Valdemar Jorge
Valdemar Jorge
20 Jul, 2021 - 12:39

Citroën 2CV: um familiar que apaixonou gerações

Valdemar Jorge

É um clássico e continua a despertar atenções. Familiar, veículo de trabalho, passando pelo cinema, o Citroën 2CV transformou-se num ícone.

Citroen 2cv

Simplicidade é a palavra que marca o nascimento do Citroën 2CV, um automóvel produzido entre 1948 e 1990. Alcançou a incrível marca de 5.114.969 exemplares produzidos, sendo que 3.868.634 unidades da versão sedã e 1.246.335 da versão furgão foram produzidas em Portugal, mais concretamente, na fábrica da marca francesa, em Mangualde.

Estes são os números que traduzem o que foi o sucesso de vendas do Citroën 2CV por essa Europa fora.

Este automóvel começou a ser pensado nos anos 30 por Pierre Jules Boulanger, um engenheiro francês que presidiu a Citroën até 1934, altura em que a família Michelin assumiu o controlo da empresa.

Pierre Jules Boulanger pensou o TPV – Toute Petite Voiture (Veículo muito Pequeno) em conjunto com Pierre Michelin. O projeto teria de dar resposta  a algumas exigências, nomeadamente, ser pequeno (daí o acrónimo TPV), seguro, robusto, estável e que acomodasse até 4 passeiros e ainda transportasse 50 kg de carga.

Citroën 2CV: primeiro protótipo em 1937

O primeiro protótipo do 2CV, idealizado por Pierre Jules Boulanger, foi construído 11 anos antes da apresentação oficial do modelo. Com carroçaria em alumínio o pequeno automóvel mostrava apenas um farol na frente (do lado esquerdo), a ignição era feita através de manivela, o motor de dois cilindros opostos (boxer) era refrigerado a água e a tração dianteira.

Em 1939 ainda foram construídos 250 protótipos. Mas os planos da marca sofreram um forte revés. A Segunda Grande Guerra Mundial (1939 – 1945) trava definitivamente os avanços para a construção e desenvolvimento do novo automóvel e os protótipos existentes acabam por ser totalmente destruídos por exigência dos alemães.

O “patinho feio” simpático

Avançando a história do Citroën 2CV, atualmente um ícone da marca francesa, e tido como símbolo da França, podemos dizer que não foi fácil conseguir a simpatia do público, ainda que o modelo emanasse alguma simpatia.

A verdade é que na apresentação, em 1948, no Salão Automóvel de Paris, no Grand Palais, perante o Presidente da República Vincent Auriol, o que saltou à vista dos presentes foi a simplicidade e o ar espartano do Citroën 2CV.

Descobertos os 2CV, tapados por lonas, o que se viu foi o design em “forma de chapéu de chuva” a cor das carroçarias em cinza, o motor simples que debitava apenas 9 cv e atingia uma velocidade de 55 km/h, a abertura das portas que não tinham trava (abriam-se em sentidos opostos), a falta de ignição e o pormenor dos vidros das portas dianteiras, que abriam pela metade (virada para cima) com sistema de travamento. Um “horror” quando comparado com a concorrência.

No entanto, após pesar todos os “defeitos”, a verdade é que num segundo olhar o Citroën 2CV acabava por conquistar, transmitindo ainda assim, alguma simpatia, espaço interior e conforto de andamento.

Além disso a componente económica sobressaía: era o automóvel mais barato no mercado, sendo, deste modo, acessível à população em geral. E foi este o seu grande trunfo.

Sucesso de vendas apaga má impressão inicial

O automóvel, ou citadino se assim quisermos, projetado sob a direção do engenheiro francês André Lefèbvre e do projetista italiano Flaminio Bertoni acaba por vingar.

Os anos passam e os números de vendas sustentam o êxito. Era económico e os tempos pós-guerra não eram fáceis. Por isso, era acessível a uma população que queria um automóvel simples, com mecânica eficiente.

Além disso, cumpria até 300 km entre abastecimentos e sem evidenciar problemas de maior. Tudo somado dá um resultado: sucesso.

Habitáculo confortável e suspensão independente às quatro rodas

Na primeira geração, o Citroën 2CV recebia assentos forrados com tecido rústico (áspero) e o teto corrediço, em pano, que podia ser todo aberto para deixar entrar o sol.

