Share the post "Pico da Nevosa: subida a pulso até ao ponto mais alto do Gerês"
O Pico da Nevosa é daquelas montanhas que se conquistam. Com os seus 1546 a 1548 metros de altitude, este é o ponto mais elevado do Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), o cume mais alto de todo o Norte de Portugal e o segundo mais alto de Portugal continental, superado apenas pela Torre, na Serra da Estrela.
Não é uma caminhada para quem procura um passeio tranquilo ao fim de semana. É uma aventura exigente, física e mentalmente, que recompensa com vistas de tirar o fôlego sobre o Minho, Trás-os-Montes e a Galiza espanhola.
Para quem gosta de montanha a sério, chegar ao cume da Nevosa é uma das experiências mais memoráveis que Portugal tem para oferecer.
Onde é o Pico da Nevosa?
O Pico da Nevosa situa-se no concelho de Montalegre, na freguesia de Outeiro, no maciço central da Serra do Gerês.
Fica muito perto da fronteira com a Galiza, um pormenor que, visto do cume, se torna evidente quando os olhos alcançam aldeias e serras espanholas do outro lado.
O nome “Nevosa” não é por acaso. Este pico permanece coberto de neve durante grande parte do tempo entre dezembro e maio, o que lhe confere uma aura especial e, simultaneamente, exige precauções redobradas fora da época mais quente
Durante muito tempo, julgava-se que o Pico do Sobreiro (1538 m) era o ponto mais alto da serra. Só medições mais rigorosas confirmaram a supremacia da Nevosa.
O facto de se encontrar numa zona de difícil acesso, no interior do PNPG, é precisamente o que preserva a sua selvajaria. Aqui, o tempo parece ter parado.
Como chegar ao Pico da Nevosa

Existem várias rotas possíveis para alcançar a Nevosa, todas elas longas e exigentes. A montanha fica numa zona interior do parque, pelo que não há atalhos e todas as abordagens implicam percursos de fôlego.
1. A partir de Xertelo (Montalegre). Esta é uma das rotas mais utilizadas e parte da aldeia de Xertelo, em Montalegre. É um percurso circular de cerca de 29 km (18 milhas), com um desnível acumulado superior a 1265 metros, e demora entre 10 a 10,5 horas a completar.
O caminho sobe por caminhos de montanha, passa pelo Alto das Portas do Castanheiro e pelos prados da Ribeira das Negras antes de alcançar o sopé do cume.
2. A partir da Portela do Homem. Esta rota circular parte da fronteira entre Portugal e Espanha (Portela do Homem), passa pela famosa Cascata de S. Miguel, sobe progressivamente ao Pico da Nevosa via Curral das Abrótegas e Lagoa das Carris, e regressa pelo Pico do Sobreiro e pelo Miradouro do Vale do Homem.
É um dos percursos mais completos e cenicamente variados.
Mas atenção que Vale do Alto Homem é uma Área de Proteção Total (ZPT) do PNPG, onde é proibido circular sem autorização prévia. Informe-se junto do parque antes de iniciar qualquer rota que atravesse esta zona.
3. A partir de Pitões das Júnias. Uma alternativa de grande beleza, que parte desta aldeia histórica de Montalegre e sobe em direção à Fonte Fria (1458 m), seguindo depois a linha fronteiriça até à Nevosa.
É um percurso longo (pode ultrapassar os 35 km em versão completa com regresso pelas Minas dos Carris) e requer excelente preparação física.
Como chegar de carro
O acesso à zona de Montalegre faz-se pela A24 (autoestrada de Chaves) ou pela N103 vinda de Braga. A aldeia de Xertelo fica a cerca de 30 km de Montalegre. Para a Portela do Homem, a chegada é feita a partir de Braga pela estrada que atravessa Gerês (Vila do Gerês) até à fronteira com Espanha.
Não existe transporte público regular até aos pontos de partida dos trilhos. O carro próprio ou um transfer organizado são praticamente obrigatórios.
O que ver pelo caminho

A caminhada ao Pico da Nevosa não é apenas uma questão de chegar ao cume. O percurso em si é extraordinário, repleto de pontos de interesse naturais, históricos e faunísticos.
Fauna selvagem
O Gerês é território de espécies raras, e os trilhos para a Nevosa cruzam algumas das zonas mais preservadas do parque.
- Cavalos Garranos: a raça autóctone que vive em estado selvagem na serra, muitas vezes encontrada nos prados de altitude;
- Cabras-montesas: especialmente nas zonas rochosas de maior altitude;
- Lobo-ibérico: o habitante mais discreto e temido destas serras, raramente visto mas frequentemente sentido (à noite, os uivos chegam a ouvir-se nos acampamentos);
- Corça: emblema do PNPG, frequente em vales e clareiras;
- Águia-real e outras rapinas: sobrevoando as cristas ventosas da serra.
As Minas dos Carris
A cerca de 1440 metros de altitude, as Minas dos Carris são um dos pontos mais fascinantes de todo o percurso. Trata-se de um antigo complexo mineiro de extração de volfrâmio, hoje em ruínas, mas que mantém uma aura singular e quase cinematográfica.
Os edifícios abandonados, a represa, as galerias e a escombreira contam a história de uma atividade que aqui fervilhou durante décadas. A mina principal consiste num poço vertical de cerca de 200 metros de profundidade.
Brandas, currais e prados de altitude
Ao longo dos trilhos surgem antigas brandas (pastos de verão de uso comunitário) e currais de pedra onde os pastores abrigavam o gado.
Estes elementos etnográficos são testemunhos vivos de uma cultura pastoril que moldou a paisagem do Gerês durante séculos. Os prados da Ribeira das Negras e da Lamalonga são alguns dos mais impressionantes.
A linha fronteiriça
Em vários troços da caminhada, o trilho corre sobre ou junto à linha de fronteira Portugal-Espanha, marcada por marcos de granito numerados.
O Marco nº 117 fica precisamente junto ao sopé da subida final para o cume da Nevosa. Éum ponto simbólico e um bom momento para apreciar a dimensão do que está prestes a acontecer.
O “Cadeirão” da Nevosa
No cume, encontra-se o chamado “cadeirão” da Nevosa, um recanto rochoso e acolhedor que parece feito para contemplar o mundo lá em baixo. É aqui que o esforço se dissolve e dá lugar à recompensa.
O que se avista do cume
Em dias limpos, a vista do Pico da Nevosa é simplesmente arrebatadora uma panorâmica a 360º que abrange serras de dois países.
Para noroeste, avistam-se as serras do Suído, Paradanta e Faro de Avión na Galiza, para nordeste, as serras de San Mamede e Manzaneda, habitualmente nevadas no inverno.
Para este, a Peña Trevinca, Segundeira e Gamoneda, para sul, o interior do Gerês português com as suas barragens, vales e cumes como o Pico do Sobreiro (1538 m), a Fonte Fria (1458 m) e a Roca Negra. É uma vista que dificilmente se esquece.