Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
29 Mai, 2026 - 14:00

Região Autónoma dos Açores: como funciona e o que muda na fiscalidade de quem lá vive e trabalha

Cláudia Pereira

Região Autónoma dos Açores: o que é, como funciona a autonomia fiscal, o que pagam as empresas e residentes em IRC e IRS, e os dados económicos de 2025-2026.

O arquipélago dos Açores é uma das duas regiões autónomas de Portugal (a outra é a Madeira) com estatuto político-administrativo próprio consagrado na Constituição da República Portuguesa de 1976. Composto por nove ilhas divididas em três grupos geográficos (Oriental, Central e Ocidental), o arquipélago fica situado no Atlântico Norte, a mais de 1.400 quilómetros do continente. A capital é Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

A autonomia açoriana não é meramente simbólica. A Região tem Assembleia Legislativa Regional eleita, Governo Regional próprio e competências legislativas em matérias que vão da fiscalidade ao ordenamento do território. E é precisamente esta capacidade de fixar as suas próprias regras fiscais que torna os Açores relevantes do ponto de vista financeiro para empresas e particulares.

O estatuto autonómico resulta do processo de democratização pós-1974 e é regulado pelo Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores. Mais de 230.000 pessoas residem no arquipélago, com São Miguel a concentrar cerca de metade da população total.

Economia regional: PIB, turismo e emprego

A economia açoriana cresceu 2,3% em 2024, acima da média nacional, que se situou nos 2,1%, segundo dados do INE. O desempenho é consistente: o PIB regional deverá superar os 6 mil milhões de euros já no final de 2025, atingindo 6.245 milhões de euros em 2026.

O turismo é o principal motor desta expansão. As receitas turísticas dos Açores ascenderam a 99,6 milhões de euros no primeiro semestre de 2025, um aumento de 10,2% face ao período homólogo de 2024, impulsionado sobretudo pelos mercados internacionais, com destaque para os Estados Unidos, Alemanha e Espanha. O setor do turismo já representa cerca de 17% do PIB regional.

No mercado de trabalho, os números são os melhores do país. A taxa de desemprego nos Açores fixou-se em 3,9% no segundo trimestre de 2025, a mais baixa de Portugal continental e ilhas. Os salários acompanham a tendência: a remuneração mensal média por trabalhador nos Açores chegou aos 1.442 euros no terceiro trimestre de 2024.

O salário mínimo regional é mais alto do que no continente

Quem vive e trabalha nos Açores recebe um salário mínimo superior ao nacional. O acréscimo regional obrigatório é de 5% sobre a Retribuição Mínima Mensal Garantida (RMMG) nacional. Com o aumento do salário mínimo nacional para 870 euros em 2025, o salário mínimo regional nos Açores subiu para 913,50 euros. Em 2026, esse valor foi atualizado para 966 euros, acompanhando o novo patamar nacional.

O objetivo é que o salário mínimo regional atinja 1.071 euros em 2028, conforme estipulado no Acordo Tripartido sobre Valorização dos Salários e Crescimento Económico.

Autonomia fiscal: o que muda no IRS e no IRC

É aqui que a diferença se torna mais concreta para empresas e trabalhadores.

IRS para residentes nos Açores

Os residentes fiscais nos Açores têm tabelas de retenção na fonte distintas das do continente. As tabelas para 2026 foram aprovadas pelo Despacho n.º 1179/2026, de 3 de fevereiro, enquadrando as alterações introduzidas pelo Orçamento do Estado para 2026, com a redução do IRS a ser refletida nas retenções mensais a partir de janeiro.

As tabelas regionais diferenciam-se por situação familiar, número de dependentes e condição de deficiência. Na prática, os escalões de IRS aplicados nos Açores são os mesmos do Código do IRS nacional, a diferença está nos coeficientes de retenção ajustados às especificidades regionais, um mecanismo pensado para aproximar o valor retido mensalmente ao imposto efetivamente devido.

IRC para empresas sediadas nos Açores

As vantagens fiscais para empresas são ainda mais expressivas. A taxa de IRC aplicável às PME que exerçam diretamente atividades agrícolas, comerciais, industriais ou de prestação de serviços nos Açores mantém-se em 8,75% em 2026, muito abaixo dos 19% que vigoram no continente para o mesmo escalão em 2026 (e que descerão progressivamente para 17% em 2028).

As entidades residentes nos Açores beneficiam ainda de uma dedução à coleta entre 20% e 40% em caso de reinvestimento dos lucros em ativo fixo afeto à exploração. Uma vantagem relevante para empresas com planos de expansão ou modernização de equipamentos.

Orçamento 2026: investimento histórico

O Plano Regional Anual para 2026 tem uma dotação de 990,9 milhões de euros, um aumento de 172,9 milhões de euros em relação ao Plano para 2025, que foi de 818 milhões. O crescimento está fortemente ligado à execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e do programa Açores 2030.

Os Açores recebem ainda 341,1 milhões de euros ao abrigo da Lei das Finanças das Regiões Autónomas em 2026, mais 21,9 milhões do que em 2025, a par de uma verba extraordinária de 150 milhões de euros para execução do PRR.

A sustentabilidade das finanças públicas regionais está alinhada com os critérios de Maastricht, défice abaixo dos 3% do PIB e dívida pública abaixo dos 60% do PIB.

O que isto significa para quem quer viver ou investir nos Açores

Residir nos Açores implica aceitar custos de mobilidade para o continente, os voos têm subsídio de mobilidade, mas existe. O custo de vida em certas categorias (alimentação, energia) pode ser mais elevado do que no interior do país. Mas os números fiscais e laborais fazem da região uma das mais competitivas de Portugal para empresas de pequena e média dimensão.

Quem trabalha por conta de outrem beneficia de um salário mínimo mais alto, tabelas de IRS próprias e um mercado de trabalho com a menor taxa de desemprego do país. Quem tem empresa ou quer constituir uma, encontra uma taxa de IRC de 8,75% para PME que dificilmente tem paralelo no território nacional.

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