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Gabriela Caçador
Gabriela Caçador
29 Jun, 2021 - 10:01

Dicas dos especialistas: como reduzir o desperdício em casa

Gabriela Caçador

Eunice Maia, fundadora da Maria Granel, diz-nos como reduzir o desperdício nas nossas casas e quanto se consegue poupar ao fazê-lo.

Dicas dos especialistas

Estima-se que um terço dos alimentos produzidos anualmente, no mundo, são perdidos ou desperdiçados. Em Portugal, as toneladas de alimentos desperdiçados, todos os anos, ascendem ao 1 milhão.

Para Eunice Maia, fundadora da Maria Granel – a primeira mercearia biológica 100% a granel e “zero waste store” – e autora do livro “Desafio Zero – Um guia prático de redução de desperdício, dentro e fora de casa”, “desperdiçar alimentos é não só estar a deitar fora recursos e dinheiro, mas é também uma questão moral, porque as toneladas de alimentos que desperdiçamos dariam para alimentar um número avassalador de pessoas que não têm acesso a esses mesmos alimentos.

Sabia, por exemplo, que 31% do desperdício alimentar acontece nas nossas cozinhas? Então, de que forma pode, cada um de nós, contribuir para evitar que os alimentos vão parar ao caixote do lixo?

Reduzir o desperdício em casa: 5 recomendações

Eunice Maia considera que reduzir o desperdício, passa por “planificar muito bem as compras. Temos de ter em conta aquilo que já temos em casa e aproveitá-lo ao máximo”.

Depois, no momento da compra, devemos apostar “nos produtos locais e sazonais, porque não se deterioram tão rapidamente. Assim, desperdiçamos muito menos e isso tem impacto financeiro. Para além disso, sempre que possível, devemos comprar a granel, para adquirir apenas a quantidade que, efetivamente, precisamos”.

Já em casa, a preocupação deve ser “acondicionar corretamente os alimentos, para durarem mais tempo e continuarem nutritivos”. Para isso, basta adotar algumas medidas simples, como por exemplo, guardar os alimentos em frascos de vidro, aproveitar os diferentes níveis de temperatura do frigorifico e envolver as verduras num pano húmido. Há uma série de truques que ajudam a prolongar a vida dos alimentos.

“Pensar fora da caixa”

No ato de confeção dos alimentos, o ideal é pensar um pouco “fora da caixa” e tentar aproveitar os alimentos integralmente, usando, por exemplo, a rama da cenoura, a rama da beterraba, a casca da abóbora, entre outros.

Outra medida na luta contra o desperdício é a aposta em “produtos multifunções, como por exemplo, o óleo de amêndoa que pode servir de hidratante corporal, ou de desmaquilhante. Recorrendo a ingredientes relativamente comuns, como por exemplo, o vinagre, o bicarbonato de sódio, o ácido cítrico, ou usando sabão com água morna, podemos criar um detergente multiusos”, refere.

Consumo sustentável, mais poupança

Eunice Maia, que criou o Programa Z(h)ero, um projeto educativo ambiental de redução de desperdício para empresas e escolas, não tem dúvidas de que um consumo mais sustentável é sinónimo não só poupança ambiental, mas também de poupança financeira.

“Nestes últimos cinco anos, que são os cinco anos da Maria Granel, transitei de um paradigma consumista para um paradigma de consumo consciente e, nitidamente, isso tem impacto financeiro e ambiental. Sobretudo, porque muda a forma como olhamos para as coisas. Agora, penso primeiro se preciso verdadeiramente do que estou a adquirir, qual a sua durabilidade e se é possível descartar esse objeto de forma responsável, ou dar-lhe uma nova vida”, explica.

Achamos que precisamos, mas já temos

Quando dizemos não aos produtos descartáveis, quanto conseguimos poupar? Por exemplo, se substituirmos as fraldas ou os pensos descartáveis por reutilizáveis?

Eunice Maia esclarece: “um copo menstrual, por exemplo, custa cerca de 24 euros. Esse valor pode parecer elevado para uma compra, mas se colocarmos na balança que ele tem uma durabilidade de cerca de dez anos, rapidamente constatamos que fica bastante mais barato do que os pensos, ou os tampões descartáveis menstruais. Isto acontece com muita coisa”.

