Quando alguém abastece um carro a gasolina, a conta é simples, ou seja, litros vezes preço por litro, mais IVA. Com um carro elétrico, a lógica é parecida em casa, mas muda bastante quando o carregamento acontece na via pública.
Em Portugal, a rede pública de carregamento é gerida pela MOBI.E, a Entidade Gestora da Rede de Mobilidade Elétrica.
O sistema envolve dois tipos distintos de entidades. Os CEME (Comercializadores de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica), com quem o utilizador faz contrato para aceder à rede, e os OPC (Operadores de Pontos de Carregamento), que são quem instala e mantém os postos físicos.
O preço final de um carregamento público decompõe-se sempre em três parcelas.
- Parcela de energia (CEME). O valor da eletricidade propriamente dita, negociado no contrato com o comercializador
- Parcela de utilização do posto (OPC). O custo de usar aquele posto específico, que pode ser cobrado por kWh consumido, por minuto de carregamento, por sessão, ou por uma combinação de todos estes critérios
- Taxas e impostos. Incluem a tarifa EGME, o IEC e o IVA
Perceber estas três componentes é essencial para comparar ofertas e para saber exactamente onde vai cada euro que se paga.
Carregar carro elétrico em casa: opção mais barata
Para a maioria dos proprietários de carros elétricos, o carregamento doméstico representa o cenário mais económico e previsível.
Em Janeiro de 2025, o preço médio da eletricidade doméstica em Portugal rondava os 0,20 a 0,25 €/kWh, dependendo da tarifa contratada e da hora do dia.
Num carro com consumo médio de 16 kWh por 100 km (valor típico de um elétrico moderno), carregar para fazer 100 km em casa custa entre 3,20 € e 4,00 €.
Quem opta por uma tarifa bi-horária e carrega durante o período de vazio (normalmente entre as 22h e as 8h) pode reduzir ainda mais este valor, com preços que descem abaixo dos 0,11 €/kWh em algumas tarifas disponíveis no mercado.
A instalação de uma wallbox em casa não só acelera o processo como torna o carregamento mais seguro e eficiente do que usar uma tomada doméstica convencional.
A maioria das comercializadoras de energia oferece planos que incluem desconto no aluguer ou compra deste equipamento.
O que não se paga em casa
Em casa, o utilizador não paga tarifa OPC (não há operador de posto envolvido) nem a componente de acesso às redes específica da mobilidade elétrica.
Paga apenas a energia ao preço do seu contrato doméstico, o que torna este cenário significativamente mais barato do que qualquer posto público.
Carregar na rede pública: quando os custos sobem

A rede pública é indispensável para viagens longas ou para quem não tem estacionamento próprio em casa. Mas os preços são substancialmente diferentes dos que se pagam na tomada de casa.
Postos normais e semirrápidos (até 22 kW)
Estes postos, comuns em parques de estacionamento e zonas urbanas, são os mais baratos da rede pública. O custo total costuma situar-se entre 0,25 € e 0,45 €/kWh, incluindo todas as componentes.
Postos rápidos (até 50 kW)
Presentes em muitas áreas de serviço de autoestrada e em pontos estratégicos de maior rotatividade. O preço sobe, reflectindo o investimento em infraestrutura de maior potência. Os valores habituais variam entre 0,45 € e 0,65 €/kWh.
Postos ultrarrápidos (acima de 50 kW, podendo ir a 150 kW ou mais)
São a opção mais cara mas também a mais conveniente em viagem, permitindo recuperar grande parte da autonomia em menos de 30 minutos. Aqui os preços podem chegar a 0,79 €/kWh ou até mais, dependendo do operador e da localização.
Anatomia das taxas: o que está escondido na fatura
Conhecer a estrutura de custos é o primeiro passo para tomar decisões informadas e tirar o máximo partido do seu carro eléctrico, sem surpresas na fatura.
Tarifa OPC: o custo de usar o posto
Esta é, muitas vezes, a componente menos transparente para o utilizador. O operador do posto define livremente as suas tarifas, que podem ser estruturadas de formas distintas.
- Por kWh consumido: o modelo mais intuitivo e comparável
- Por minuto de carregamento: pode penalizar carregamentos lentos ou em potências reduzidas
- Por sessão: uma taxa fixa independente da energia carregada, que pode ser muito cara para carregamentos curtos
- Combinação dos anteriores: o modelo mais complexo, mas também o mais comum nos postos rápidos e ultrarrápidos
Num exemplo concreto com um veículo de bateria de 35,5 kWh, o custo de energia pode ser de cerca de 7,81 €, mas a tarifa OPC adiciona por vezes mais 4 € a esse valor, levando o total para perto de 14 € antes de impostos.
A escolha do posto, e do cartão CEME, pode, portanto, influenciar significativamente a conta final.
Tarifa EGME: o custo da gestão da rede
A EGME é a tarifa cobrada pela MOBI.E para cobrir os custos de gestão da plataforma de interoperabilidade que permite usar qualquer posto com qualquer cartão.
Em 2025, esta tarifa desceu 37,1% face ao ano anterior, fixando-se em 0,1572 € por carregamento, o valor mais baixo de sempre desde a criação da rede.
