Miguel Pinto
Miguel Pinto
23 Abr, 2026 - 13:00

Que dados guarda a caixa negra do seu automóvel?

Miguel Pinto

Os automóveis novos trazem já uma caixa negra, que por acaso é cor de laranja. Mas sabe mesmo quais os dados que ela regista?

caixa negra do automóvel

Quem já ouviu falar na caixa negra de um avião sabe mais ou menos do que se trata. A versão automóvel funciona de forma semelhante, mas com um âmbito bem mais restrito.

Chamada oficialmente de Event Data Recorder (EDR) (ou Gravador de Dados de Eventos, em português) e é um pequeno dispositivo eletrónico instalado no veículo que regista informações técnicas relacionadas com colisões e eventos críticos.

Ao contrário do que o nome pode sugerir, não é uma câmara, não ouve conversas, não rastreia a localização GPS em tempo real e não transmite informação para lado nenhum.

É um dispositivo que funciona em circuito fechado, guardando dados apenas para o caso de ocorrer um acidente.

Como curiosidade diga-se que apesar de popularmente conhecida como “caixa negra”, o dispositivo é, na prática, de cor laranja fluorescente (tal como nos aviões) para facilitar a sua localização após um sinistro.

Caixa negra automóvel: quando se tornou obrigatória

A obrigatoriedade da caixa negra nos automóveis entrou em vigor a 7 de julho de 2024, ao abrigo do Regulamento Geral de Segurança dos Veículos (GSR2) da União Europeia.

A partir dessa data, todos os automóveis ligeiros de passageiros (categoria M1) e veículos comerciais até 3500 kg, recém-matriculados na UE, passaram a ter de incluir este sistema de série.

A base legal assenta no Regulamento (UE) 2019/2144 e na Regulamentação UN n.º 160, que vigorou a partir de julho de 2022 para novos desenvolvimentos de veículos, sendo depois alargada a todos os modelos vendidos a partir de julho de 2024.

Portugal, como Estado-Membro, aplica esta norma na íntegra. Se comprou um carro novo após essa data, ele já tem, com toda a probabilidade, uma EDR instalada.

Que dados guarda a caixa negra num carro?

análise de dados da caixa negra

Esta é a questão que mais preocupa os condutores e com razão. A lista de dados recolhidos é definida por lei e é mais contida do que muitos imaginam.

Dados registados antes e durante o acidente

De acordo com o Regulamento (UE) 2019/2144 e com informação do Automóvel Clube de Portugal (ACP), o EDR regista diferentes parâmetros.

  • Velocidade do veículo, incluindo a velocidade longitudinal em metros por segundo ao quadrado
  • Ângulo de viragem do volante e a velocidade angular em graus
  • Pressão no pedal do acelerador ou as rotações do motor
  • Intensidade e momento da travagem, se travou, quando e com que força
  • Estado de ativação dos airbags, se foram acionados e quando
  • Utilização dos cintos de segurança, se os pré-tensores foram ativados
  • Posição e inclinação do veículo na estrada
  • Estado dos sistemas de segurança ativa e passiva, como o ABS, o ESP e outros sistemas de assistência à condução (ADAS)
  • Taxa de ativação do sistema eCall, o sistema de chamada de emergência automática

Quanto tempo de dados são guardados?

O sistema grava, em regra, os cinco segundos imediatamente antes do impacto e cerca de 0,3 a 5 segundos após o evento, consoante o parâmetro em causa. Não é um registo contínuo de toda a viagem, é um snapshot dos momentos críticos.

O que a caixa negra NÃO regista

É igualmente importante saber o que está fora do âmbito deste dispositivo.

  • Não grava conversas ou sons do interior do habitáculo
  • Não regista localização GPS nem percursos efetuados
  • Não guarda imagens ou vídeo
  • Não recolhe dados pessoais identificáveis do condutor ou do proprietário, como o nome, o número de identificação do veículo (VIN) ou outros elementos que permitam identificar uma pessoa
  • Não transmite dados para seguradoras, fabricantes ou outras entidades de forma automática
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Onde fica instalada?

Por razões de segurança e integridade dos dados, a EDR encontra-se geralmente atrás do painel de instrumentos, numa posição de difícil acesso e pouco visível.

Esta localização tem dois propósitos: proteger o dispositivo em caso de colisão e garantir que não pode ser facilmente desativado ou manipulado.

A lei é clara e o EDR não pode ser desativado. É um sistema obrigatório e permanente em cada veículo.

Quem pode aceder aos dados da caixa negra?

viajar sem pressa

Este é talvez o ponto que mais dúvidas levanta e onde a legislação europeia é mais rigorosa.

Acesso restrito por lei

Os dados recolhidos pelo EDR são, por padrão, confidenciais. O acesso só é possível através de equipamento próprio, no local onde o veículo se encontra e não há transmissão remota de dados. Quem pode aceder?

  • Autoridades competentes, como a polícia ou a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), no âmbito de investigações de acidentes
  • Entidades judiciais, mediante ordem judicial
  • Seguradoras, apenas com autorização expressa do condutor

Os fabricantes de automóveis também podem utilizar dados agregados e anónimos para melhorar os sistemas de segurança dos veículos, mas sem acesso a informações que identifiquem condutores.

O condutor pode apagar os dados?

Em teoria, alguns fabricantes oferecem essa possibilidade. Na prática, se existir uma investigação de acidente em curso, pode haver restrições legais que impeçam o apagamento dos dados. Em situações normais, os dados são sobrescritos ciclicamente.

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