Pedro Martins
Pedro Martins
09 Abr, 2019 - 17:04
História do Classe A e do teste do alce

História do Classe A e do teste do alce

Pedro Martins

O que é que uma revista sueca e uma portuguesa têm em comum? Um Mercedes-Benz virado ao contrário! Esta é a história do Classe A e do teste do alce.

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A história do Classe A e do teste do alce tornou-se uma das histórias mais famosas no capítulo da segurança automóvel. Estávamos em 1996 quando a Mercedes-Benz apresentou o seu mais pequeno carro de produção em série. O Mercedes-Benz Classe A era uma abordagem completamente nova do construtor alemão, conhecido pelos automóveis sóbrios e de perfil clássico. Mas aquele que foi chamado o “baby-Mercedes” viria a protagonizar um dos falhanços mais mediáticos na história da marca.

A história do Classe A e do teste do alce fez correr muita tinta. No entanto, não fosse o facto de ter acontecido com uma marca premium e das mais conceituadas em todo o mundo, provavelmente o assunto já tinha passado à história. Neste caso, não só não passou, como ficou para a história.

O Classe A viu o alce e assustou-se

Carros classe A

Apresentado no Salão Automóvel de Frankfurt, em 1996, o Mercedes-Benz Classe A era um carro compacto, que veio revolucionar a linha habitual dos automóveis Mercedes-Benz. O primeiro carro de tração dianteira da marca destacava-se no catálogo pelo design mais ousado, estranho aos olhos conservadores dos habituais clientes da marca.

O formato entre hatchback e monovolume, com a frente curta, um pilar C muito próprio e a altura ao solo mais elevada que um Mercedes “normal” surpreendiam o mundo. O Classe A media apenas 3.575 mm de comprimento mas, tendo em conta as dimensões, o espaço a bordo era generoso. A técnica para fazer um carro grande por dentro e pequeno por fora foi conseguida graças à inovadora plataforma, que ficou conhecida como sandwich.

Foi concebida de forma a que, em caso de choque frontal, o motor descesse e recuasse dentro da plataforma, por baixo do habitáculo, mantendo os ocupantes dianteiros protegidos, sem que o motor entrasse no habitáculo. Além do design, esta foi outra solução inovadora que não deixou o Classe A passar despercebido. Mas as atenções sobre o compacto de Estugarda tornaram-se demasiadas (e indesejadas) quando a revista sueca Teknikens Värld decidiu levar o Classe A para o teste do alce.

O teste do alce era um exercício “comum”, inventado em 1970. Dado que o alce é um animal habitual na Suécia e que, não poucas vezes, obrigava condutores a desviarem-se rapidamente para não atropelarem o animal, os suecos fizeram desta situação de perigo uma bitola para avaliar a segurança dos automóveis. O teste do alce consiste em desviar o carro rapidamente, como se estivesse a evitar embater no animal, e voltar a colocá-lo no mesmo sentido em que seguia.

Efetuado a 60 km/h, é um exercício que implica uma rápida transferência de massas, colocando em causa a segurança do veículo e ocupantes. E foi neste encontro que começou a história do Classe A e do teste do alce, em 1997. Um dos fatores que contribuiu para chumbar no exame terá sido, precisamente, a plataforma, que tinha 200 mm de altura. A vantagem em habitabilidade e segurança da inovadora solução acabou por revelar-se traiçoeira no equilíbrio do Classe A, prejudicado pelo centro de gravidade mais elevado.

O novo Mercedes capotou no exercício, ao desviar-se do alce. Ao animal não aconteceu nada (até porque era um boneco) mas a Mercedes-Benz sofreu graves danos, financeiros e de imagem. O chumbo no teste aconteceu também em Portugal, quando a revista Turbo fez o mesmo exercício. O prestígio e brilho da estrela mais famosa do mundo automóvel tornou-se o centro das atenções pelos piores motivos.

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A reação da Mercedes-Benz não se fez esperar e a marca suspendeu a produção do Classe A. Em 1998, a Mercedes-Benz reapresentou o Classe A. O carro tinha agora sistema de controlo de estabilidade ESP, alterações na suspensão que o tornaram mais rígido e pneus de maiores dimensões. O Classe A passou a desviar-se do alce e sem colocar ninguém em perigo. A Mercedes-Benz terá recuperado o investimento (e do susto…), com mais de 1,1 milhões de unidades vendidas.

Quem te viu e quem te vê

Mercedes Classe A amarelo

Passaram 14 anos até a Mercedes-Benz apresentar o novo Classe A. E em boa hora o fez. A BMW tinha o domínio do segmento com o Série 1, que não demorou muito a ser ofuscado com o brilho da nova estrela. E quem achar que os alemães não têm humor, refira-se que foi a própria Mercedes-Benz que recuperou a história do Classe A e do teste do alce.

A marca apresentou o carro à imprensa com um alce à porta e umas letras garrafais a desejar as boas-vindas. Com um conceito completamente diferente do monovolume e com um estilo mais moderno, o Classe A abriu as portas da casa a clientes mais jovens. O Classe A foi o responsável por diminuir a idade média de clientes da marca, que passou de 40 anos para cerca de 33.

A atual linguagem de design da casa germânica teve início na geração do Mercedes-Benz Classe A, em 2012, e que já sofreu restyling, em 2018, com a passagem para a era “Olá Mercedes”. Além do estilo mais moderno e muita tecnologia, o novo Classe A conta com a parceria entre Renault e Mercedes-Benz.

A utilização de motores Diesel franceses por parte dos alemães é uma das mais-valias desta aliança, com a consequente redução de custos. As atuais versões A180 d e A200 d disponibilizam motor Renault e contribuem para que o Classe A seja um dos automóveis mas vendidos em Portugal. Segundo dados da ACAP, o Classe A foi o 6º carro mais vendido em Portugal em 2018. E alces, nem vê-los! Há marcas que têm uma estrelinha…

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