Miguel Pinto
Miguel Pinto
14 Mai, 2026 - 10:00

Polegar e o telemóvel: quando o scroll e as mensagens levam à dor

Miguel Pinto

Dor no polegar por usar demasiado o telemóvel? Descubra o que é o “texting thumb”, as lesões mais comuns e como prevenir e tratar os sintomas.

polegar do smartphone

Quantas vezes por dia pega no telemóvel? Provavelmente mais do que consegue contar. Entre as mensagens no WhatsApp, o scroll interminável nas redes sociais, as notificações e os e-mails, o seu polegar trabalha horas a fio sem que lhe prestemos a menor atenção. Até ao dia em que começa a doer.

O que é o Texting Thumb?

Este fenómeno tem nome. Chama-se texting thumb (ou polegar do telemóvel), e os especialistas em cirurgia da mão estão cada vez mais preocupados com a sua prevalência.

O termo “texting thumb” refere-se a um conjunto de queixas musculoesqueléticas no polegar e no pulso causadas pelo uso excessivo e repetitivo do smartphone. Esta condição está associada a movimentos finos e repetitivos numa postura irregular enquanto se usa um dispositivo próximo do corpo.

Em termos simples, quando escreve mensagens ou faz scroll, o seu polegar executa centenas, por vezes milhares, de pequenos movimentos por dia, muitas vezes numa posição forçada. Ao longo do tempo, essa sobrecarga acumula-se e pode resultar em inflamação, dor e até lesões estruturais.

Um estudo recente concluiu que, durante o envio de mensagens, o polegar chega a usar 79% da sua amplitude máxima de movimento no plano de adução/abdução, colocando as articulações em posturas desfavoráveis e impondo uma carga estática elevada sobre a musculatura do dedo.

Polegar do smartphone: as lesões mais comuns

mulher a teclar no smartphone

Os nossos telemóveis tornaram-se extensões de nós próprios e os nossos polegares pagam, silenciosamente, esse preço.

Tenossinovite de De Quervain

É a condição mais frequentemente associada ao uso excessivo do smartphone. Trata-se de uma inflamação dos tendões que controlam o movimento do polegar, mais especificamente o abdutor longo do polegar e o extensor curto do polegar, no local onde passam por um túnel estreito no pulso.

A lesão foi identificada pela primeira vez em 1895 pelo cirurgião suíço Fritz de Quervain, muito antes da era dos telemóveis. Hoje, os médicos reconhecem o uso do smartphone como uma das suas principais causas modernas.

Os sintomas incluem dor e sensibilidade ao longo do lado do polegar do pulso, especialmente ao segurar objetos, ao torcer o pulso ou ao fazer o gesto de pinça.

Dedo em Gatilho (Trigger Thumb)

Outra condição comum é o chamado “dedo em gatilho”, que no polegar se designa especificamente trigger thumb. Resulta da inflamação do tendão flexor, que passa por uma bainha estreita.

Com a irritação crónica provocada pelos movimentos repetitivos de flexão e extensão durante o scroll e a escrita de mensagens, o tendão pode “prender” ao tentar dobrar ou esticar o dedo, criando uma sensação de clique, bloqueio ou ressalto.

Artralgia e risco de artrose

O uso continuado do smartphone impõe uma carga repetitiva sobre a articulação carpometacárpica (CMC), a articulação na base do polegar.

Embora não haja ainda dados definitivos de que o uso do telemóvel cause artrose, os especialistas são claros ao afirmar que se já existe predisposição para artrose nesta articulação, o uso intensivo pode agravar os sintomas.

Em doentes mais jovens sem artrose, pode surgir dor articular sem causa degenerativa, designada artralgia.

Síndrome do Túnel Cárpico

Embora afete principalmente os dedos médio, indicador e anelar, a síndrome do túnel cárpico pode ser agravada pela postura adotada ao segurar o telemóvel.

A irritação nervosa resultante da postura incorreta ou da compressão prolongada pode provocar dormência, formigueiro e fraqueza na mão.

Como reconhecer os sintomas?

Os sintomas do polegar do telemóvel variam consoante a lesão:

  • Dor no polegar e/ou no pulso, que pode ir de um incómodo surdo e pulsante até uma dor aguda e lancinante;
  • Sensação de formigueiro ou dormência;
  • Rigidez matinal no polegar;
  • Dificuldade em agarrar objetos ou abrir frascos;
  • Um “clique” ou sensação de bloqueio ao dobrar o dedo;
  • Inchaço na base do polegar ou ao longo do pulso.

