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André Freitas
André Freitas
16 Abr, 2020 - 17:11

Recolha de dados dos veículos: tecnologia ou invasão de privacidade?

André Freitas

Que dados pessoais têm as marcas? Para que servem? Qual é a fronteira entre tecnologia e invasão de privacidade? Conheça as respostas a este tema sensível.

carros inteligentes

À medida que os carros se tornam mais evoluídos a nível tecnológico, nomeadamente no que diz respeito à existência de auxiliares de condução e à própria condução autónoma, colocam-se as mais variadas questões acerca da recolha de dados dos veículos.

Que tipo de dados são recolhidos? Por quem? Com que finalidade? O que acontece à privacidade dos proprietários e utilizadores destes automóveis?

Talvez nunca se tenha questionado sobre isto, mas os carros hoje em dia sabem sempre onde está e por onde andou.

Mas antes de mais, é importante ressalvar que nem todos os veículos estão preparados para recolher e armazenar dados. Os que o fazem, afirmam as marcas, fazem-no com o objetivo de melhorar a experiência de condução ou até alguns aspetos mecânicos do próprio veículo e não com o objetivo de “espiar”.

Neste artigo vamos responder às questões referidas anteriormente e vamos também analisar o estudo “Dados dos Veículos e Privacidade”, levada a cabo pela LeasePlan e a Ipsos para perceber se efetivamente a recolha de dados dos automóveis deve ser uma preocupação para os automobilistas.

Recolha de dados dos veículos: onde a tecnologia choca com a sua privacidade

carros ligados

Que tipo de dados são recolhidos pelas marcas?

Desde há muitos anos que os carros estão equipados com vários sensores e computadores de bordo programados para coordenar e controlar alguns sistemas. Desde airbag, emissões de CO2, GPS, entre outros.

Estes dados eram armazenados no próprio automóvel e só poderiam ser acedidos em oficinas ou concessionários devidamente preparados para realizar um diagnóstico ao veículo.

Os dados recolhidos eram bastante úteis quando se verificava alguma falha no carro, pois ajudavam a detetar mais facilmente a origem dessa avaria.

Atualmente, os carros estão ainda mais apetrechados com tecnologia e estão também ligados ao mundo exterior, nomeadamente através de Bluetooth ou Wi-Fi, muitas vezes com ligação constante ao smartphone do seu proprietário.

Isto significa que os dados já não ficam apenas armazenados nos veículos, mas sim que são transmitidos ao exterior ou que podem ser acedidos remotamente.

A condução autónoma impulsionou drasticamente a recolha de dados dos veículos.

Os sensores e câmaras que registam hábitos e trajetos, monitorizam o comportamento e desempenho do carro e que são utilizados para auxiliar a condução, transmitem dados para entidades externas ao veículo.

No futuro, quando a condução autónoma se massificar, os automóveis terão até a capacidade de transmitir dados entre si. No entanto, os dados não fluem apenas num sentido.

São algumas as marcas, nomeadamente a Tesla, que já realizam atualizações de software remotamente, permitindo assim ao fabricante ter a oportunidade de corrigir erros ou melhorar o sistema a qualquer momento.

Quem faz a recolha e processamento destes dados?

Os dados são recolhidos, na sua maioria, pelos fabricantes automóveis como são exemplo a Tesla, Toyota, BMW, Nissan, o Grupo Volkswagen ou a General Motors.

O “problema” é que os fabricantes automóveis desenvolvem os seus carros em conjunto com diversos parceiros e são esses parceiros que muitas vezes, têm a capacidade de analisar os dados recolhidos pelo veículo.

E quando a finalidade da recolha de dados ultrapassa o próprio veículo (por exemplo, utilização das câmaras dos carros para mapear determinada zona), os dados serão certamente partilhados com terceiros.

Qual é o objetivo da recolha de dados dos veículos?

Os objetivos podem passar pela melhoria do desempenho do próprio automóvel ou até para melhor conhecer os hábitos de condução dos automobilistas para que seja possível oferecer um carro que corresponda às necessidades e preferências dos condutores.