Esta redução resultou principalmente do aumento do número de carregamentos registados, que dilui o custo fixo de operação da plataforma por mais utilizadores.
Embora a tarifa EGME seja tecnicamente cobrada ao CEME e ao OPC, e não directamente ao utilizador final, na prática reflecte-se nos tarifários praticados ao consumidor.
Para um carregamento médio de 9,5 kWh, o impacto desta tarifa representa entre 4,5% e 5,5% do custo total.
IEC: o imposto especial
O Imposto Especial sobre o Consumo de Energia Elétrica incide sobre toda a eletricidade consumida, incluindo nos carregamentos.
A taxa em Portugal Continental é de 0,001 €/kWh, um valor reduzido que tem pouco impacto no total, mas que é obrigatório surgir discriminado na fatura.
IVA: 23% sobre tudo
O Imposto sobre o Valor Acrescentado aplica-se à totalidade da fatura de carregamento à taxa normal de 23% em Portugal Continental, 22% na Madeira e 16% nos Açores.
É uma componente de peso relevante, aplicada sobre a soma de energia, OPC e restantes taxas.
É obrigatório ter um cartão CEME para carregar nos postos públicos? Não.
Existem carregamentos ad hoc, sem contrato prévio, em que o utilizador paga directamente no final de cada sessão. Contudo, os tarifários sem contrato
costumam ser mais caros do que os praticados com cartão.
A tarifa EGME aparece separada na fatura? Depende do comercializador.
Algumas faturas discriminam esta componente; outras incluem-na no custo por kWh da parcela de energia. A MOBI.E garante que toda a estrutura de custo é transparente para o utilizador.
Os preços dos postos são iguais em todo o país? Não. O preço da
parcela OPC varia por posto e por operador. Dois postos da mesma rede
em cidades diferentes podem ter preços distintos. A MOBI.E disponibiliza
informação actualizada sobre o preçário de cada ponto de carregamento
na sua aplicação.
Carregamentos em centros comerciais ou hotéis são sempre gratuitos? Não necessariamente. Alguns estabelecimentos oferecem carregamento
gratuito como serviço ao cliente, mas a tendência é que estes postos passem progressivamente a cobrar, pelo menos uma tarifa OPC pela utilização do posto.
Comparação prática: quanto custa percorrer 100 km?

Para tornar os números concretos, considere um veículo com consumo médio de 16 kWh/100 km.
| Cenário de carregamento | Custo por kWh (aprox.) | Custo por 100 km |
|---|---|---|
| Em casa (tarifa vazio) | ~0,11 €/kWh | ~1,76 € |
| Em casa (tarifa simples) | ~0,25 €/kWh | ~4,00 € |
| Posto público normal | ~0,35 €/kWh | ~5,60 € |
| Posto público rápido | ~0,55 €/kWh | ~8,80 € |
| Posto ultrarrápido | ~0,79 €/kWh | ~12,64 € |
A título de comparação, um automóvel a gasolina com consumo de 5,8 L/100 km, ao preço de 1,65 €/L, custa cerca de 9,57 € por 100 km. Um a gasóleo, com 5,2 L/100 km a 1,60 €/L, custa 8,32 €.
Mesmo o carregamento em posto público rápido continua a ser competitivo face à gasolina. E quem carrega sobretudo em casa fica muito abaixo de qualquer combustível fóssil.
Como escolher o cartão CEME certo
O cartão de mobilidade elétrica, o equivalente ao cartão de combustível para o carro elétrico, é o instrumento com o qual o utilizador acede à rede pública e recebe a fatura consolidada.
A escolha do comercializador certo pode fazer uma diferença de vários euros por cada carregamento.
Quais os principais aspectos a comparar?
- Preço por kWh da parcela de energia: em tarifa simples ou bi-horária
- Existência de taxa mensal: alguns cartões cobram uma mensalidade fixa, outros não
- Descontos para clientes de electricidade e gás: a maioria das comercializadoras oferece condições mais favoráveis a quem já é cliente doméstico
- Compatibilidade com a rede desejada: todos os cartões CEME acedem à rede MOBI.E, mas pode haver vantagens adicionais em determinados operadores
Carro elétrico: dicas para pagar menos
Carregue em casa sempre que possível. A diferença de custo entre o carregamento doméstico e um posto rápido público pode ser de 3 a 7 vezes. Para o dia-a-dia, a wallbox em casa é a base de uma gestão eficiente.
Aproveite os períodos de vazio. Se o contrato doméstico incluir tarifa bi-horária, programar o carregamento para a noite reduz substancialmente o custo por kWh.
Nos postos rápidos, pare perto dos 80%. A velocidade de carregamento diminui depois deste ponto, mas a tarifa por minuto mantém-se. Completar os últimos 20% em casa ou num posto mais barato é frequentemente a decisão mais económica.
Compare tarifas, não só o preço/kWh. Um posto com preço por kWh aparentemente baixo pode ter uma taxa de sessão que torna o carregamento mais caro no total. Aplicações como a da MOBI.E ou a EDP Charge permitem ver os custos discriminados antes de iniciar.
Fique atento a promoções e subscrições. Vários operadores oferecem planos de assinatura mensal com desconto nos carregamentos ou crédito em saldo para utilizar nos postos da sua rede.