Miguel Pinto
Miguel Pinto
02 Abr, 2019 - 02:32
Viajar com Eça de Queiroz: de Lisboa a Tormes

Viajar com Eça de Queiroz: de Lisboa a Tormes

Miguel Pinto

Eça de Queiroz é uma figura maior das letras em Portugal. Neste breve roteiro, seguimos alguns passos das suas obras e da sua vida pessoal.

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Viajar com Eça de Queiroz é embarcar numa jornada com um dos maiores escritores portugueses de sempre. Deixou para a posteridade obras como “Os Maias”, “O Crime do Padre Amaro” ou “O Primo Basílio”, por entre uma vasta coleção de escritos, que vão desde o conto até à intensa atividade jornalística que foi mantendo.

Eça de Queiroz: escritor cosmopolita

Homem viajado e cosmopolita, Eça sempre manteve uma relação tensa com o seu país, não perdoando as falhas e, muitas vezes, relativizando as qualidades. Portugal é, muitas vezes, pintado com tons macilentos, alvo de uma crítica impiedosa, assente em personagens-tipo que foi criando de forma magistral. E a galeria é longa e ilustre. Quem conhece a obra de Eça, sabe quem é o Conselheiro Acácio, quem era Dâmaso Salcede, que moral (não) tinha Basílio, o que inquietava Carlos da Maia, o que enfurecia João da Ega ou o que dilacerava o Padre Amaro.

Mas através dos escritos e da vivênca de Eça de Queiroz, é também possível conhecer um pouco do Portugal do século XIX, onde começavam a chegar alguns tímidos sinais do progresso que percorria a Europa. Alguns locais estão presentes, nem que seja ao de leve, em parte significativa da sua obra. Por isso, traçamos este roteiro sobre os espaços de Eça, sobre os quais escreveu, passou, viveu e morreu.

Lisboa

Apesar dos longos anos que passou fora de Portugal, Eça nunca esqueceu Lisboa, a cidade para onde foi viver logo após terminar o curso de Direito em Coimbra. Para seguir os passos do escritor em Lisboa, são incontornáveis espaços como a Casa Havaneza, o Teatro S. Carlos ou o Grémio Literário, ao lado do qual vivia Maria Eduarda, trágica heroína de Os Maias. Na atual Avenida da Liberdade, é ainda possível imaginar o antigo Passeio Público, um jardim fechado, demolido em 1883, e do qual restam apenas gravuras da época.

Lisboa

“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete”. Os Maias

Sintra

A cidade de Sintra surge na obra de Eça como uma escapatória, seja para descansar no ambiente de uma verdadeira écloga, seja para as lúbricas pândegas de alguns personagens dos seus romances, como Dâmaso Salcede ou Eusebiozinho, em “Os Maias”. As queijadas de Sintra, o casco histórico da cidade ou o monumental Palácio da Pena merecem uma visita cuidada.

Sintra

“Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes” Os Maias

Praia da Granja

A Granja era uma das praias mais chiques do país na segunda metade do século XIX. Poiso da aristocracia, era imediatamente reconhecível pelas elegantes moradias, ganhando ainda mais relevo quando lá chegou o comboio. Aliás, a importância da Granja era tal, que o rei D. Luís parou lá a caminho do Porto para inaugurar a Ponte D. Maria Pia. Eça de Queiroz também por lá passou e ali terá começado a namorar aquela que viria a ser a sua mulher, Emília de Castro. Aliás, após a morte de Eça, a viúva foi viver para a Granja, onde acabaria por falecer. Ainda lá se chega de comboio. Em Vila Nova de Gaia, outra paragem obrigatória para os queirosianos é o Solar dos Condes de Resende.

Granja

“A Granja é uma povoação diamante, uma estação bijou, uma praia de algibeira. Ao chegar toda a gente tem vontade de a examinar ao microscópio. Ao partir, apetece levá-la na mala, entre as camisas, como um sachet” Ramalho Ortigão (melhor amigo de Eça)

Póvoa de Varzim

Continuando para Norte, paramos na Póvoa de Varzim. A razão é simples: foi ali que nasceu, a 25 de novembro de 1845, José Maria de Eça de Queiroz. A casa onde o escritor veio ao mundo, na Praça do Almada, por lá continua, com uma placa na fachada a assinalar a efeméride. Há ainda na mesma praça uma estátua de homenagem a Eça. Na Póvoa de Varzim, terra de praias e pescadores, ficou pouco tempo. Mudou-se para Verdemilho, para casa dos avós, em Aveiro, e depois para o Porto onde iniciou os estudos..

Povoa Varzim

Tormes

O lugar passou à posteridade como Tormes, mas a verdade é que fica na freguesia de Santa Cruz do Douro, no concelho de Baião. Apesar de Eça não ter gostado do local, que apenas visitou por ser parte da herança da sua mulher, a verdade é que a Casa de Tormes terá sido a inspiração para o romance A Cidade e as Serras, publicado em 1901, já depois da sua morte. Mas é ali que continua a Fundação Eça de Queiroz e onde pode ser admirado algum do espólio que foi pertença do escritor. É ainda possível, mediante marcação, degustar pratos como arroz de favas, fricassé de aves ou bacalhau com pimentos e grão. A não perder ainda o famoso Caminho de Jacinto.

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Tormes

“Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância” A Cidade e as Serras

Mas se este é um pequeno roteiro de algumas cidades e lugares que em Portugal têm presença na obra e vida de Eça de Queiroz, a viagem pode ser alargada a outras latitudes. Como atrás se disse, o escritor foi um homem do mundo, muito por culpa da carreira diplomática que abraçou. Viajou pelo Egipto, esteve na inauguração do canal do Suez e visitou os Estados Unidos da América. Foi cônsul de Portugal em  cidades como Havana, Newcastle, Bristol  e Paris. Foi na capital gaulesa, mais propriamente em Neuilly-sur-Seine, que viria a falecer a 16 de Agosto de 1900. O funeral teve honras de Estado, seguindo para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Mais tarde, seria transladado para o cemitério de Santa Cruz do Douro em Baião. Acabou enterrado onde nunca quis viver.

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