Encravada nas serras de Las Villuercas, na província de Cáceres, Guadalupe é uma das povoações mais fascinantes da Extremadura espanhola.
Este histórico município, com pouco mais de 1700 habitantes, é um autêntico tesouro que conquistou títulos como “Primeiro Maravilha Rural de Espanha” (2017), integra a associação dos “Pueblos Más Bonitos de España” desde 2018 e foi reconhecido pela Organização Mundial do Turismo como “Melhor Aldeia Turística do Mundo” em 2022.
A povoação desenvolveu-se em torno do seu monumento mais emblemático, o Real Mosteiro de Santa María de Guadalupe, declarado Património Mundial da UNESCO em 1993.
Este conjunto monumental é o coração espiritual da Extremadura e um dos principais centros de peregrinação da Península Ibérica, apenas atrás de Santiago de Compostela.
A lenda conta que, no início do século XIV, um pastor chamado Gil Cordero encontrou uma imagem da Virgem junto ao rio Guadalupe. Este achado milagroso deu origem à construção de uma ermida que rapidamente se transformou num importante santuário.
A Virgem de Guadalupe é hoje padroeira da Extremadura e ostenta o título de Rainha das Espanhas, sendo especialmente venerada em todas as terras de língua espanhola.
Mosteiro de Santa María de Guadalupe: o coração

A visita ao Real Mosteiro é absolutamente imprescindível e pode ocupar facilmente duas a três horas. Este magnífico complexo do século XIV combina vários estilos arquitectónicos, com destaque para o gótico e o mudéjar.
O que ver no mosteiro
A fachada principal. Em estilo mudéjar, impressiona pelas suas imponentes portas de bronze. As escadarias que levam à entrada oferecem uma perspetiva majestosa do edifício.
Os claustros. O mosteiro possui dois claustros distintos. O claustro mudéjar, do século XIV, é um exemplo sublime desta influência árabe na arquitetura cristã, com um oratório de transição entre o gótico e o mudéjar. O segundo claustro, em estilo gótico, complementa harmoniosamente o conjunto.
A sacristia. É uma das salas mais impressionantes, com onze telas do mestre extremenho Francisco de Zurbarán. As pinturas, que representam episódios da vida dos monges jerónimos, são consideradas obras-primas do barroco espanhol.
O Camarín da Virgem. Decorado com obras de Lucas Jordán, este espaço alberga a imagem da Virgen de Guadalupe, ricamente vestida e adornada.
Os museus: O complexo inclui o Museu de Bordados, o Museu de Livros Miniados e o Museu de Pintura e Escultura, onde se guardam preciosidades como relicários, ourivesaria e obras de El Greco.
Informações práticas. As visitas ao mosteiro são guiadas (cerca de 45 minutos), com entrada de aproximadamente 6 euros. Convém reservar com antecedência, especialmente aos fins de semana e feriados.
A Hospedaria do Real Mosteiro
Uma experiência única é alojar-se na Hospedaria do Real Mosteiro, onde os quartos, antigamente celas monásticas, rodeiam o magnífico claustro do século XVI.
Dormir neste espaço histórico permite sentir a atmosfera medieval e aceder ao claustro em momentos de maior tranquilidade.
Percurso pelas ruas históricas de Guadalupe

