Share the post "Penha dos Abutres: o trilho mais selvagem da Serra da Estrela nasce em Loriga"
Entre as paisagens mais impressionantes do Parque Natural da Serra da Estrela, a Penha dos Abutres continua a ser um dos segredos mais bem guardados por quem gosta de caminhadas exigentes.
Situada acima da vila de Loriga, no concelho de Seia, esta imponente formação rochosa oferece um dos trilhos mais desafiantes e mais recompensadores de todo o território continental português.
A Penha dos Abutres é um cume rochoso com cerca de 1.819 a 1.828 metros de altitude, que se ergue sobre a vila de Loriga, na vertente sudoeste da Serra da Estrela.
Ao lado, separada pela chamada Garganta de Loriga, encontra-se a Penha do Gato, com cerca de 1.770 metros.
Juntas, estas duas penhas formam uma moldura natural impressionante sobre a vila, visível a partir de vários miradouros da região, como o da Penha d’Águia.
O nome “Abutres” não é por acaso. As arribas rochosas desta zona da serra foram, historicamente, local de nidificação de aves de rapina, o que ajuda a explicar a toponímia da montanha.
Hoje, a área integra uma zona protegida e ambientalmente sensível, marcada por vales de origem glaciária, blocos erráticos e uma vegetação típica de altitude.
Penha dos Abutres: partida em Loriga

Antes de falar do percurso, vale a pena conhecer melhor Loriga, a aldeia serrana que serve de porta de entrada para a Penha dos Abutres.
Instalada a cerca de 770 metros de altitude, num antigo vale glaciário, Loriga é conhecida informalmente como a “Suíça portuguesa”, uma alcunha que ganhou ainda mais destaque depois de a vila ter sido distinguida pela Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas como uma das “Best Tourism Villages 2025”.
A vila é também famosa pela sua praia fluvial, considerada a única em Portugal continental localizada num vale glaciário, com águas límpidas alimentadas diretamente pela ribeira que desce da serra.
É precisamente a partir desta zona, e seguindo o curso da Ribeira de Loriga, que arranca um dos trilhos mais icónicos rumo à Penha dos Abutres.
O trilho Loriga-Torre-Penha dos Abutres
O percurso mais conhecido que liga Loriga à Penha dos Abutres é, na verdade, uma travessia de grande fôlego pela Serra da Estrela. Trata-se de uma variante do PR5, também documentada em várias plataformas de trilhos, com duas versões mais comuns.
- Versão linear (Loriga-Torre): cerca de 24 km, com um desnível acumulado de subida de aproximadamente 1.170 metros, entre a altitude mínima de 826 metros e a máxima de 1.993 metros, junto à Torre, o ponto mais alto de Portugal continental.
- Versão circular (Loriga-Torre-Penha dos Abutres-Loriga): mais longa, com cerca de 26 a 27 km e um desnível acumulado que pode ultrapassar os 1.500 metros, regressando à vila pela descida da Penha dos Abutres.
Este segundo troço, a descida (ou subida) pela Penha dos Abutres, é aquele que exige mais experiência e preparação física.
Ao contrário de outros trilhos bem sinalizados da Serra da Estrela, grande parte deste percurso não tem marcação oficial regular, sendo orientado sobretudo por “mariolas” (marcos de pedra empilhada) e por caminhos antigos, pouco mantidos.
Por essa razão, muitos caminhantes recomendam o uso de GPS e um bom conhecimento de orientação em montanha.
O que esperar do percurso

- Vale glaciário e ribeiras: o trajeto atravessa vários covões (depressões de origem glaciária) e ribeiras que, em época de chuva ou degelo, podem transportar um caudal considerável, tornando a travessia mais delicada.
- Zonas rochosas técnicas: especialmente na aproximação e descida da Penha dos Abutres, há troços onde é necessário trepar e “destrepar”, embora sem exigir equipamento de escalada.
- Vistas panorâmicas: o esforço é recompensado com panoramas amplos sobre Loriga, o vale glaciário e toda a vertente sudoeste da Serra da Estrela — uma das perspetivas mais fotografadas por quem já fez este trilho.
- Pontos de referência: ao longo do caminho, é comum passar por locais como o Covão da Areia, a Barragem do Covão do Meio e o Covão Boeiro, antes de alcançar a Torre ou de iniciar a descida pela Penha dos Abutres.
Grau de dificuldade e recomendações
Este não é um trilho para iniciantes. A generalidade das descrições aponta para um grau de dificuldade elevado, recomendado apenas a caminhantes com experiência prévia em montanha.
- Calçado adequado: botas de caminhada resistentes e com boa aderência são indispensáveis, sobretudo nos troços rochosos e nas travessias de ribeiras.
- Água em quantidade suficiente: nos meses de verão, não é aconselhável beber água das lagoas ou de cursos de água próximos da Torre e da estância de esqui, devido a possível contaminação.
- Proteção solar: em altitude, a exposição solar é mais intensa, pelo que chapéu e protetor solar são recomendados durante todo o ano.
- Atenção à meteorologia: o nevoeiro é frequente na Serra da Estrela e pode reduzir drasticamente a visibilidade em poucos minutos. Em caso de mau tempo, o mais prudente é adiar a caminhada.
- Cobertura de rede móvel: em vários pontos do trajeto, especialmente nas zonas mais remotas, não há cobertura de telemóvel, pelo que é recomendável informar alguém sobre o plano e o horário previsto de regresso.
- Inverno com neve: nos meses mais frios, a progressão pode exigir equipamento específico, como bastões, calças e botas impermeáveis, e, em situações de gelo, crampons.