Já nas fraldas para bebés, “além de podermos comprar as reutilizáveis, ainda podemos adquiri-las em segunda mão. Assim, estamos a ter acesso a um objeto que vai cumprir a sua função e tiramos da equação a necessidade de produzir novamente e extrair matérias-primas. Não há nada mais sustentável do que aquilo que já temos. É esse olhar que precisamos de ter. Muito daquilo que achamos que precisamos, na verdade nós já temos em casa. Também é essencial pensar quem queremos apoiar com a nossa compra, porque comprar é apoiar projetos e valores em que acreditamos”, conclui.

Substituir gel de banho por sabonete

Será que ao diminuirmos a quantidade de resíduos que geramos, todos os dias, e pensarmos no nosso impacto ambiental, isso acabará por se refletir positivamente na nossa carteira?

“Claro que sim”, defende Eunice Maia, esclarecendo que “um shampoo sólido custa no mercado entre sete e dez euros e tem uma durabilidade de cerca de três a quatro meses. Os shampoos que temos na nossa loja são biológicos e produzidos por pequenas empresas familiares nacionais. Por isso, ao adquirir este produto estamos a apoiar a produção nacional, a poupar o ambiente e a escolher um produto que acaba por sair mais económico. Para além disso, o seu impacto na nossa saúde, na nossa pele, no nosso couro cabeludo é também mais positivo”.

“Outro exemplo, são os desodorizantes, é possível fazê-los em casa, muitas vezes com ingredientes que normalmente guardamos na nossa despensa, como por exemplo, bicarbonato de sódio, óleo de coco, farinha de araruta, ou maizena e depois umas gotas de óleo essencial e já está, temos um desodorizante.
Substituir o gel de banho pelo sabonete, usar shampoo sólido, tudo isto, e falo por experiência própria, tem um impacto enorme no nosso orçamento familiar”.

Comprar a granel também é poupar

O projeto Maria Granel tem como missão ajudar a reduzir o desperdício e a eliminar o plástico descartável.

Ao incentivar a compra a granel, “temos a hipótese de levar pequenas quantidades, o que permite experimentar produtos. Por exemplo, quem nunca experimentou massas sem glúten, feitas 100% a partir de leguminosas, pode comprar apenas uma porção pequenina para ver se gosta. Quando compramos apenas a quantidade que precisamos, não estamos a desperdiçar, o que é bem diferente de comprar um pacote inteiro e depois acabar por não o usar. Isto também é poupança. Nós temos gente que entra na loja com uma receita de um bolo, por exemplo, e só precisa de uma chávena de cacau, então é exatamente isso que leva para casa. Para quê ter de comprar um pacote, se apenas vamos usar 50 gramas? De facto, não faz sentido e fica muito mais em conta”, explica.

“Com a pandemia houve muita gente a perceber a importância da natureza na nossa vida”

O projeto Maria Granel acabou por contagiar a jornada pessoal da sua fundadora, que, hoje, assume como propósito de vida – ajudar outras pessoas a reduzir o desperdício que geram.

Em relação à pandemia causada pela COVID-19, e à possibilidade de os tempos que vivemos poderem ter alguma influência na nossa consciência ambiental e na nossa escolha por opções mais sustentáveis, Eunice confessa-se “muito otimista”.

“Na minha vida aconteceu esta transição do consumismo para a consciência ambiental, por isso, o mesmo pode acontecer com qualquer pessoa. A pandemia, até por aquilo que assistimos na loja, acredito que tenha sido um momento revelador para muitas pessoas, porque passaram mais tempo em casa, tiveram de cozinhar mais, e aperceberam-se dos resíduos que estavam a gerar, talvez pela primeira vez”, frisa.

“Houve também uma preocupação maior em prolongar a vida dos alimentos, para não ter de desperdiçar e voltar a comprar. Também, talvez pela primeira vez, houve muita gente a sentir vontade de regressar à natureza e a perceber, até em termos de saúde mental, a importância que a natureza tem na nossa vida. Tenho esperança de que essa necessidade de conexão com o ambiente e com a natureza, seja uma via de acesso para um despertar ecológico”, conclui.

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