Miguel Pinto
Miguel Pinto
05 Ago, 2026 - 12:00

Ceuta: roteiro pela cidade espanhola que fica em África

Miguel Pinto

Ceuta é uma a cidade espanhola em pleno território africano, com fronteira fora do espaço Schengen e uma história que começou, afinal, em Portugal.

Vista de Ceuta

Poucos lugares no mundo reúnem tantas contradições geográficas e políticas como Ceuta. Situada na costa norte de África, separada da Europa por apenas 14 quilómetros de mar, esta cidade é território espanhol de pleno direito, mas não pertence ao espaço Schengen nas mesmas condições que o resto da Espanha.

Cidade de Ceuta

Fala-se espanhol, paga-se em euros e a bandeira que esvoaça é a espanhola, tudo isto a poucos metros de Marrocos e do continente africano. Para quem gosta de destinos que fogem ao óbvio, Ceuta é uma dessas viagens que valem tanto pela paisagem como pela história que carregam.

É uma cidade autónoma com cerca de 85 mil habitantes, situada na costa mediterrânica de Marrocos, mesmo em frente a Gibraltar, do outro lado do Estreito. Tem pouco mais de 18 quilómetros quadrados, o que a torna um dos territórios mais pequenos e mais densamente povoados de Espanha.

A grande curiosidade é que Ceuta não tem qualquer ligação terrestre com a Espanha continental. A única fronteira física do território é com Marrocos, ao longo de uma linha de cerca de oito quilómetros, fortemente vedada e vigiada.

Para chegar à Europa continental a partir de Ceuta, a única forma é atravessar o mar, de ferry ou, em alguns casos, de helicóptero.

Por esta razão, alguns comparam Ceuta a um “Gibraltar espanhol em África”. A diferença é que, enquanto Gibraltar é britânico e fica em solo europeu, Ceuta é espanhola e fica em solo africano. E há ainda uma segunda cidade na mesma situação, Melilha, também espanhola, também no litoral marroquino, mais a leste.

Ceuta é ou não é espaço Schengen?

Esta é talvez a pergunta mais frequente sobre Ceuta e a resposta não é simples. Ceuta faz parte de Espanha e, portanto, da União Europeia, mas o seu regime de fronteiras tem particularidades.

Segundo esclarecimentos da Comissão Europeia, as saídas de Ceuta e Melilha para o resto do espaço europeu continuam sujeitas a controlo, sendo estes territórios tratados, para este efeito, como fronteira externa da União Europeia.

Na prática, isto significa que quem entra em Ceuta não obtém automaticamente uma via livre para o resto do território Schengen. Há filtros e verificações adicionais que não existem, por exemplo, entre Lisboa e Madrid.

Esta condição especial explica também porque é que a fronteira entre Ceuta e Marrocos é um dos pontos mais sensíveis da política migratória europeia, com barreiras de vários metros de altura, sensores de movimento e vigilância permanente.

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A história de Ceuta começa em Portugal

Aqui está o pormenor que mais surpreende quem visita Ceuta pela primeira vez. A cidade não nasceu espanhola. Nasceu portuguesa.

Antes disso, já tinha uma longa história como praça comercial estratégica, dominada sucessivamente por diferentes povos ao longo dos séculos, incluindo os árabes, que a tomaram no início do século VIII. Era um entreposto fundamental nas rotas do ouro, do marfim e das especiarias vindas de África.

Foi em agosto de 1415 que D. João I, à frente de uma armada com mais de 200 navios e cerca de 20 mil homens, conquistou Ceuta às tropas muçulmanas, num episódio que os manuais de história consideram o ponto de partida da expansão marítima portuguesa.

Entre os comandantes desta expedição estava o Infante D. Henrique, que aqui viveu a primeira grande campanha militar da sua vida, uma experiência que viria a marcar profundamente o rumo dos Descobrimentos portugueses nas décadas seguintes.

Ceuta permaneceu portuguesa durante mais de 260 anos. A cidade manteve-se sob a coroa portuguesa mesmo durante o período da União Ibérica (1580-1640), em que Portugal e Espanha partilharam o mesmo monarca.

