Miguel Pinto
Miguel Pinto
05 Mai, 2026 - 12:00

Crise na aviação: bilhetes mais caros, mais taxas, voos cancelados

Miguel Pinto

Bilhetes mais caros, taxas de bagagem aumentadas e voos cancelados. A guerra no Médio Oriente está a mudar radicalmente o mercado da aviação.

crise na aviação

Desde o início de 2026, o setor da aviação enfrenta uma das crises mais severas da última década. A raiz do problema está no conflito militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, que perturbou profundamente o fornecimento de petróleo no Golfo Pérsico.

A quase paralisação do Estreito de Ormuz, uma das artérias mais críticas do transporte de hidrocarbonetos, provocou uma subida meteórica no preço do querosene de aviação (o combustível usado pelos aviões). O querosene passou de cerca de 85 a 90 dólares por barril no final de 2025 para valores entre 150 e 200 dólares, mais do dobro em poucos meses. O querosene de aviação mais que dobrou de preço, saltando de cerca de 99 dólares por barril no fim de fevereiro para até 209 dólares no início de abril.

Para perceber o impacto real desta subida, basta saber que o combustível representa cerca de 25% dos custos operacionais de uma companhia aérea. Quando esse custo duplica, as consequências propagam-se inevitavelmente até ao bolso do passageiro.

Aviação: mais cortes e cobretaxas

Perante este cenário, as companhias aéreas reagiram reduzindo a oferta de voos e aumentaram os preços. Segundo o Financial Times, as companhias retiraram cerca de dois milhões de assentos da oferta global em maio, com milhares de voos cancelados e recurso crescente a aeronaves menores ou mais eficientes.

A Lufthansa cancelou 20 mil voos até outubro, a Delta reduziu a capacidade em cerca de 3,5% no segundo trimestre, a KLM suspendeu mais de 150 voos na Europa e a SAS cancelou cerca de mil voos em abril.

No campo dos preços, a Air France-KLM anunciou um aumento da tarifa económica na ordem dos 50 euros por voo nas rotas de longo curso, juntando-se à SAS e à Qantas, que também já anunciaram subidas de preços devido à escalada dos combustíveis.

A situação é tão preocupante que a União Europeia entrou em campo. A Comissão Europeia afirmou que trabalha com países-membros e agentes da indústria em meio à incerteza sobre a duração da crise, preparando diretrizes que deverão incluir regras contra abastecimento excessivo, direitos dos passageiros e a possibilidade de uso de combustíveis do padrão norte-americano.

A Agência Internacional de Energia (AIE) chegou a alertar que a Europa teria apenas cerca de seis semanas de reservas de combustível para aviões, um sinal de alarme que raramente se ouve neste setor.

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E a TAP? O que muda para os portugueses

avião da TAP

Portugal não está imune a esta turbulência. A TAP aumentou os preços dos seus bilhetes, que estão agora mais caros entre 18 e 21 euros na Classe Económica e entre 37 e 43 euros na Classe Executiva, na sequência da subida do preço dos combustíveis, refletida na taxa de combustível incluída no preço do bilhete.

Na prática, isto significa que uma família portuguesa que planeie uma viagem de ida e volta em classe económica pode estar a pagar mais 36 a 42 euros apenas pelo acréscimo da sobretaxa de combustível, sem qualquer melhoria no serviço prestado.

Para quem viaja em classe executiva, o impacto pode ultrapassar os 80 euros por viagem de ida e volta. A companhia portuguesa admitiu que a situação está a ser monitorizada semanalmente e que os preços poderão continuar a ajustar-se em função da evolução do mercado e das decisões dos concorrentes.

Taxas escondidas que também sobem

O aumento do preço base do bilhete é apenas uma parte da história. As companhias aéreas estão a aproveitar a crise para rever também as taxas acessórias, aquelas cobranças que, individualmente, podem parecer pequenas, mas que somadas tornam uma viagem significativamente mais cara.

As principais companhias norte-americanas (American Airlines, Delta, Southwest e United Airlines) aumentaram as taxas de bagagem despachada, numa tentativa de compensar o aumento do preço do combustível.

A Southwest passou a cobrar 45 dólares pela primeira mala e 55 pela segunda; a American Airlines elevou a taxa da primeira mala para 50 dólares e da segunda para 60.

Na Europa, o modelo é semelhante, mas a pressão recai sobretudo nas companhias de baixo custo, cujo negócio assenta precisamente nestas cobranças adicionais.

Para as low cost, que construíram o seu modelo de negócio sobre a cobrança de bagagem adicional, a crise afeta diretamente a sua rentabilidade.

A tendência é que estas empresas tentem compensar as perdas com o querosene através de tarifas mais elevadas na seleção de assentos, no despacho de bagagem e noutros serviços que habitualmente eram mais acessíveis.

Impacto nas reservas e no turismo de verão

mulher com bagagem de mão

Para quem planeia as férias de verão, a crise chega num momento particularmente delicado. As companhias aéreas afirmaram ser difícil prever como a procura poderá mudar no segundo semestre de 2026, uma vez que os turistas temem turbulências nas viagens e aumentos de preços.

As reservas para o quarto trimestre estavam apenas 30% preenchidas, com taxas de ocupação incertas. Geograficamente, a crise já está a redesenhar as preferências dos viajantes europeus.

O CEO da easyJet referiu estar a assistir a uma janela de reservas mais tardia, com algum desvio do Mediterrâneo oriental em direção ao Mediterrâneo ocidental, embora as viagens para Chipre, Egito e Turquia estejam a recuperar lentamente.

Para o turismo português, e Portugal recebe e envia milhões de passageiros anualmente, este reequilíbrio pode ter consequências ambíguas.

Por um lado, alguns destinos alternativos podem beneficiar. Por outro, os portugueses que pretendem viajar para destinos mais distantes verão os custos aumentar de forma considerável.

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Conselhos práticos para o consumidor

Neste contexto de incerteza, o passageiro pode adotar algumas estratégias para minimizar o impacto no seu bolso.

Antecipe as reservas. Com a instabilidade nos preços, reservar com maior antecedência pode ser vantajoso. As tarifas tendem a subir à medida que a data de partida se aproxima, e a incerteza do mercado só amplifica esse efeito.

Viaje só com bagagem de mão. As taxas de bagagem despachada estão a aumentar globalmente. Viajar apenas com bagagem de cabine pode poupar dezenas de euros por viagem.

Compare todos os custos, não apenas o bilhete base. O preço que aparece em primeiro lugar nos motores de busca raramente é o preço final. Inclua sempre as taxas de bagagem, seleção de assento e eventuais sobretaxas de combustível no cálculo total.

Considere destinos alternativos. Com alguns destinos a ficarem desproporcionalmente mais caros, este pode ser o momento de explorar alternativas acessíveis de avião, comboio ou outros meios de transporte para destinos europeus.

Guarde os comprovativos. Em caso de cancelamentos ou alterações significativas, o Regulamento (CE) n.º 261/2004 garante direitos aos passageiros europeus, incluindo reembolso, reencaminhamento ou compensação.

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