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Marta Maia
Marta Maia
02 Jul, 2021 - 16:22

Réis, escudos, euros: 5 séculos de moedas em Portugal

Marta Maia

Ouviu alguém dizer dez mil réis? Ainda se lembra de gastar dois contos? Conheça a história do dinheiro em Portugal e o seu valor.

Réis, escudos, euros

Lembra-se da felicidade que era quando encontrava cem escudos perdidos no chão ou no bolso de um casaco? Da quantidade de coisas que davam para comprar?

E de ver a avó reclamar que tinha gasto dois mil réis na mercearia porque os preços estavam “pela hora da morte”?

O dinheiro faz parte das nossas vidas e, no caso português, as últimas décadas já assistiram a várias gerações de notas e moedas. Contas feitas, algumas deixam saudades – quer pela nostalgia de as ouvirmos da boca de alguém, quer pelo quanto pareciam render, comparadas com o dinheiro de hoje.

Neste artigo revisitamos as últimas três gerações numismáticas em Portugal – o real, o escudo e o euro – e fazemos as contas ao valor que teriam hoje.

Réis, mil réis e as moedas do tempo da avó

O real (que no plural se dizia “réis”) foi a moeda dominante em Portugal entre a II dinastia (cerca de 1580) e a implantação da República (em 1910). Era um sistema monetário decimal e, por ter estado em vigor durante tantos séculos, manteve-se durante outros tantos nas bocas do povo.

Foi no tempo do real que surgiram algumas expressões que muitos de nós ainda vão reconhecer: o tostão, o cruzado, os contos de réis. Se os primeiros dois termos eram usados para referir pequenas subdivisas, os contos já eram quantias avultadas: correspondiam aos milhares de réis (por exemplo, dois mil réis – ou dois “mérreis”, como muita gente dizia – eram dois contos de réis).

Após quase quatro séculos de existência, foi a Implantação da República que ditou a morte do real, que parou de circular para dar lugar ao escudo. Ainda assim, o próprio escudo acabou a ter de partilhar muitas expressões com o antecessor: quando entrou em vigor, cada unidade valia o equivalente a mil réis. Ora, valendo-se desta matemática, muitos portugueses batizaram a velhinha moeda de 2$50 como a moeda “de dois e quinhentos”, ou mesmo a moeda de “25 tostões”.

Se tem mais de 25 anos, também a expressão “contos” está a soar-lhe familiar. Não é coincidência: da mesma forma que dois mil réis eram dois contos de réis, para muitos portugueses dois mil escudos passaram a ser “dois contos”. Apesar de matematicamente errada (porque dois mil escudos equivaliam a dois milhões de réis, ou dois mil contos de réis), a referência era igualmente percetível para toda a gente.

Os inesquecíveis escudos

Notas de escudos antigas

É preciso recuar muito no tempo (até antes da adoção oficial do real, na verdade) para encontrar as primeiras referências ao escudo. As primeiras moedas (de meio-escudo) nasceram durante o reinado de D. Duarte, ainda no século XV, embora não tenham sido produzidas com regularidade durante vários séculos.

Apesar de ir circulando de forma temporária, o escudo teve de esperar por 1911 para ser oficialmente nomeado a moeda de Portugal – e mesmo assim não era reconhecido em todas as regiões de domínio português (a Índia, por exemplo, não reconhecia esta moeda).

À entrada em circulação, um escudo valia mil réis e um quarto/um quinto de libra-ouro. Uma das grandes novidades que veio introduzir foi a diferenciação do material em que as moedas eram feitas, com o objetivo de facilitar a identificação dos diferentes níveis de grandeza.

As moedas de cem centavos, por exemplo, eram conhecidas como “escudo-ouro” (porque levavam este metal no fabrico), enquanto as moedas de 10, 20 e 50 centavos eram feitas em prata. As mais pequenas, de 0,5, 1, 2 e 4 escudos eram feitas de níquel e bronze.

Ainda que as técnicas de fabrico tenham sido alteradas ao longo dos anos, a distinção do valor facial através da diferenciação de materiais manteve-se até ao fim da vida do escudo. Se ainda tiver lidado com esta moeda, certamente se lembra que as moedas de 50 centavos não eram da mesma cor que as de 10 ou 200 escudos.

Ao contrário do que aconteceu com os réis, o escudo teve um tempo de vida relativamente curto e deixou de circular em 2002, dando lugar à moeda única: o euro.

Já agora, fique com esta nota: ainda pode trocar notas antigas e moedas de escudos até 2022, uma vez que as regras europeias obrigam os bancos centrais a aceitar a numismática antiga até 20 anos após esta parar de circular.

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O euro de hoje

A entrada em vigor do euro ainda está fresca na memória de muitos portugueses. A moeda única europeia valia 200$482 no momento de entrada de circulação e, verdade seja dita, ainda trouxe alguma confusão às contas de muitas famílias.

Um pouco por todo o país – e apesar da elevada diferença de valor – os consumidores assistiram a uma conversão quase literal dos preços em escudos para euros. Era frequente vermos produtos que custavam duzentos escudos passarem a custar dois euros, ou seja, duplicarem de preço disfarçados pela semelhança enganadora dos números. Em consequência, muitos portugueses ficaram com a sensação de que estavam mais pobres e tinham perdido poder de compra com a entrada da moeda única.

Hoje perto de celebrar duas décadas de vida, o euro é um dos maiores símbolos de união da União Europeia e tornou-se forte o suficiente para competir com o dólar e até a libra esterlina, embora continue a enfrentar alguns desafios como a desigualdade financeira entre estados europeus.

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Quanto valeria hoje em euros um conto de réis?

Chegados à atualidade, esta questão surge quase como inevitável. O problema é que a conta não é fácil de fazer.

Começamos pelo caminho mais fácil: o da conversão direta. Sabemos que, à entrada de circulação, um escudo valia um conto de réis. Também sabemos que, igualmente à entrada de circulação, um euro valia 200$482. Ora, fazendo a conta simples, temos que um escudo valeria, hoje, sensivelmente 0,0050€ e um conto de réis valeria a mesma coisa.

  • 1 conto de réis = 1 escudo
  • 1 escudo = 0,0050€
  • 1 conto de réis = 0,0050€

Claro que esta é uma conta demasiado simplificada, porque não considera variáveis como a inflação ou mesmo o valor colecionável de uma moeda há muito extinta. Uma transposição direta de valores só faria sentido se hoje tivéssemos o real e quiséssemos mudar amanhã para o euro.

Quer isto dizer que, se tiver em casa um conto de réis, não é certo que eles valham meio cêntimo. Por um lado, a inflação muda o valor do dinheiro (ter 5 euros no bolso hoje não é o mesmo que ter os mesmos 5 euros daqui a cem anos); por outro, a raridade de uma moeda que já não está em circulação pode fazê-la valorizar na negociação com um colecionador de numismática. E já nem falamos do valor do metal em que as moedas foram feitas (e que, ao peso, pode valer mais do que o valor facial da própria moeda).

Em todo o caso, se ainda tiver exemplares de réis pode sempre aproveitá-los para matar saudades e, quem sabe, dar início a longas e nostálgicas conversas com familiares e amigos.

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