Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
12 Mai, 2020 - 11:08

Quarentena em casa com as crianças: os conselhos da Dra. Carla Rêgo

Mónica Carvalho

A Dra. Carla Rêgo, Pediatra e Professora convidada de Pediatria da Faculdade de Medicina da UP partilha dicas para gerir a quarentena com as crianças.

Quarentena em casa com as crianças

Estamos todos a viver uma situação nova e diferente, para a qual não há um manual que nos diga o que fazer: a quarentena em casa com as crianças pode exigir muitas alterações no ambiente familiar, para que a gestão do dia a dia decorra o mais tranquilamente possível.

A pediatra Carla Rêgo alerta para a necessidade de ajustarmos as nossas vivências diárias neste “desafio que é novo para todos” e para o qual “não há receitas mágicas, não há receitas únicas”, antes ideias, sugestões parta debater e que cada pessoa pode identificar como sendo as mais adequadas para a sua dinâmica familiar.

Este é, então, “o momento para encarar esta situação de exceção da qual não podemos fugir. Ela está cá e temos de a encarar”, para benefício das famílias, especialmente das crianças.

3 regras de ouro para uma quarentena em casa com as crianças

Transformar o nosso dia a dia e rotina numa situação agradável, numa situação proveitosa e numa situação construtiva: esta é a atitude a ter e que deve ser o ponto de partida de qualquer família. Confira todos os conselhos da pediatra Carla Rêgo.

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Encarar a situação com espírito positivo

É importante acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças e aproveitar os momentos de partilha em família. Assim, é possível que as crianças sintam que os pais estão disponíveis e recetivos a conversar e sentem que estão do seu lado a tempo inteiro.

Esta é uma boa forma de deixar as crianças mais tranquilas e seguras, bem como de reduzir o stress dos pais, e, por conseguinte, das crianças.  

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Criar regras familiares que respeitem o tempo e espaço de cada um

tempo para trabalho e tempo para brincar, afirma Carla Rêgo, mas principalmente no tempo de lazer, deve haver “uma doação completa dos progenitores às crianças”, porque senão ficarão com a sensação de que está a falhar nalguma destas tarefas.

Tal implica criar um horário, onde consta o tempo de trabalho e onde o vão fazer, tanto para os adultos como para as crianças. Em primeiro lugar, isto confere privacidade desses momentos. Em segundo, permite dedicar tempo para brincar, em que é mesmo só para brincar e que deve ser escalonado ao longo do dia estes momentos, nem que seja 20 minutos várias vezes por dia.

“Estas regras permitem disciplinar o nosso dia a dia”, ainda que dependam das características da família, nomeadamente a idade das crianças, e especialmente numa altura de quarentena com as crianças. E tendo essa premissa em conta, cada faixa etária exige cuidados e gestões diferentes. Atente.

Crianças até aos 12 meses

É importante haver rotina e alguma previsibilidade, de modo a que as crianças se sintam mais tranquilas.

Crianças dos 12 meses aos 3 anos

As crianças nestas idades não se apercebem do que está a acontecer, sabem que há rotinas diferentes no meio familiar, até porque elas são verdadeiros radares de sensibilidade e percebem o que se passa à volta. Logo se os pais demonstram, por exemplo, angústia,

“as crianças acabam por demonstrar ansiedade” e a forma de o fazerem é “verbalizando com o corpo ou com comportamentos. Ficam mais irritadas, têm perturbações do sono, têm perturbações alimentares, fazem mais birras”.

Algo se passa no comportamento daquela criança que é reflexo de que ela se apercebe do comportamento dos pais.

A capacidade de se concentrarem nesta idade é igualmente curta, pelo que quando precisa mesmo de trabalhar, é importante ter isto em conta.

Crianças dos 4 aos 6 anos

Nestas idades, as crianças já têm perceção do que se passa, mas entendem a realidade de uma forma especial, “muitas das vezes mística”, apelando ao

“imaginário para compreender situações, daí que muitas vezes criem histórias nem sempre entendidas pelos pais, mimetizando situações que inventam para mostrar a sua angústia e ansiedade.”

