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Marta Maia
Marta Maia
20 Out, 2020 - 12:00

Por que deve falar de dinheiro com os seus pais o quanto antes?

Marta Maia

O que acontece em caso de doença ou incapacidade? Quem toma decisões? Há dívidas por pagar? Se é filho adulto, estas são questões que deve abordar com os seus pais.

Conversar com os pais sobre dinheiro e compreender como anda a saúde financeira deles é fundamental quando chegamos à idade adulta. E é sobre isso que vamos falar agora.

Comecemos pelo óbvio: falar de dinheiro não é fácil. Por um lado porque podemos ser confrontados com a necessidade de admitir os nossos erros, por outro lado porque revelar em que pé estão as nossas poupanças não é algo que façamos com toda a gente nem de ânimo leve.

Num caso ou no outro, o tema é visto sempre como demasiado privado para falar nele abertamente.

Quando em causa estão os nossos pais, as coisas não ficam mais fáceis. Antes pelo contrário. Ainda assim, ter uma conversa franca sobre dinheiro, mas também sobre responsabilidades futuras, é algo que pode vir a ser muito importante. E convém que aconteça o quanto antes.

Porquê querer saber do dinheiro dos seus pais

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Não tem nada que ver com heranças, partilhas ou cobiça, mas antes com responsabilidade e abertura para encarar o futuro. Os seus pais não vão ser jovens e independentes para sempre. Pode dar-se o caso de um deles ficar sozinho de repente se o outro falecer. Podem ainda, em função da idade ou de uma situação de doença, tornar-se pessoas vulneráveis e dependentes.

Num cenário de falecimento de um dos seus pais, saberá o outro organizar tudo o que é preciso organizar? Saberá, por exemplo, onde está guardado ou aplicado o dinheiro? Ou se há porventura um seguro de vida de que seja beneficiário? E se ficarem dependentes ou psicologicamente incapacitados, quem pode decidir por eles? Quem tem acesso aos bens e às contas bancárias?

Numa situação de dependência, cabe aos filhos agirem no melhor interesse dos pais. Se não souber o que os seus pais têm e onde, pode vir a confrontar-se com processos legais e burocráticos que podiam ser evitados. Uma preocupação que certamente se dispensa, quando é necessário lidar com a doença de um pai ou uma mãe.

Falar de dinheiro com os pais é preparar o futuro. É saber em que ponto estão, se têm alguma dívida, o que têm guardado e o que podem pagar caso necessitem de cuidados permanentes. É uma defesa para todos.

Como abordar o tema

É natural que os seus pais ofereçam resistência a uma conversa como esta. Pela cabeça podem passar-lhes mil e uma ideias erradas: que está interessado na herança, que quer saber se os seus irmãos não vão ficar com mais coisas, que quer tirar-lhes alguma coisa. Vai ter de ser frontal e claro para não ser mal interpretado.

Comece a conversa por explicar a necessidade de falarem sobre o tema um dia. Dependendo da reação deles, essa conversa pode nem acontecer nesse momento, mas pelo menos vai preparando os dois para que comecem a aceitar a ideia.

Explique que é para o bem de todos, que não vai mexer em nada, nem tão-pouco quer controlar o dinheiro de ninguém. Que não vai querer relatórios do que gastam nem dos movimentos das contas. Só quer mesmo um plano geral, saber o que há e onde, para, em caso de necessidade, saber com o que conta. Pode vir a ser importante, por exemplo, para ajudar a suportar custos com cuidados de que venham a precisar.

Sobretudo, é importante ir com calma. Ninguém gosta de ser confrontado com a própria finitude, nem com a possibilidade de ficar dependente. Seja sensível à delicadeza do tema e dê espaço aos seus pais se perceber que o assunto os deixa ansiosos.

Inclua os irmãos

Se tiver irmãos, é importante que não os deixe de fora desta conversa sobre dinheiro, sobretudo porque também podem interpretar mal as suas ações se vierem a saber depois que a conversa aconteceu. Diga-lhes que planeia falar com os pais sobre do assunto e explique muito bem porquê; convide-os a estarem presentes nessa conversa ou ofereça-se para os atualizar sobre os resultados depois.

O importante é que, independentemente da relação que haja entre os irmãos, ninguém fique com a sensação de que está a ser deixado de parte ou de que algo está a ser feito nas suas costas. Fale abertamente sobre o tema e faça por fornecer todos os detalhes que lhe pedirem.

Se a relação com os irmãos assim o permitir, aproveite e acerte detalhes com eles também: quem está disponível para cuidar dos pais se e quando eles precisarem, quem está disponível para cuidar da gestão financeira dos pais quando eles já não forem capazes… Deixem tudo devidamente acertado o quanto antes. Se não vier a ser necessário, ótimo. Se vier a ser necessário, não vão perder tempo a discutir na urgência do momento e podem focar-se no que mais importa: o bem-estar dos vossos pais.

Trate da burocracia

É possível fazer o testamento em vida, bem como assinar procurações que só têm validade em caso de comprovada incapacidade psicológica. Também é possível apontar ao banco uma pessoa que pode ter acesso aos seus bens se estiver incapacitado.

Estes são alguns dos documentos que podem e devem ser tratados antes de acontecer o pior. Se tem abertura suficiente com os seus pais, peça-lhes que deixem claras as suas vontades, desejos e preocupações. Confirme a forma como eles querem que tudo seja gerido, faça os documentos que lhe dão poder de decisão caso seja necessário.

Se ajudar à aceitação por parte dos pais, procurem um advogado que os ajude a garantirem-se em vida através de contratos e procurações. Afinal, o importante é que tudo seja mais ágil no pior dos cenários.

Acima de tudo, antecipe-se. Não empurre esta conversa com a barriga, porque todos sofrem mais se as coisas correrem mal. A antecipação pode doer, mas nada dói mais do que enfrentar o destino sem estar preparado para ele.

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