Share the post "Enjoa mais em carros elétricos? Há uma explicação para isso"
A transição para os carros elétricos trouxe silêncio, suavidade e uma resposta ao acelerador que muitos condutores consideram surpreendente. Mas nem todos os ocupantes recebem esta novidade da mesma forma. Cada vez mais passageiros, e alguns condutores, relatam sentir-se enjoados em automóveis elétricos, mesmo quando nunca tiveram esse problema num carro a gasolina ou a gasóleo.
Não é imaginação nem coincidência: existe uma explicação científica, e vale a pena perceber o que muda no habitáculo de um elétrico para provocar este mal-estar. Um estudo publicado no International Journal of Human–Computer Interaction confirmou aquilo que muitos condutores já suspeitavam empiricamente.
Níveis mais elevados de travagem regenerativa conseguem induzir enjoo de movimento, embora a introdução de sinais sonoros associados à travagem consiga atenuar o problema mesmo quando a regeneração está definida num nível elevado.
Outro inquérito, com centenas de participantes, mostrou que o enjoo não ocorre necessariamente com mais frequência nos elétricos do que nos automóveis a combustão, mas quando surge tende a ser mais intenso.
O cérebro humano tem dificuldade em estimar com precisão as forças de movimento de um veículo elétrico, precisamente por lhe faltar experiência anterior com este tipo de resposta mecânica. É uma questão de aprendizagem sensorial: décadas a andar em carros a combustão criaram um padrão de referência que, subitamente, deixa de se aplicar.
A travagem regenerativa é a suspeita
Se há um sistema apontado de forma consistente pelos investigadores, é a travagem regenerativa. Este mecanismo, que recupera energia cinética e a devolve à bateria sempre que se levanta o pé do acelerador, produz uma desaceleração diferente daquela a que o corpo está habituado.
Investigadores da Hong Kong University of Science and Technology (Guangzhou) identificaram que este tipo de travagem gera uma desaceleração de baixa frequência e recorrente, sobretudo em condução urbana com muitos arranques e paragens, e que os passageiros que não controlam o veículo sentem este movimento imprevisível sem qualquer aviso prévio.
O problema agrava-se porque cada fabricante calibra a travagem regenerativa de forma diferente. Como a força de aceleração e de regeneração varia consideravelmente entre modelos, alguns elétricos provocam claramente mais náuseas do que outros, o que explica por que razão a mesma pessoa se pode sentir perfeitamente bem num modelo e mal noutro.

O silêncio do motor também tem culpa
Um carro a combustão fornece um conjunto constante de pistas sonoras e vibratórias, como a subida do regime do motor antes de uma travagem, a vibração ligeira ao acelerar, que ajudam o cérebro a antecipar o que vai acontecer a seguir.
Num elétrico, grande parte destes sinais desaparece. De acordo com especialistas ouvidos pelo jornal britânico The Guardian, os dois principais fatores por trás deste desconforto são precisamente a travagem regenerativa e a quase total ausência de vibrações do motor, o que retira ao organismo referências que, até então, considerava garantidas.
Aceleração instantânea confunde o sistema vestibular
Ao contrário de um motor de combustão, que precisa de subir de rotação para libertar toda a potência, um motor elétrico entrega o binário máximo de forma praticamente imediata. Esta resposta, tão apreciada por quem conduz, pode ser desorientadora para quem vai sentado ao lado ou atrás.
Mesmo uma pressão ligeira no acelerador pode gerar um movimento súbito que perturba o passageiro, um efeito que se torna ainda mais evidente quando o elétrico em causa é sensivelmente mais potente do que o carro a combustão a que a pessoa está habituada. A isto soma-se um fator amplamente estudado em enjoo de movimento e que é o conflito sensorial entre aquilo que os olhos veem e aquilo que o corpo sente.
Segundo um responsável do setor tecnológico citado pela Driving Instructors Association, o enjoo é frequentemente causado por esta desarmonia entre visão e sensação física, e usar o telemóvel ou um tablet durante o trajeto é um dos gatilhos mais comuns, sendo que a travagem regenerativa agrava a situação ao introduzir mais uma camada de movimento variável que o corpo precisa de processar.
Quem conduz carros elétricos sente menos enjoo
Não é coincidência que sejam sobretudo os passageiros, em particular os que vão no banco de trás, a queixar-se deste problema. Quem está ao volante antecipa mentalmente cada travagem, cada aceleração e cada curva, porque é o próprio a decidir executá-las.
O cérebro do condutor prepara-se com antecedência para o movimento que se segue. Já os ocupantes que não têm qualquer controlo sobre o veículo ficam dependentes de pistas externas, sonoras e visuais, que num carro elétrico escasseiam.
Um estudo com dados fisiológicos reais confirma esta lógica situacional: manobras como curvas em S, tanto a subir como a descer, e travagens ou arranques súbitos revelaram-se os cenários que mais intensificam o enjoo, com um modelo de regressão logística a conseguir prever estes estados com 81,25% de precisão a partir de indicadores como a condutância da pele, a frequência respiratória e a frequência cardíaca.

As boas notícias é o cérebro adapta-se
Nem tudo é motivo de preocupação. Tal como aconteceu com qualquer outra novidade tecnológica ao longo da história do automóvel, o cérebro humano tende a ajustar-se a novos padrões de movimento com a exposição repetida.
Quanto mais tempo uma pessoa passar num carro elétrico, mais rapidamente aprenderá a antecipar as suas particularidades de travagem e aceleração, reduzindo progressivamente a probabilidade de enjoo.
Um investigador norte-americano que testa este fenómeno há vários anos refere que parte significativa do problema está relacionada com o estilo de condução, já que quem conduz um carro a combustão tende a acelerar até ao sinal de stop e só depois travar com força, enquanto a condução suave e contínua permitida pelo travão único dos carros elétricos é uma técnica que exige adaptação.
Como reduzir o enjoo nos carros elétricos
Algumas medidas simples ajudam a minimizar o desconforto, tanto para quem conduz como para quem viaja como passageiro:
- Suavizar a condução, antecipando travagens e acelerações de forma gradual, de forma a evitar alternâncias bruscas entre o pedal e a travagem regenerativa;
- Reduzir o nível de regeneração, quando o veículo o permite, sobretudo em trajetos urbanos com muitas paragens;
- Olhar para o horizonte em vez de para o telemóvel ou para o interior do veículo, minimizando o conflito entre o que os olhos veem e o que o corpo sente;
- Ventilar o habitáculo e evitar temperaturas elevadas, fatores que tendem a agravar qualquer tipo de enjoo;
- Sentar-se à frente sempre que possível, uma posição que oferece mais referências visuais do movimento do veículo;
- Dar tempo ao corpo, pois, a exposição repetida ao mesmo veículo tende a reduzir os sintomas ao longo de semanas.