Se estes sintomas persistirem por mais de algumas semanas, é aconselhável procurar avaliação médica.

Quem está em maior risco?

vender antigo smartphone

Qualquer pessoa que use o smartphone de forma intensa pode desenvolver estas queixas. No entanto, alguns grupos são mais vulneráveis.

Jovens adultos, que tendem a ser os utilizadores mais intensivos, sendo que a média de idade nos estudos científicos sobre lesões da mão relacionadas com smartphones é de apenas 24,6 anos.

Mulheres de meia-idade, que já apresentam maior predisposição para a tenossinovite de De Quervain.

Utilizadores de smartphones com ecrã grande, uma vez que o alcance do polegar é forçado para cobrir uma área maior, aumentando o stress articular.

Profissionais que combinam o uso do telemóvel com outras tarefas repetitivas das mãos, como datilografia, trabalho manual ou instrumentos musicais.

Polegar e smartphones: prevenção e tratamento

Na maioria dos casos, estas lesões são evitáveis e tratáveis, especialmente se forem detetadas cedo.

Prevenção no dia a dia

Distribua o esforço pelos dedos. Em vez de usar apenas o polegar dominante para tudo, alterne com o outro polegar ou use outros dedos para rolar o ecrã. Isso dispersa a carga e reduz a sobrecarga num único tendão.

Use acessórios de apoio. Argolas, puxadores ou suportes fixados à parte de trás do telemóvel permitem que os outros dedos e a palma da mão contribuam para segurar o dispositivo, reduzindo o stress sobre o polegar.

Divida o tempo de ecrã em blocos. Evite sessões longas e ininterruptas. Faça pausas regulares, mesmo que breves, para esticar os dedos e o pulso.

Experimente um telemóvel maior (ou menor). Paradoxalmente, tanto os telemóveis muito pequenos (que obrigam a movimentos mais precisos) como os muito grandes (que forçam o polegar a alcances extremos) aumentam o risco de lesão. Encontre o tamanho que se adapta melhor à sua mão.

Use a ditação de voz. A maioria dos smartphones modernos permite ditar mensagens por voz. É uma alternativa eficaz que dá descanso ao polegar.

Exercícios e alongamentos

Manter o polegar e o pulso flexíveis e fortalecidos é uma das melhores formas de prevenir lesões:

  • Oposição do polegar – toque com a ponta do polegar em cada um dos outros dedos, em sequência. Repita 10 vezes.
  • Extensão do polegar – com a palma da mão voltada para baixo, estique o polegar para cima e para fora tanto quanto possível. Mantenha 5 segundos e repita.
  • Flexão do pulso – estenda o braço à sua frente com a palma virada para baixo, dobre o pulso para baixo com a outra mão e mantenha por 15–20 segundos.
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Tratamentos médicos

Se os sintomas já estiverem instalados, também existem opções de tratamento:

  • Repouso e gelo – reduzir o uso do telemóvel e aplicar frio local durante 20 minutos, algumas vezes por dia, pode ajudar a controlar a inflamação inicial;
  • Talas e ortóteses – uma tala que imobilize o polegar e o pulso permite que os tendões descansem durante as fases mais agudas da inflamação;
  • Anti-inflamatórios – tanto os anti-inflamatórios orais como os tópicos (como o gel de diclofenac, disponível sem receita) podem proporcionar alívio. Fale sempre com o seu médico ou farmacêutico antes de iniciar qualquer medicação;
  • Fisioterapia – um fisioterapeuta especializado em mão pode prescrever um programa de exercícios de fortalecimento e mobilização para tratar a lesão e prevenir recidivas;
  • Injeções de corticosteroides – em casos mais persistentes, as infiltrações na bainha tendinosa são eficazes para reduzir a inflamação;
  • Cirurgia – reservada para os casos que não respondem a outros tratamentos, a cirurgia é geralmente um procedimento ambulatório de baixo risco que liberta o túnel tendinoso.
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Quando consultar um médico?

Não espere que a dor se torne incapacitante e se necessário procure avaliação médica. Por isso, consulte um médico quando:

  • A dor persistir por mais de duas a três semanas, mesmo com repouso;
  • Sentir dormência ou formigueiro persistente nos dedos;
  • Notar fraqueza no aperto da mão ou dificuldade em executar tarefas básicas;
  • O polegar “bloquear” ou ficar preso numa posição;
  • A dor acordar-o(a) durante a noite.
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