Miguel Pinto
Miguel Pinto
17 Abr, 2026 - 10:30

Tem viagens marcadas? Aviação só tem combustível para 6 semanas

Miguel Pinto

O setor da aviação vive tempos conturbados na Europa. Devido à guerra no Irão, as reservas de combustível só duram mês e meio.

crise na aviação

Seis semanas. É este o número que está a circular nos corredores das companhias de aviação aéreas, nos gabinetes da Agência Internacional de Energia e nas salas de crise das capitais europeias.

É o tempo que as reservas de combustível para a aviação, o famoso jet fuel, conseguem aguentar na Europa, se o abastecimento de petróleo proveniente do Médio Oriente não for totalmente restabelecido.

O alerta foi lançado por Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia. A causa imediata é o bloqueio do Estreito de Ormuz, canal estratégico pelo qual circulava um quinto de todo o petróleo consumido diariamente a nível global.

Aviação na Europa: Portugal muito vulnerável

A escassez não se distribui de forma uniforme. A França é o país europeu com o maior desfasamento entre oferta e procura de combustível de aviação. Ainda assim, a ligação terrestre aos grandes centros petroleiros dos Países Baixos e da Bélgica pode amortecer parte do impacto.

Portugal está entre os países mais expostos. As estimativas apontam para que as reservas nacionais de jet fuel possam esgotar-se em apenas quatro meses, um prazo muito inferior ao de países como a Alemanha, a Itália (sete meses) ou a Dinamarca (seis meses). A dependência do transporte marítimo, aliada à menor capacidade de armazenamento, torna o país particularmente vulnerável.

Prazo estimado de reservas por país

  • Portugal: ~4 meses
  • Hungria: ~5 meses
  • Dinamarca: ~6 meses
  • Itália e Alemanha: ~7 meses
  • França: maior desfasamento oferta/procura, mas com acesso terrestre alternativo

O que isto significa para o turismo no verão de 2026

voo atrasado ou cancelado

O calendário é cruel e a crise surge precisamente antes do pico da época turística europeia. O verão, que começa a ganhar forma em junho é o período de maior procura de viagens de avião em todo o continente. E é também o momento em que qualquer perturbação no abastecimento tem efeitos mais amplificados.

Grandes companhias já estão a alertar para cortes nas operações. A Ryanair, a maior transportadora low-cost da Europa, projeta reduções entre junho e agosto se o fornecimento de combustível for racionado.

O Grupo Lufthansa também está a avaliar medidas drásticas. A Eurocontrol revelou que cerca de 1.150 voos diários já realizam desvios de rota por causa da crise geopolítica, consumindo diariamente 602 toneladas adicionais de combustível.

comboio noturno Good Night Train
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A Air New Zealand estima que 44.000 passageiros precisarão de reacomodação devido ao cancelamento de 1.100 voos até ao início de maio, uma antevisão do que pode acontecer na Europa se a situação não se resolver.

Para a indústria do turismo, o cenário levanta preocupações sérias. Destinos dependentes da aviação (como as ilhas ou os países do sul da Europa) serão os mais afetados. A IATA já antecipava aumentos de até 9% nos bilhetes de avião, mas a pressão atual sobre os custos pode fazer subir esse número de forma significativa.

Tem uma viagem marcada: o que deve fazer?

Esta é a questão mais prática e também a que não tem uma resposta simples. A situação está ainda a evoluir e muito depende da duração do bloqueio do Estreito de Ormuz e da capacidade dos países produtores de encontrarem rotas alternativas de abastecimento.

O que fazer se tem uma viagem marcada?

Verifique o seguro de viagem – certifique-se de que a apólice cobre cancelamentos por motivos externos, nomeadamente crises de abastecimento.

Acompanhe as comunicações da companhia aérea – em caso de cancelamento, tem direito a reembolso ou reacomodação noutro voo.

Evite reservar novos voos com datas próximas em rotas de longa distância ou com escala em aeroportos com histórico de problemas.

Considere alternativas terrestres para destinos acessíveis de comboio ou autocarro, como Espanha, França ou parte da Europa central.

Não cancele precipitadamente – cancelar uma reserva por iniciativa própria pode implicar penalizações. Aguarde comunicações oficiais da transportadora.

Aviação: tudo à espera do Estreito de Ormuz

passageiros a entrar pelo lado esquerdo do avião

O Estreito de Ormuz é uma das artérias mais críticas da economia global. Com apenas 33 quilómetros de largura navegável, é por ali que passam os navios petroleiros provenientes da Arábia Saudita, do Iraque, dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e do Irão.

Quando essa rota foi bloqueada, o impacto fez-se sentir de forma quase imediata nas reservas de combustível de aviação em todo o mundo. E a situação agravou-se progressivamente. A perda de abastecimento em abril é o já o dobro da registada em março. Países na Ásia já estão a sentir os efeitos de forma direta e na China muitos voos começaram a ser cancelados.

Na Europa e nas Américas, a crise ainda não chegou com a mesma força, mas está, dizem os especialistas, “a um passo”. No terreno, os primeiros sinais concretos de racionamento surgiram em Itália, onde a petrolífera BP alertou para limitações no abastecimento em aeroportos como Milão Linate, Bolonha, Treviso e Veneza.

O combustível está a ser priorizado para voos essenciais, como operações médicas, ligações estatais e rotas de longa distância.

Há esperança de resolução?

Existe, mas a incerteza é grande. As tentativas de cessar-fogo no conflito do Médio Oriente têm falhado em garantir a reabertura estável do Estreito de Ormuz. Mesmo quando um acordo temporário é anunciado, as companhias de navegação têm reagido com cautela, mantendo os prémios de risco elevados e evitando a rota.

Os especialistas admitem que mesmo com a eventual reabertura do estreito, levará meses para que a oferta de combustível volte aos níveis normais. O mercado não recupera de um dia para o outro.

Para a indústria do turismo, que em muitos países da Europa do Sul, como Portugal, representa uma fatia determinante do PIB, o que está em jogo é mais do que o conforto dos viajantes.

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