Share the post "Data centers em Portugal: investimento seguro ou risco ambiental?"
Portugal tornou-se, nos últimos anos, um dos destinos mais cobiçados da Europa para a construção de data centers. Entre os megaprojetos anunciados em Sines, Lisboa e outras zonas do país, os valores de investimento ultrapassam os milhares de milhões de euros.
Mas por trás dos números atrativos, cresce também uma contestação que junta ambientalistas, populações locais e, nalguns casos, a própria justiça. O crescimento da inteligência artificial disparou a procura por infraestrutura capaz de processar e armazenar volumes de dados sem precedentes, e a Europa começou a ficar sem espaço nas praças tradicionais.
Portugal ocupa atualmente o décimo lugar entre os mercados de data centers com maior crescimento no mundo, beneficiando de vantagens estruturais como energia, localização geográfica e políticas públicas favoráveis. O país surge como alternativa a mercados europeus mais saturados, como Paris, Londres, Frankfurt, Amesterdão e Dublin, onde as restrições energéticas já travam novos projetos.
A isto soma-se a matriz energética nacional. Mais de 80% da eletricidade produzida em Portugal tem origem em fontes renováveis, um argumento central para quem defende o país como destino sustentável para este tipo de infraestrutura.
O Governo tem inclusive avançado com um plano nacional dedicado ao setor, que aproveita mecanismos legais para realocar capacidade de rede não utilizada para projetos de alta demanda, dando prioridade aos data centers classificados como Projetos de Interesse Nacional.
Data Centers: problemas técnicos e ambientais

O debate em torno dos data centers em Portugal dificilmente se resolverá apenas com argumentos técnicos ou promessas de investimento. É que há muitas questões a considerar.
Consumo de água e de energia
O tema da água é, provavelmente, o que mais divide opiniões. Os sistemas de arrefecimento tradicionais, baseados em torres evaporativas, consomem grandes quantidades de água doce para dissipar o calor gerado pelos servidores. Por essa razão, projetos como o de Sines optaram por soluções alternativas, como a captação de água do mar para arrefecimento, evitando o recurso a água potável.
Ainda assim, esta escolha não está isenta de contestação, sobretudo depois de ter surgido um litígio judicial entre a EDP e o Estado a propósito da titularidade dos canais de circulação de água do mar que o projeto precisa de utilizar.
A questão hídrica ganha ainda maior relevância num contexto de alterações climáticas, já que a escassez de água, provocada por incêndios florestais, secas prolongadas e ondas de calor extremas, se tornou um dos maiores riscos para a operação dos data centers a nível mundial.
Pressão sobre a rede elétrica
O ritmo de crescimento do setor está a testar os limites da infraestrutura elétrica portuguesa. Em Lisboa, por exemplo, a capacidade de TI planeada quase quadruplicou num único ano, passando de 373 MW para 1.389 MW, o que levanta dúvidas sobre a capacidade da rede para acompanhar este crescimento.
Análises críticas ao setor sublinham ainda que a construção de um data center avança normalmente mais depressa do que a construção da infraestrutura elétrica que o deve alimentar.
Falhas, avarias e o custo do tempo de paragem
Do ponto de vista puramente operacional, os data centers enfrentam ainda problemas recorrentes de fiabilidade. De acordo com o Uptime Institute, referência mundial neste tipo de análises, mais de metade dos operadores reportou pelo menos uma falha nos últimos três anos, e a energia continua a ser a causa dominante dos incidentes mais graves, responsável por 54% dos casos.
As consequências financeiras não são despiciendas. Mais de metade dos inquiridos afirma que o incidente mais recente custou acima de 100 mil euros e um em cada cinco ultrapassou o milhão.
Este tipo de falha reforça, aos olhos dos críticos, a ideia de que a fiabilidade destas infraestruturas exige investimentos e cuidados que nem sempre acompanham a velocidade da sua construção.
Ocupação do solo e impacto na biodiversidade
Há também um problema mais silencioso, mas igualmente sensível: o impacto físico destas construções no território.
No caso do projeto de Sines, uma fiscalização do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas confirmou que as obras destruíram um habitat protegido, concretamente um charco temporário, na sequência de uma ação de fiscalização realizada em novembro.
Este tipo de ocorrência alimenta a desconfiança de quem acompanha de perto estes projetos.
Data Centers: o que dizem os opositores

As críticas mais duras não se centram apenas no ambiente. O projeto de Sines, apresentado em 2021 como o maior investimento estrangeiro em Portugal desde a Autoeuropa, ficou associado a um dos maiores escândalos políticos recentes do país.
Foi a chamada Operação Influencer, que investigou suspeitas de tráfico de influência ligadas à concessão de isenções ambientais e ao processo de licenciamento do empreendimento, e que acabou por precipitar a demissão do então primeiro-ministro.
A isto junta-se um ceticismo mais estrutural sobre os benefícios reais para o país. Analistas do setor têm sublinhado que, apesar da dimensão dos investimentos anunciados, permanece a dúvida sobre quanto dessa riqueza fica efetivamente em Portugal, seja em emprego qualificado, seja em receita fiscal.
Defendem ainda que a definição de limites legais ao consumo de eletricidade e água por parte dos grandes operadores é uma matéria que compete aos decisores políticos, não às próprias empresas.
Nas comunidades locais, as queixas mais comuns prendem-se com o ruído das instalações, a alteração da paisagem ou a eventual subida de temperatura em torno dos sistemas de arrefecimento.
Competitividade digital dos Data Centers

Do outro lado, promotores e representantes do setor argumentam que Portugal reúne uma combinação de fatores difícil de replicar.
Tem uma localização atlântica privilegiada, ligação a diversos cabos submarinos internacionais, potencial de energia renovável, estabilidade política e proximidade simultânea à Europa, a África e às Américas.
Defendem ainda que a sustentabilidade e a competitividade digital podem e devem caminhar lado a lado, apontando os progressos contínuos em eficiência energética, novas tecnologias de arrefecimento e maior utilização de energias renováveis como prova de que o setor está a evoluir na direção certa.
Quanto à polémica da água, alguns responsáveis do setor consideram que parte da controvérsia assenta em equívocos técnicos, sublinhando que, em Portugal, praticamente não existem data centers a operar com sistemas evaporativos de grande consumo hídrico, e que soluções como o arrefecimento com água do mar, usado em Sines, implicam consumo praticamente nulo de água doce.