados de monumentos megalíticos, cruzes celtas e ruínas medievais.

O local mais impressionante é provavelmente Finlaggan, nas margens de um lago tranquilo, já que foi aqui que os Senhores das Ilhas, os poderosos Macdonald, governaram um vasto território entre os séculos XII e XV.

As ruínas que restam são modestas, mas a atmosfera é carregada de significado histórico.

A Cruz de Kildalton, esculpida no século VIII, é considerada uma das mais belas cruzes celtas da Escócia e encontra-se surpreendentemente bem preservada no cemitério de uma pequena igreja em ruínas, perto de Port Ellen.

O gaélico escocês, apesar de ser uma língua minoritária, ainda é falado por uma parte da população e está presente na sinalização, nos nomes de lugares e nas músicas tradicionais que se ouvem nos pubs locais.

Onde comer e beber em Islay

A gastronomia de Islay está em plena ascensão. A ilha produz marisco de qualidade excepcional, e ostras, lagostas, caranguejos e vieiras saem frescos do oceano para as mesas dos restaurantes locais.

The Harbour Inn, em Bowmore, é uma referência obrigatória para quem visita a ilha. O menu combina produtos locais com técnicas contemporâneas, e a carta de uísques é, naturalmente, impressionante.

Ardbeg e Laphroaig têm ambas cafetarias e restaurantes nas suas instalações, perfeitos para uma refeição descontraída entre visitas às destilarias.

Os pubs da ilha, como o Lochindaal Hotel em Port Charlotte, são pontos de encontro autênticos onde se ouve música tradicional escocesa ao vivo e se prova uísque em ambiente genuinamente local.

Quando Ir

Cada estação tem o seu encanto em Islay. O verão (junho a agosto) oferece os dias mais longos, com luz até às 22h e temperaturas amenas.

O outono é a época dourada para os apreciadores de uísque e para a observação de aves.

O inverno é frio e ventoso, mas oferece solidão absoluta e uma beleza agreste que alguns viajantes adoram.

Quanto tempo ficar

O mínimo recomendado é três noites. Quatro a cinco dias permitem visitar as principais destilarias com calma, explorar a natureza e os monumentos históricos, e ainda apanhar um pôr-do-sol na praia.

Onde ficar

A oferta de alojamento vai desde pequenos B&B familiares a hotéis boutique e casas de campo para arrendar. O Bridgend Hotel, localizado no centro geográfico da ilha, é uma opção clássica e bem posicionada para explorar todos os cantos de Islay.

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