Mas existem ainda outros motivos para a recolha de dados dos carros, como por exemplo: tentar encontrar formas de diminuir o tráfego automóvel, principalmente nas zonas mais congestionadas; perceber de que forma pode ser reduzido o consumo de combustível e, consequentemente, de emissões de gases poluentes.

Seja qual for o objetivo, este estará sempre relacionado com a oferta de um veículo que não defraude as expectativas dos automobilistas ou aquilo que foi anunciado pela marca, e nunca com a recolha de dados pessoais dos utilizadores do veículo.

Os dados recolhidos são anónimos?

O anonimato dos dados recolhidos é uma grande preocupação para os condutores.

Os proprietários dos automóveis devem saber exatamente que tipo de dados são recolhidos e devem ter uma palavra a dizer sobre a recolha desses dados.

Para além disso, devem também ter acesso aos dados recolhidos em qualquer momento que considerem conveniente, podendo decidir se os dados podem continuar armazenados ou se devem ser eliminados.

No entanto, e uma vez que este tópico ainda não foi devidamente analisado e legislado, são muitos os proprietários que não fazem ideia dos dados que são recolhidos dos seus automóveis e com que finalidade.

Os fabricantes não mostram total transparência neste tópico e há até marcas que não sabem lidar publicamente com este assunto.

É exemplo o caso da Tesla que, relativamente a um acidente com uma vítima mortal em 2018, na Califórnia, divulgou que o motivo do acidente não teria sido o piloto automático do carro, mas sim falha do condutor que depois de avisado múltiplas vezes, não evitou o acidente.

A privacidade, mais do que a recolha de dados dos veículos, é a grande preocupação dos condutores, até porque são várias as fontes de recolha de dados, nomeadamente até o microfone utilizado para o sistema de mão livres.

O que diz o estudo “Dados dos Veículos e Privacidade”

cruise control adaptativo

A LeasePlan, em conjunto com a Ipsos, uma empresa de pesquisa mundial, divulgou recentemente os resultados da pesquisa com o tem “Dados dos Veículos e Privacidade”, parte integrante do seu Mobility Monitor anual.

As principais conclusões desta pesquisa levada a cabo em 16 países (Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal, Reino Unido, entre outros) apontam para uma crescente preocupação com a recolha de dados dos seus automóveis.

Ora vejamos os resultados que se destacam, na globalidade das entrevistas realizadas:

  • 53% dos entrevistados mostra-se preocupado com a recolha de dados;
  • 52% preocupam-se com os dados que se mantêm nos seus veículos depois de estes terem sido vendidos ou devolvidos;
  • 49% dos entrevistados estão preocupados com os dados que são partilhados com terceiros.

Os portugueses entrevistados definem como principais preocupações, os seguintes aspetos:

  • 54% preocupam-se com os dados que ficam nos veículos depois de estes terem sido vendidos ou devolvidos;
  • 50% questiona-se quem tem acesso aos dados recolhidos;
  • 49% dos entrevistados estão preocupados com os dados que são partilhados com terceiros.

Contudo, a maioria dos entrevistados mostra-se interessada em que os seus veículos recolham dados, desde que seja garantido o anonimato.

Os dados recolhidos poderiam ter como finalidade, na opinião da totalidade dos entrevistados:

  • reduzir o congestionamento do tráfego e o tempo de viagem (70%);
  • reduzir os consumos e custos de manutenção (70%);
  • reduzir as emissões dos automóveis (68%);
  • melhorar o desempenho do veículo (66%).

Já a percentagem de portugueses a favor da recolha de dados dos veículos é ainda mais expressiva:

  • reduzir os consumos e custo de de manutenção (84%);
  • reduzir o congestionamento do tráfego e o tempo de viagem (83%);
  • reduzir as emissões dos automóveis (81%);
  • melhorar o desempenho do veículo (81%).
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