Definir um horário e regras ajuda a proporcionar estabilidade.

Tenha ainda em atenção que, na altura de brincar é importante dedicar-se a várias ações, como contar e fazer histórias, desenhar, construir, fazer desporto e até “para fazer Skype com os amigos”, como forma de manter a ligação com os amigos.

A tranquilidade dos cuidados e as rotinas das famílias são fundamentais para o que o dia a dia decorra com ordem e dentro da normalidade possível nesta quarentena com as crianças.

família feliz brincar

Crianças dos 7 aos 11 anos

Como já têm uma perceção lógica do que se está a passar, é importante conversar com elas, mas sem as assustar:

“estamos numa fase diferente, a vida é um pouco diferente, mas há que proteger a família, aproveitando para brincar em conjunto e aproveitando os pais a tempo inteiro e que, em conjunto, vamos todos ultrapassar isto – crianças, pais e avós”.

Quando existe uma ligação forte com os avós é importante continuar a manter o contacto.

Além do tempo do trabalho e do tempo para a brincadeira, é importante respeitar, em todas as faixas etárias, o tempo da refeição e o tempo do sono, como forma de criar e manter estrutura.

Poderão ainda desenvolver atividades que fomos abandonando, mas que funcionam bem como estimuladores: provérbios, adivinhas, jogos, lenga lengas, o que permite envolver crianças de várias idades e toda a família num tempo específico para estas atividades.

“Por que não cultivar o conceito de família, construindo, por exemplo, uma árvore genealógica?” Assim as crianças podem perceber de onde vêm, colocando fotografias e partilhando com o resto da família.

É também importante incutir nas crianças a responsabilidade de arrumar as suas coisas, até porque elas têm uma resposta positiva à “reconstrução positiva”. Se lhes pedirmos que arrumem o quarto, para ajudar a fazer o jantar haverá um feedback positivo.

E em relação ao tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs? Poderá considerar excessivo até pelas aulas virtuais e telescola e tempos livres, mas é importante pensar nisto como um “fio construtivo”, por exemplo procurar filmes próprios para a idade deles e que possam ver em família, jogos adequados, informação cultural, como descobrir diferentes países e costumes através de um globo e utilizar as redes sociais para melhorar o conhecimento sobre os restantes elementos da família.

Tudo sempre “sem culpas e com imaginação.”

Adolescentes

São um grupo que procura autonomia e independência e, caracteristicamente, têm uma atitude de provocação para com os modelos, que são os pais, bem como para testar os limites.

Pode ser difícil integrar numa partilha familiar. Porém se o adolescente for estimulado pela positiva, for responsabilizado no sentido de lhe pedirmos ajuda e partilharmos com eles algumas das nossas atividades, ele vai alinhar facilmente, pois irá sentir-se útil e reconhecido.

Quando algo é bem feito ou cumprido, a criança ou jovem deve, de igual modo, ser “fortemente elogiado, altamente reconhecido, porque permite a melhoria da autoestima, da autoconfiança e cria uma base de vontade para continuar a prestar aquela ajuda e a colaborar do que o agregado familiar pede.”

Nesta faixa etária, os horários são ainda mais importantes e os pais devem incentivar ao cumprimento dos mesmos, para que se incuta um sentimento de proteção não só da família, mas também do próprio adolescente.

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Para, escute e olhe, para conseguir o dia a dia e criar um ambiente familiar construtivo, favorável e agradável para todos

A nossa vida é frequentemente “desenfreada, com pouco tempo para pararmos e percebermos o que está à nossa volta. Agora temos um pouco desse tempo, para olharmos para os nossos filhos” e para percebermos quem temos ao nosso lado, como são, o que gostam.

Nesta altura de quarentena com as crianças aproveite para

“reaprender e redescobrir alguns conceitos importantes que têm a ver com o relacionamento familiar, com a construção interior e com o acompanhar do conhecimento e desenvolvimento das nossas crianças.”

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