O tablier era espartano, tinha poucos botões e a maneta da caixa de velocidades saía deste em posição perpendicular. A par disso, tinha também poucos mostradores. O volante de um só raio, que se tornou tradição nos modelos Citroën, foi introduzido mais tarde.

Mais ainda, a suspensão era original para a época, independente às quatro rodas, com grandes molas helicoidais, unindo os braços de suspensão do mesmo lado. Por seu lado, os amortecedores eram compostos por um cilindro contendo um peso na extremidade de cada braço.

Citroën 2CV estacionado

Evolução do Citroën 2CV ao longo dos anos

  • 1954: Introdução de motor com 425 cc; velocidade máxima sobe para 70 km/h; rodas mudam de cor para amarelo;
  • 1958: Apresentação nos subúrbios de Paris da versão especial Sahara, equipada com dois motores de 425 cc e tração integral. Alavanca de velocidades montada no piso. Produzidos 694 exemplares. Produção terminou em 1971;
  • 1959: A Citroën aumenta o portfólio de cores e acrescenta ao cinzento o azul glaciar;
  • 1960: Novas cores verde e amarelo juntam-se às já existentes;
  • 1961: Entrada no mercado do Ami 6;
  • 1963: Aumento de potência dos motores do 2CV para os 18 cv com a velocidade máxima a subir para os 95 km/h;
  • 1967: O 2CV assume nova designação: Dyane. Resultado carroçaria mais moderna; motor 602 cc que debitava 32 cv e velocidade máxima de 120 km/h. A simplicidade, robustez e economia eram transmitidas pela publicidade ao modelo na época;
  • 1968: A marca francesa adota posição suspensa dos pedais; Apresentação de uma das variantes mais atrevidas do 2CV: o Citroën Mehari, com carroçaria em plástico ABS. Versões com dois lugares ou 2+2;
  • 1970: Introdução de nova versão 2CV 4. Motor de 435 cc; 26 cv de potência e velocidade máxima de 102 km/h. Esta versão destacava-se das demais por ter duas janelas laterais a mais que estavam colocadas no pilar traseiro; faróis em formato rectangular; bancos mais modernos e, curiosamente disponibilizarem cinzeiro;
  • 1976: A marca francesa atinge a comercialização de 5 milhões de exemplares e para comemorar o feito lança a versão Spot limitada a 1.800 unidades;
  • 1984: Citroën 2CV é proposto nas versões Club (faróis retangulares), Spécial e Charleston (faróis redondos). Todas possuíam travões de disco dianteiros; amortecedores hidráulicos e suspensão de grande curso;
  • 1985: O sucesso exigia da marca francesa inovações quase anuais. Deste modo, neste ano a Citroën implementa a versão Dolly e, paralelamente, introduzia carroçaria pintada em dois tons permitindo várias combinações de cores;
  • 1988: Citroën 2CV 6 e Charleston recebem motor com 602 cc, que debitava 29 cv com velocidade máxima de 115 km/h;
  • 1990: Último Citroën 2CV é produzido (27 de julho) na fábrica de Mangualde.

Reconhecimento no desporto, clubes de fãs e cinema

Este foi um modelo que nasceu com defeitos, mas que ao longo da sua existência, mais de 40 anos, aperfeiçoou-se e atingiu o título de ícone de uma marca que sempre pontuou pela diferença, inovação, segurança e conforto dos utilizadores dos seus automóveis.

Para além disso, a tradição da marca francesa também se faz no desporto e com o 2CV teve o arrojo de dinamizar provas monomarca e participar em provas desportivas como raides e ralis.

Hoje um clássico, o Citroën 2CV é alvo da cobiça dos colecionadores e fãs da marca, principalmente em França. Existem, até, vários clubes e em 1998 foram comemorados, com pompa e circunstância, os 50 anos do modelo.

Mais ainda, este foi um modelo que conquistou também a sétima arte com participação em filmes como “A Volta da Pantera Cor de Rosa”, com o irreverente Inspector Clouseau, ou ainda no filme “For Your Eyes Only” com o agente secreto do MI6 James Bond.

Esta participação valeu à Citroën a produção de 500 2CV todos em tom amarelo, tal como no filme.

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