Share the post "Onde o mar esculpiu a rocha: caminhada pela Ponta da Piedade"
Poucos passeios em Portugal conseguem condensar tanta beleza num espaço tão pequeno como a caminhada pela Ponta da Piedade, em Lagos.
Basta calçar uns bons sapatos, levar água e protetor solar, e seguir por um trilho que acompanha as falésias douradas do Algarve, entre grutas escavadas pelo mar, miradouros de tirar o fôlego e um farol centenário que parece vigiar o Atlântico.
É um percurso curto, acessível a quase todos e recompensador em qualquer estação do ano, mas é também, sem exagero, uma das experiências mais bonitas que a costa portuguesa tem para oferecer.
A Ponta da Piedade situa-se a cerca de três quilómetros do centro histórico de Lagos. Para quem está hospedado na cidade, a forma mais simples de lá chegar é a pé.
A caminhada desde o centro, seguindo pela Estrada da Ponta da Piedade ou pelo caminho junto às arribas, demora cerca de 30 a 40 minutos e já por si oferece boas vistas sobre a marina e a costa.
Quem preferir poupar pernas para o trilho principal pode apanhar o autocarro número 2, que liga o centro às praias, e descer na paragem da Praia da Dona Ana, ficando depois apenas 15 a 20 minutos de caminho até à ponta.
Há ainda a opção do comboio turístico, que parte várias vezes ao dia da marina e faz paragem junto ao farol, e, claro, o carro ou o táxi, para quem tiver menos tempo disponível.
No verão, os lugares de estacionamento junto à estrada esgotam-se cedo, pelo que vale a pena chegar de manhã.
Ponta da Piedade: passadiços e praias escondidas

O coração da caminhada são os passadiços da Ponta da Piedade, uma estrutura em madeira relativamente recente que acompanha o topo das falésias com total segurança, mesmo para famílias com crianças pequenas.
O percurso principal, entre o farol e a Praia do Canavial, tem cerca de dois quilómetros e meio só de ida, o que dá uma caminhada de aproximadamente cinco quilómetros com regresso, e demora entre uma e duas horas a um ritmo tranquilo, com paragens para fotografias.
Para uma experiência mais completa, muitos caminhantes optam por começar mais cedo, junto à Praia do Camilo, uma das mais fotografadas do Algarve, e seguir depois pelos trilhos junto às arribas até ao farol, prolongando o passeio até à Praia de Porto de Mós ou mesmo até à Praia da Luz, para quem quiser combinar a Ponta da Piedade com o Trilho dos Pescadores da Rota Vicentina.
Esta versão mais longa pode chegar aos oito ou nove quilómetros, pelo que costuma recomendar-se fazê-la apenas num sentido, regressando depois de táxi ou de autocarro.
Ao longo do caminho, os avisos de queda junto às arribas devem ser sempre respeitados. O terreno pode ser instável, sobretudo depois de chuva, e vale mais admirar a vista de uma distância segura do que arriscar um passo a mais junto ao precipício.
O que se vê pelo caminho
A verdadeira protagonista deste passeio é a rocha. Ao longo de milhares de anos, o vento e o mar esculpiram nas falésias de arenito formações que hoje têm nomes próprios, atribuídos pelos pescadores locais, como o “casal aos beijos”, o “elefante”, a “catedral”, o “submarino” ou a “Esfinge”.
Algumas destas formas só se veem por completo do mar, mas mesmo dos miradouros dos passadiços já é possível perceber a escala impressionante de certas estruturas, com mais de 20 metros de altura.
Escondidas entre os rochedos estão ainda várias grutas e grutões, com nomes tão sugestivos como a “gruta do amor”, onde a luz entra por aberturas no teto e cria reflexos únicos na água turquesa.
Para quem quiser ver estas cavidades por dentro, existe a possibilidade de complementar a caminhada com um passeio de barco ou de caiaque a partir da marina de Lagos.
Perto do final do percurso, ergue-se o Farol da Ponta da Piedade, construído em 1913. Não está aberto a visitas, mas a sua presença marca um dos pontos mais fotografados da caminhada.
Uma descida de escadarias, mais de cem degraus, consoante o ponto de partida, permite chegar quase ao nível do mar, onde pequenos barcos de pescadores e embarcações turísticas navegam entre arcos e túneis naturais.

Quando fazer a caminhada
O início da manhã, antes das dez horas, é a altura preferida por quem procura tranquilidade e boa luz para fotografia, com a vantagem de escapar ao grosso dos grupos turísticos.
O final da tarde tem outro tipo de magia, com o pôr do sol a tingir as falésias de tons avermelhados, embora nessa altura o trilho costume estar mais concorrido.
Seja qual for a hora escolhida, vale a pena levar água, chapéu e protetor solar, já que grande parte do percurso está exposta ao sol, sem sombra.
O que mais ver perto da Ponta da Piedade
A Ponta da Piedade é o ponto de partida ideal para explorar uma das zonas mais bonitas do Algarve.
A pouca distância a pé, a Praia do Camilo e a Praia de Dona Ana são exemplos perfeitos das enseadas encaixadas entre falésias que tornaram esta costa famosa em todo o mundo, enquanto a Praia de Porto de Mós e a Praia do Canavial oferecem areais mais extensos para quem quiser prolongar o dia com um banho.
O centro histórico de Lagos, a poucos minutos de caminho ou de autocarro, merece também uma visita, com destaque para a antiga muralha, a Igreja de Santo António e o seu interior barroco, e a Fortaleza da Ponta da Bandeira, junto à marina.
Para quem tiver mais um dia disponível, a vila de Sagres e o Cabo de São Vicente, considerado o ponto mais a sudoeste do continente europeu, ficam a cerca de meia hora de carro e oferecem paisagens dramáticas de falésias sobre o oceano aberto.
Do lado oposto, em direção a Portimão, a famosa gruta de Benagil e as praias de Carvoeiro completam um roteiro pela costa algarvia que dificilmente desilude.
Quem prefere caminhar mais do que conduzir pode ainda seguir parte da Rota Vicentina, que atravessa esta zona do Algarve por trilhos junto à costa, ligando praias e povoações num dos percursos pedestres mais reconhecidos da Europa.