O centro histórico de Guadalupe, declarado Conjunto Histórico-Artístico, é um convite para se perder pelas suas ruas empedradas e descobrir cantos repletos de história.
Praça de Santa María de Guadalupe
Esta praça central é o coração da vida local. Aqui encontra-se a Fonte dos Três Canos, onde foram batizados os primeiros indígenas trazidos por Cristóvão Colombo após a sua segunda viagem às Américas.
Este episódio histórico sublinha a importância de Guadalupe na história da descoberta do Novo Mundo e foi neste mosteiro que os Reis Católicos receberam Colombo para financiar a sua expedição.
Parador de Turismo
Em frente ao mosteiro ergue-se o antigo Hospital de San Juan Bautista (séculos XIV-XV), atual Parador de Turismo.
Este edifício histórico foi durante séculos um refúgio para peregrinos e albergou uma importante Escola de Medicina. Mesmo que não fique alojado, vale a pena visitar os seus jardins e espaços comuns.
Calle Mayor
Esta artéria principal liga a parte alta e baixa da povoação, ladeada por casas de arquitetura tradicional extremenha com varandas de madeira, pórticos e alpendres. É aqui que se concentram muitas das lojas de artesanato local.
Uma das tradições mais enraizadas em Guadalupe é o trabalho artesanal do cobre, arte que tem origem no trabalho dos monges jerónimos durante a Idade Média.
Antiga Judiaria e arcos medievais
Guadalupe preserva vestígios da sua antiga comunidade judaica. Passeando pelas ruas estreitas, encontram-se vários arcos medievais, como o Arco de Sevilla, o Arco del Tinte e o Arco del Chorro Gordo, que testemunham a estrutura defensiva medieval da povoação.
Arco de San Pedro e Plazuela de la Pasión
Atravessando o Arco de San Pedro, chega-se à Plazuela de la Pasión, uma pequena praça com uma fonte de pedra rodeada de casas tradicionais. Perto daqui encontra-se o Hospital de Mujeres (século XV), com uma bela fachada gótica.
Ermida do Humilladero
A cerca de quatro quilómetros do centro, esta ermida do século XV oferece vistas panorâmicas sobre a povoação e a serra circundante. É um local de peregrinação tradicional e merece a deslocação para quem dispõe de tempo.
Gastronomia: sabores autênticos da Extremadura

A cozinha de Guadalupe é um reflexo fiel da gastronomia extremenha, simples, honesta e preparada com produtos de excelência.
Não deve perder as migas extremeñas, preparadas com pão, azeite, água, sal, alho e pimentão, são servidas com chouriço, toucinho e, por vezes, ovo estrelado. Um prato energético e profundamente reconfortante.
Há ainda a morcilla de Guadalupe, a morcela local que combina sangue de porco, banha, cebola e pimentão de La Vera, com um sabor fumado característico.
Pode ainda deliciar-se com a caldereta de cordeiro (ensopado de cordeiro), frango “a lo Padre Pedro” (receita com origem nos monges do mosteiro), o Bacalao monacal (bacalhau preparado segundo a tradição dos frades jerónimos) ou Zorongollo (salada de pimentos assados com cebola e ovo)
A doçaria tradicional é outro ponto forte da gastronomia local. Descubra as perrunillas (biscoitos feitos com banha de porco), bollas de chicharrones (doces tradicionais com torresmos) ou pudim de castanhas.
Como chegar a Guadalupe
Guadalupe situa-se no sudeste da província de Cáceres, numa localização privilegiada entre paisagens montanhosas. O acesso pode ser feito de diferentes formas.
De carro. É a opção mais recomendável, pois permite explorar a região circundante. Guadalupe fica a cerca de uma hora de Trujillo e a aproximadamente duas horas de Madrid.
De autocarro. Existem ligações regulares desde Cáceres e Trujillo, embora menos frequentes que outras rotas turísticas.
Aeroporto mais próximo. Madrid-Barajas, a cerca de 200 km de distância.
Caminos de Guadalupe: Rotas de Peregrinação
Tal como Santiago de Compostela tem os seus caminhos, Guadalupe é o destino final de doze rotas históricas de peregrinação que cruzam a Península Ibérica.
Estas rotas medievais, que ligam cidades como Madrid, Toledo, Cáceres, Mérida e Plasencia a Guadalupe, estão assinaladas e podem ser percorridas a pé ou de bicicleta.
A mais popular é a rota desde Talavera de la Reina, com cerca de 140 km divididos em várias etapas. Para os interessados em turismo religioso ou caminhadas de longo curso, estas rotas oferecem uma experiência autêntica.
Informações Práticas
Gabinete de turismo. Localizado no centro, oferece informação detalhada, mapas e pode ajudar com reservas. Os funcionários são conhecidos pela simpatia e conhecimento profundo da região.
Estacionamento. Existem parques de estacionamento gratuitos a cerca de 5-10 minutos a pé do centro. O acesso automóvel ao centro histórico é restrito.
Acessibilidade. O centro histórico tem ruas empedradas e inclinadas que podem dificultar a mobilidade. O mosteiro tem algumas zonas acessíveis, mas nem todas.
Melhor forma de explorar. A pé. A povoação é pequena e o melhor é perderse pelas suas ruas sem pressa.
Compras. Além do artesanato em cobre, pode adquirir produtos regionais como mel, azeite, enchidos e queijos em várias lojas especializadas.
Guadalupe não é apenas um destino turístico. É uma viagem no tempo a um período em que fé, arte e história se entrelaçavam nas pedras das suas ruas e muros.