Miguel Pinto
Miguel Pinto
05 Mai, 2026 - 15:00

Pico da Nevosa: subida a pulso até ao ponto mais alto do Gerês

Miguel Pinto

É o ponto mais alto do Gerês e o segundo de Portugal Continental. Uma subida vertiginosa até ao incrível Pico da Nevosa.

pico da nevosa

O Pico da Nevosa é daquelas montanhas que se conquistam. Com os seus 1546 a 1548 metros de altitude, este é o ponto mais elevado do Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), o cume mais alto de todo o Norte de Portugal e o segundo mais alto de Portugal continental, superado apenas pela Torre, na Serra da Estrela.

Não é uma caminhada para quem procura um passeio tranquilo ao fim de semana. É uma aventura exigente, física e mentalmente, que recompensa com vistas de tirar o fôlego sobre o Minho, Trás-os-Montes e a Galiza espanhola.

Para quem gosta de montanha a sério, chegar ao cume da Nevosa é uma das experiências mais memoráveis que Portugal tem para oferecer.

Onde é o Pico da Nevosa?

O Pico da Nevosa situa-se no concelho de Montalegre, na freguesia de Outeiro, no maciço central da Serra do Gerês.

Fica muito perto da fronteira com a Galiza, um pormenor que, visto do cume, se torna evidente quando os olhos alcançam aldeias e serras espanholas do outro lado.

O nome “Nevosa” não é por acaso. Este pico permanece coberto de neve durante grande parte do tempo entre dezembro e maio, o que lhe confere uma aura especial e, simultaneamente, exige precauções redobradas fora da época mais quente

Durante muito tempo, julgava-se que o Pico do Sobreiro (1538 m) era o ponto mais alto da serra. Só medições mais rigorosas confirmaram a supremacia da Nevosa.

O facto de se encontrar numa zona de difícil acesso, no interior do PNPG, é precisamente o que preserva a sua selvajaria. Aqui, o tempo parece ter parado.

Como chegar ao Pico da Nevosa

vista do pico da nevosa

Existem várias rotas possíveis para alcançar a Nevosa, todas elas longas e exigentes. A montanha fica numa zona interior do parque, pelo que não há atalhos e todas as abordagens implicam percursos de fôlego.

1. A partir de Xertelo (Montalegre). Esta é uma das rotas mais utilizadas e parte da aldeia de Xertelo, em Montalegre. É um percurso circular de cerca de 29 km (18 milhas), com um desnível acumulado superior a 1265 metros, e demora entre 10 a 10,5 horas a completar.

O caminho sobe por caminhos de montanha, passa pelo Alto das Portas do Castanheiro e pelos prados da Ribeira das Negras antes de alcançar o sopé do cume.

2. A partir da Portela do Homem. Esta rota circular parte da fronteira entre Portugal e Espanha (Portela do Homem), passa pela famosa Cascata de S. Miguel, sobe progressivamente ao Pico da Nevosa via Curral das Abrótegas e Lagoa das Carris, e regressa pelo Pico do Sobreiro e pelo Miradouro do Vale do Homem.

É um dos percursos mais completos e cenicamente variados.

Mas atenção que Vale do Alto Homem é uma Área de Proteção Total (ZPT) do PNPG, onde é proibido circular sem autorização prévia. Informe-se junto do parque antes de iniciar qualquer rota que atravesse esta zona.

3. A partir de Pitões das Júnias. Uma alternativa de grande beleza, que parte desta aldeia histórica de Montalegre e sobe em direção à Fonte Fria (1458 m), seguindo depois a linha fronteiriça até à Nevosa.

É um percurso longo (pode ultrapassar os 35 km em versão completa com regresso pelas Minas dos Carris) e requer excelente preparação física.

Como chegar de carro

O acesso à zona de Montalegre faz-se pela A24 (autoestrada de Chaves) ou pela N103 vinda de Braga. A aldeia de Xertelo fica a cerca de 30 km de Montalegre. Para a Portela do Homem, a chegada é feita a partir de Braga pela estrada que atravessa Gerês (Vila do Gerês) até à fronteira com Espanha.

Não existe transporte público regular até aos pontos de partida dos trilhos. O carro próprio ou um transfer organizado são praticamente obrigatórios.

O que ver pelo caminho

gerês

A caminhada ao Pico da Nevosa não é apenas uma questão de chegar ao cume. O percurso em si é extraordinário, repleto de pontos de interesse naturais, históricos e faunísticos.

Fauna selvagem

O Gerês é território de espécies raras, e os trilhos para a Nevosa cruzam algumas das zonas mais preservadas do parque.

  • Cavalos Garranos: a raça autóctone que vive em estado selvagem na serra, muitas vezes encontrada nos prados de altitude;
  • Cabras-montesas: especialmente nas zonas rochosas de maior altitude;
  • Lobo-ibérico: o habitante mais discreto e temido destas serras, raramente visto mas frequentemente sentido (à noite, os uivos chegam a ouvir-se nos acampamentos);
  • Corça: emblema do PNPG, frequente em vales e clareiras;
  • Águia-real e outras rapinas: sobrevoando as cristas ventosas da serra.

As Minas dos Carris

A cerca de 1440 metros de altitude, as Minas dos Carris são um dos pontos mais fascinantes de todo o percurso. Trata-se de um antigo complexo mineiro de extração de volfrâmio, hoje em ruínas, mas que mantém uma aura singular e quase cinematográfica.

Os edifícios abandonados, a represa, as galerias e a escombreira contam a história de uma atividade que aqui fervilhou durante décadas. A mina principal consiste num poço vertical de cerca de 200 metros de profundidade.

Brandas, currais e prados de altitude

Ao longo dos trilhos surgem antigas brandas (pastos de verão de uso comunitário) e currais de pedra onde os pastores abrigavam o gado.

Estes elementos etnográficos são testemunhos vivos de uma cultura pastoril que moldou a paisagem do Gerês durante séculos. Os prados da Ribeira das Negras e da Lamalonga são alguns dos mais impressionantes.

A linha fronteiriça

Em vários troços da caminhada, o trilho corre sobre ou junto à linha de fronteira Portugal-Espanha, marcada por marcos de granito numerados.

O Marco nº 117 fica precisamente junto ao sopé da subida final para o cume da Nevosa. Éum ponto simbólico e um bom momento para apreciar a dimensão do que está prestes a acontecer.

O “Cadeirão” da Nevosa

No cume, encontra-se o chamado “cadeirão” da Nevosa, um recanto rochoso e acolhedor que parece feito para contemplar o mundo lá em baixo. É aqui que o esforço se dissolve e dá lugar à recompensa.

Ruínas das minas dos carris
Veja também Minas dos Carris: ruínas que contam memórias em pleno Gerês

O que se avista do cume

Em dias limpos, a vista do Pico da Nevosa é simplesmente arrebatadora uma panorâmica a 360º que abrange serras de dois países.

Para noroeste, avistam-se as serras do Suído, Paradanta e Faro de Avión na Galiza, para nordeste, as serras de San Mamede e Manzaneda, habitualmente nevadas no inverno.

Para este, a Peña Trevinca, Segundeira e Gamoneda, para sul, o interior do Gerês português com as suas barragens, vales e cumes como o Pico do Sobreiro (1538 m), a Fonte Fria (1458 m) e a Roca Negra. É uma vista que dificilmente se esquece.

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