Miguel Pinto
Miguel Pinto
14 Jun, 2021 - 15:31

Mosteiro da Batalha: o templo da Pátria que 7 reis construíram

Miguel Pinto

O Mosteiro da Batalha, construído ao longo de sete reinados, é uma das jóias maiores do património nacional. E merece bem uma visita calma e prolongada.

Mosteiro da Batalha

O Mosteiro da Batalha, também conhecido como Mosteiro de Santa Maria da Vitória, é uma das jóias maiores do património nacional, sendo mesmo apelidado de “Templo da Pátria”. É uma obra notável, quer de arquitetura, quer de engenharia, misturando diferentes estilos, com o gótico e o manuelino à cabeça.

Foi mandado erguer pelo rei D. João I, como agradecimento pela vitória dos portugueses sobre o castelhanos na Batalha de Aljubarrota. A construção iniciou-se em 1386 e a prolongar-se-ia por cerca de dois séculos, atravessando, nada mais, nada menos, que sete reinados em Portugal.

Situado na vila da Batalha, no distrito de Leiria, albergou no início os frades dominicanos, mas com a extinção das ordens religiosas (ocorrida no século XIX, no contexto da revolução liberal), acabou por ser incorporado no património nacional. Foi considerado uma das sete maravilhas de Portugal, em 2016 ascendeu à categoria de Panteão Nacional e, mais importante, integra a lista de Património da Humanidade da UNESCO.

Conhecer o Mosteiro da Batalha é, assim, entrar em contacto com uma pedaço determinante da história de Portugal e há muito que ver, quer nos claustros seculares, quer na região envolvente.

Mosteiro da Batalha: agradecer Aljubarrota

Estátua no Mosteiro da Batalha

Para se perceber a génese do Mosteiro da Batalha é preciso recuar uns valentes séculos, mais propriamente aos anos de 1383-85, altura em que uma crise dinástica colocou em real perigo a independência nacional, levando a um escalar de tensão com os castelhanos e ao inevitável conflito armado.

D. João I, o Mestre de Avis, era o filho ilegítimo do rei D. Pedro I de Portugal e de Teresa Lourenço, sua amante. D. Pedro, mais conhecido pelos amores com Inês de Castro, foi sucedido no trono por D. Fernando, que acabaria por morrer sem herdeiro varão. Isto levou à crise sucessória, com o então rei de Castela a reclamar o trono português, visto ser casado com a filha de D. Fernando.

Por isso, os nobres portugueses acabaram por se voltar para o bastardo João, que seria aclamado rei nas Cortes de Coimbra, mas os castelhanos não desistiram. Entraram em Portugal com um exército muito mais numeroso, mas acabariam derrotados em toda linha na Batalha de Aljubarrota. Saíram vergados à galhardia dos soldados português e à mestria militar de D. Nuno Álvares Pereira, um dos homens de maior confiança de D. João I e mais tarde conhecido como o “Condestável”. E consta também que até uma padeira lhes arreou forte e feio…

Projeto de vários reis

No sentido de agradecer a proteção divina no combate contra os castelhanos, D. João I mandou erguer o Mosteiro da Batalha, com as obras a começarem em 1386. Do projeto inicial, sabe-se que contemplava a igreja, o claustro, e as dependências monásticas, uma organização em tudo semelhante à adoptada no Mosteiro de Alcobaça.

Contudo, os diferentes reis foram acrescentando novos espaços, uns maiores que outros. Logo no início, D. João I mandou erguer a capela do Fundador. Mais tarde, D. Duarte mandou erguer a rotunda funerária, conhecida como Capelas Imperfeitas. O claustro menor já é da responsabilidade de D. Afonso V. Mais tarde, D. Manuel I volta a ordenar uma intervenção no Mosteiro da Batalha, mas iria priorizar a edificação do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. A última grande intervenção no monumento acontece no século XIX, sob a orientação de Luís Mouzinho de Albuquerque.

Considerado Panteão nacional desde 2016, alberga os restos mortais de D. João I e a sua mulher, D. Filipa de Lencastre, o infante D. Henrique, o Infante D. João, D. Isabel, D. Fernando, D. Afonso V, D. João II, D. Duarte e o Soldado Desconhecido.

Mosteiro da Batalha: o que ver em na envolvente

Se uma visita ao Mosteiro da Batalha é essencial para compreender um período fundamental da portugalidade, não deve perder a oportunidade para dar um salto a Leiria e continuar um autêntica lição de história. Afinal, são pouco mais de 14 quilómetros de distância e há muito para ver.

Castelo de Leiria

Castelo de Leiria

Desde logo o castelo. Leiria foi o primeiro concelho a receber foral de D. Afonso Henriques, corria o ano de 1142. Mas um dos reis mais marcantes será mesmo D. Dinis, que para lá de ter mandado construir a torre de menagem do castelo, também mandou plantar o famoso Pinhal de Leiria.

Sobranceiro ao rio Liz, foi mandado erguer pelo primeiro rei de Portugal, acabando por perder, ao longo dos séculos, a sua utilidade militar, designadamente no século XIX, altura em que acabou em ruínas. Em 1915, iniciam-se os trabalhos de reconstrução, que se prolongariam até à década de 1990. Apesar das profundas alterações que sofreu, continua a ser uma visita a não perder.

Rota d’O Crime do Padre Amaro

As referências a Leiria na obra O Crime do Padre Amaro, da autoria de Eça de Queiroz, levaram a autarquia a criar uma rota histórica e literária, que percorre a zona histórica da cidade. Durante cerca de uma hora, as pessoas são convidadas a fazer uma viagem ao passado, com paragens nos pontos citados no livro, que retrata “o meio beato de Leiria” de finais do séc. XIX.

A visita tem início no Largo 5 de Outubro de 1910, junto à entrada da Praça Rodrigues Lobo, onde se recua a 1870, ano em que o Amaro, o personagem principal da obra, foi nomeado pároco da Sé e onde Eça de Queiroz descreve as pessoas que frequentavam a então Praça de S. Martinho e os comentários em relação a um eventual envolvimento entre o Padre Amaro e “Ameliazita”.

A Rua Afonso Albuquerque, a Rua da Misericórdia, a Travessa da Tipografia, o Largo da Sé e a Casa do Sineiro, junto à torre que dá acesso ao Castelo de Leiria, são os restantes pontos da cidade de Leiria onde se desenrola o romance entre Amaro e Amélia, que integram a Rota d’O Crime do Padre Amaro. Além do enquadramento literário, as pessoas ficam a conhecer a história da época.

Grutas da Moeda

Em 1971, dois caçadores perseguiam uma raposa que se refugiou num algar existente no meio do bosque. Entraram e ao percorrer o seu interior aperceberam-se da sua beleza, com galerias repletas de inúmeras formações calcárias. Descobriram as Grutas da Moeda.

A gruta tem uma extensão visitável de 350 metros e uma profundidade de 45 metros abaixo da cota de entrada. A temperatura ronda os 18.º C, constante durante todo o ano, o que a torna fácil de visitar por todos.

Um guia acompanha os visitantes, percorrendo em total segurança as várias galerias naturais que foram batizadas de acordo com as imagens que sugerem: Lago da Felicidade, Sala do Presépio, Algar d’Água, Pastor, Cascata, Cúpula Vermelha, Marítima, Capela Imperfeita, Abóbada Vermelha e Fonte das Lágrimas.

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