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Elsa Santos
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12 Fev, 2020 - 08:33

Polarização do emprego: 5 pontos a considerar

Elsa Santos

Inevitável aos olhos de uns, questionável aos olhos de outros, a polarização do emprego é uma realidade. Saiba quais as reais repercussões no mercado.

equipa a reunir no escritório

A polarização do emprego tem vindo a ganhar espaço no mercado de trabalho, à escala global e em especial entre os países da OCDE.

A transformação digital veio gerar diversas alterações à economia global.

A tecnologia, a globalização, as alterações demográficas e outras mudanças fundamentais na organização do trabalho estão a moldar drasticamente o mercado de trabalho e as políticas públicas.

Todos esses fatores levam levam à desindustrialização e à polarização do emprego. Saiba mais sobre esta matéria, em cinco pontos essenciais.

POLARIZAÇÃO DO EMPREGO: O QUÊ E POR QUÊ?

staff de catering a servir um jantar
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O que é?

Antes de mais, a pergunta impõe-se: O que é polarização do emprego?

Para alguns esta poderá será uma designação pouco familiar, ainda já visível para a maioria.

A polarização de empregos refere-se à importância crescente das ocupações bem e mal remuneradas na economia à custa das ocupações que se encontram no meio. Quer isto dizer que o número de trabalhos com salários muito altos e com salários baixos cresce em detrimento do salário médio, o qual está a diminuir.

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Razões

Na base da polarização do emprego está o efeito da automatização, da robotização e do outsourcing de muitas áreas profissionais. A necessidade de perfis STEM, Science, Technology, Engineering and Maths (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), deverá acentuar esta tendência.

Prevê-se que à medida que forem criados mais empregos altamente qualificados para suportar os produtos digitais e a tecnologia se registe um aumento proporcional de emprego com baixas qualificações.

Estudos recentes revelam que para cada trabalho altamente qualificado são criados entre 2.5 a 4.4 trabalhos adicionais.

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Setores profissionais

Estudos mostram que o emprego de salários baixos, tecnologia baixa, e de salários altos e tecnologia alta está a aumentar de importância na economia atual.

Falamos, essencialmente, de profissionais com formação STEM, os quais podem encontrar-se nos setores de produção e nos serviços. Estes setores focam-se, nomeadamente, na investigação cientifica, indústria automóvel e de telecomunicação, aeroespacial, entre outras.

Não obstante, falamos também de profissionais que apoiam a área de serviços com baixa tecnologia, em funções de transporte, limpeza ou outros. Estes são, em regra, menos reconhecidos e, por isso, mal remunerados.

Na verdade, existe alguma complementaridade entre emprego intensivo STEM e não STEM que deve explorar-se a fim de compreender o impacto total da inovação e das políticas específicas no emprego em geral.

Ou seja, existem vários fatores interligados que podem contribuir para esta complementaridade. Assim é permitida uma associação positiva entre emprego STEM e não STEM ao nível das empresas.

Contexto português


De acordo com dados recentes do INE (Instituto Nacional de Estatística), Portugal regista uma melhoria geral do nível de educação, transversal ao mercado de trabalho. Porém, observa-se alguma polarização salarial.

Ora, nos últimos dez anos, o número de pessoas em profissões/salários elevados aumentou, o número de pessoas em profissões/salários intermédios baixou e o número de pessoas em profissões/salários baixos estagnou. Significa que a evolução do nível de educação/formação não foi acompanhada por igual melhoria dos salários. Quer isso dizer que há trabalhadores que são desvalorizados.

Ou seja, no que à polarização do emprego diz respeito, a valorização do trabalho faz toda a diferença. Significa reconhecer valor, o que se traduz na atribuição de um valor monetário correspondente, normalmente um salário elevado.

Para além disso, significa também apostar no valor do respetivo trabalho. Ou seja, fazer com que as tarefas e as atividades inerentes a determinada função sejam úteis, que tragam valor não só para a empresa mas também para o trabalhador.

Valorizar o trabalho significa, assim, atribuir valor à pessoa que o desempenha, o que requer que as tarefas sejam interessantes, que mobilizem e desenvolvam as competências dos profissionais.

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Evolução em portugal

Segundo dados de um inquérito europeu, a atividade de trabalho das profissões qualificadas e intermédias em Portugal não se alterou substancialmente nos últimos anos, mas que a atividade nas profissões desqualificadas sofreu alterações substanciais.

Ou seja, houve uma redução do nível de autonomia e do nível de complexidade de alguns trabalhos e uma subida do nível de controlo e da intensidade nos mesmos. Isto é, o valor da atividade de trabalho nas profissões desqualificadas diminuiu, para empresas e para trabalhadores, o que se traduz numa diminuição do salário.

O que determina o valor do trabalho é, ainda, a organização, a forma como as tarefas são distribuídas entre profissionais e profissões, de modo a cultivar a motivação e empenho de cada um , independentemente das funções exercidas.

Portugal carece de modelos organizacionais que valorizem o trabalho e que ajudem a evitar a polarização.

alternativas à polarização do trabalho

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Soluções

O futuro do trabalho exige mudanças na educação e formação, uma vez que as necessidades do(s) mercado(s) são redesenhadas continuamente pela tecnologia. Isto faz com que se criem lacunas de competências que têm de ser supridas.

As empresas de recursos humanos têm de acompanhar este processo de transformação para garantir o reequilíbrio do mundo do trabalho ao longo da revolução digital.


Os países onde a organização do trabalho é mais valorizadora são aqueles em que os trabalhadores participam nas decisões das empresas, como acontece, nomeadamente, nos países escandinavos.

Uma boa parte das muitas desigualdades da sociedade atual são geradas no contexto de trabalho, dentro das empresas. Por isso, promover uma evolução e continuidade positivas que tirem partido do que está entre os dois polos do mercado, reconhecendo a valor a todos os setores e funções, é essencial para uma economia sustentável.

Evitar a polarização do emprego é, portanto, evitar a desigualdade e a desvalorização do trabalho de muitos.

No sentido de por termo a essa tendência crescente há que, não apenas procurar justificações na inovação tecnológica, mas promover outros aspetos que contribuam para uma adaptação mais equilibrada às mudanças e justa, com lugar e valorização por todos.

Para tal, a formação, as competências técnicas e sociais, assumem igual importância.

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