E é aqui que surge o detalhe mais curioso de toda esta história. Quando Portugal recuperou a independência, em 1640, e a Restauração devolveu o trono a D. João IV, Ceuta escolheu não regressar à soberania portuguesa, preferindo manter-se ligada à coroa espanhola. Esta separação foi formalmente reconhecida por Portugal através do Tratado de Lisboa, em 1668. Desde então, e até aos dias de hoje, Ceuta nunca mais deixou de ser espanhola.

Um pormenor simbólico permanece até à atualidade. A bandeira de Ceuta preserva as armas de Portugal sobre um fundo branco e preto, em referência direta a este passado luso.

Ao longo dos séculos seguintes, Ceuta manteve o seu papel de praça-forte estratégica no Mediterrâneo, servindo também de base a operações militares espanholas relevantes, incluindo os primeiros movimentos que, já no século XX, conduziram à Guerra Civil de Espanha.

Quando Marrocos conquistou a independência de França, em 1956, Espanha optou por manter Ceuta e Melilha sob a sua soberania, uma decisão que Marrocos continua a contestar até aos dias de hoje, reclamando a devolução destes territórios. É, por isso, um tema que convém abordar com sensibilidade quando se conversa com a população local.

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O que ver em Ceuta: um roteiro pela cidade

Apesar do tamanho reduzido, Ceuta oferece um dia (ou dois) bem preenchido a quem gosta de história, arquitetura militar e boas vistas sobre o mar.

As Muralhas Reais

O monumento mais emblemático da cidade é o conjunto fortificado das Muralhas Reais (Murallas Reales), com origem árabe e sucessivas ampliações portuguesas e espanholas ao longo dos séculos. O acesso às muralhas é gratuito e inclui um fosso, pontes e um pequeno museu que conta a evolução destas defesas ao longo de mais de mil anos de história da cidade.

Plaza de África e Paseo del Revellín

O coração da cidade moderna concentra-se entre a Plaza de África, junto à catedral, e a movimentada Paseo del Revellín, uma rua pedonal repleta de cafés, lojas e edifícios com traços modernistas, entre os quais se destaca a curiosa Casa de los Dragones, com as suas esculturas de dragões no topo da fachada.

Parque Marítimo do Mediterrâneo

Nos meses mais quentes, este parque à beira-mar, desenhado pelo arquiteto César Manrique, transforma-se numa das atrações preferidas de quem visita Ceuta. Tem piscinas de água salgada, jardins e esplanadas com vista para o mar.

Monte Hacho e o mirante de San Antonio

Para quem não se importa de caminhar (ou preferir apanhar um táxi), o Monte Hacho oferece as melhores vistas de toda a viagem. Do mirante de San Antonio observa-se, ao mesmo tempo, a cidade de Ceuta, o Estreito de Gibraltar e, em dias limpos, a própria Europa continental. No topo do monte encontra-se ainda uma fortaleza militar, cujo exterior pode ser percorrido a pé.

Mirantes de Benzu e de San Isabel II

Já fora do centro, estes dois miradouros oferecem outra perspetiva sobre a paisagem. De um lado, o litoral marroquino e a célebre formação rochosa conhecida como “a Mulher Adormecida”. Do outro, uma vista ampla sobre a baía de Ceuta, especialmente bonita ao entardecer.

Dicas úteis para visitar Ceuta

Como chegar

A forma mais comum de chegar a Ceuta é de ferry a partir de Algeciras, no sul de Espanha, numa travessia que demora cerca de uma hora e meia. Existe ainda uma alternativa menos conhecida, que é o helicóptero, e há também a possibilidade de entrar por terra a partir de Marrocos.

Moeda

A moeda utilizada é o euro, tal como no resto de Espanha.

Idioma

O espanhol é a língua predominante em Ceuta. Fora dos circuitos turísticos, o inglês não é amplamente falado, pelo que pode ser útil ter à mão algumas expressões básicas em espanhol.

Documentação

Apesar das particularidades do regime de fronteiras de Ceuta, quem precisa de visto para entrar no espaço Schengen precisa, regra geral, do mesmo visto para visitar este território. Dado o seu carácter especial, vale sempre a pena confirmar os requisitos junto das autoridades consulares antes de viajar.

Melhor altura para visitar

O clima em Ceuta é ameno durante praticamente todo o ano, com verões bastante quentes. Por isso, a primavera e o outono tendem a ser as estações mais equilibradas para explorar a cidade a pé.

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