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Isadora Freitas
Isadora Freitas
07 Mai, 2018 - 12:24

Postais do Camboja: Phnom Penh e as lacunas de uma máquina fotográfica

Isadora Freitas

Phnom Penh é uma cidade de ruas com História onde sensações diversas se imprimem na Alma. Encontrei-a estranhamente silenciosa em dias de Ano Novo.

Postais do Camboja: Phnom Penh e as lacunas de uma máquina fotográfica

Querido P.,

Envio-te um postal agora que te sei de volta às raízes, pleno de uma inquietude semelhante à minha. Escrevo-te sobre um fim de semana passado na capital do Camboja, em dias de Ano Novo Khmer, também conhecido por Chaul Chnam Thmey.

Encontrei uma cidade-fantasma e não um sítio onde o caos parece reinar sobre todas as coisas, como muitas vezes me descreveram Phnom Penh. A grande maioria das pessoas havia partido na sexta-feira para as suas casas nas aldeias, deixando a cidade estranhamente vazia. Os edifícios, as estradas, as pessoas, tudo parecia sussurrar.

Refugiei-me num hostel no coração da cidade e, daí, na manhã de sábado, parti a pé pelas ruas desertas até Tuol Sleng, o Museu do Genocídio, uma antiga escola secundária que foi transformada pelo Khmer Rouge numa prisão de horrores onde cerca de 17.000 pessoas foram vítimas de torturas inimagináveis e de onde apenas sete escaparam com vida.

Postais do Camboja

Ali, no jardim onde as árvores guardam segredos de estudantes enamorados e pessoas acorrentadas com desesperança, a Humanidade ficou, durante anos, à porta. As salas de aula, transformadas em câmaras de tortura, imprimem arrepios na Alma. Daqueles que teimam em caminhar connosco durante dias. Talvez anos. O silêncio pesado, o frio que emana das paredes, o chão que, com os seus quadrados coloridos, conta histórias sem qualquer traço de cor.

São vários os edifícios que revelam o que ali se passou. São mais – muitas mais – as caras que nos olham, espalhadas pelas salas em pequenas fotografias tiradas à chegada à S-21. Algumas com olhares plenos de medo, outras com uma profunda coragem. As caras dos muitos que viveram o derradeiro pesadelo naquele espaço onde o arame farpado era menos lesivo que os seres desumanos que seguravam as chaves. Há, no meio de tantas, uma face que se destaca. A de Bophana, uma jovem bonita de olhar firme e uma história de Amor que a condenou a uma vida repleta de armadilhas. Uma delas fatal.

Entrei, em silêncio, nas salas onde se erguiam pequenas – minúsculas – celas de madeira. Coloquei-me no interior de uma delas e senti apertarem-se-me os sentidos. Não me sei claustrofóbica mas, ali, a ausência de luz e de Humanidade deixou-me tonta e levou-me a saltar os degraus até ao jardim para poder respirar novamente. De coração acinzentado, deixei aquele espaço, onde na entrada lateral se aninham sinais de proibido, como que para nos relembrar – a nós, Humanos – que o genocídio é um caminho a ser banido da História que ainda está por escrever.

Postais do Camboja
Postais do Camboja

Deixei-o sem rumo, esperando que os meus pés me levassem pelas ruas silenciosas até algum lugar ou, até, até lugar nenhum. Acabei por entrar no Wat Ounalom, um pagode junto ao rio onde as cores budistas preenchiam os jardins. Estranho como, a escassos passos do Museu, encontrei um sítio que desperta sensações tão contrárias. Um sítio de luz e contemplação.

Postais do Camboja
Postais do Camboja

O calor apertava e começava a sentir os ombros a queimar. Retirei-me, deslumbrada, e passeei novamente pelas ruas vazias de gente e cheias de contos. Caminhei junto ao rio e passei pelo Mercado Central, onde os aromas, intensos, se sentiam do lado oposto da rua.

À noite, depois de umas cervejas felizes junto à piscina, caminhei, na companhia do Andres e da Margaux, até um pequeno restaurante junto ao Palácio Real. Caminhei sem máquina fotográfica – afinal, íamos somente com a intenção de comer um arroz frito por poucos dólares. As horas passaram e trouxeram com elas a surpresa da presença, à nossa mesa, dos donos – um casal de indianos com uma filha de cinco anos que partilhou connosco histórias de viagens e novos rumos. Três pessoas de coração no sítio certo que, no final, nos ofertaram um pequeno templo, embrulhado num papel azul com um laço prateado. Um templo a que chamaram “Os Quatro Pilares”.

Postais do Camboja
Postais do Camboja

As máquinas fotográficas são apetrechos fascinantes, é certo, e a minha é um dos meus maiores tesouros. Não pelo que me custou mas pela imensidão de momentos que tem vindo a coleccionar. É uma aliada preciosa na minha luta contra o esquecimento. Não sei se sempre soube o porquê de, desde pequena, me sentar com uma caneta e um pequeno diário a rabiscar as futilidades do quotidiano. Agora sei-o e compreendo. Não quero esquecer. Abrir um caderno e ler as palavras que me escaparam da Alma no meu décimo segundo aniversário ou no meu primeiro dia de Faculdade é diferente de procurar nas gavetas da Memória. É uma transposição mais real. Sinto-me, por momentos, de volta às verdades daqueles dias já tão distantes no calendário.

Mas, como tudo, as máquinas fotográficas têm as suas lacunas. A minha, por exemplo, falha em não estar sempre presente quando preciso dela. Sábado aconteceu. Ali estávamos nós, com um casal que nos abriu as portas para o seu pequeno Mundo, uma criança que nos revelou timidamente o nome do seu melhor amigo, com um pequeno templo reluzente nas mãos, sem máquina fotográfica.

Escrevo-o, por isso, para que não me esqueça. Porque as pessoas, sei que o sabes também, são a verdade de uma viagem e esta ficou marcada pelas palavras trocadas já perto das doze badaladas nas mesas do Cool Beans sob o céu escuro de Phnom Penh.

Espero-te bem, sob o sol da Invicta, envolto em mil e uma coisas como sempre te soube.

Até já, com Encontro Marcado.

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