Alguns pratos que não precisam de marketing. As migas alentejanas são um desses casos.
Nascem da escassez, crescem na partilha e acabam invariavelmente no centro da mesa, rodeadas de carne, conversa lenta e copos que se voltam a encher sem grande cerimónia.
No Alentejo, falar de migas é falar de território, de pão duro que recusa ser desperdiçado e de uma cozinha que sempre soube transformar pouco em muito.
Nos últimos anos, vários restaurantes têm vindo a afirmar-se como referências incontornáveis quando o assunto são migas bem feitas, respeitando a base tradicional mas assumindo pequenas variações locais.
A ideia desta rota das melhores migas alentejanas não surge como evento fechado num fim de semana específico, nem é, nem podia ser, uma listagem absoluta. São locais onde sabemos que as há. Mas haverá muitos outros, obviamente.
O que distingue umas boas migas alentejanas

Antes de entrar na nossa rota, convém alinhar expectativas. Migas não são todas iguais. Nem devem ser. O pão é alentejano, sim, mas muda de aldeia para aldeia. O alho pode ser mais ou menos presente. O azeite, sempre generoso, varia conforme a colheita.
Há migas com entremeada, com entrecosto, com carne de alguidar, com espargos, com tomate, com feijão-frade. E depois há o acompanhamento quase obrigatório, carne de porco preto, grelhada ou frita no ponto exato.
O segredo está menos na receita escrita e mais no gesto repetido. E isso nota-se logo à primeira garfada. É por isso que avançamos com alguns restaurantes onde, em pleno Alentejo, pode degustar esta especialidade.
Restaurante Fialho (Évora)
Évora não foge ao clássico e o Fialho também não. As migas alentejanas com entrecosto de porco preto são das mais consistentes da região, feitas com pão bem absorvido, textura certa e sabor profundo. Aqui, as migas não tentam surpreender. Limitam-se a cumprir. E cumprem muito bem.
Travessa das Mascarenhas, 16, Évora
Adega Regional (Elvas)
Mais popular, mais ruidosa, mais viva. A Adega Regional serve migas alentejanas com identidade marcada. O ambiente ajuda, mas o prato sustenta-se sozinho. São migas de sustância, daquelas que pedem tempo depois.
Depois basta um passeio pela cidade, e pela sua imponente fortaleza, para moer e preparar novo round.
Rua de João Casqueiro, 23, Elvas
O Tachinho (Ferreira do Alentejo)
Menos falado, mas respeitado por quem sabe. As migas aqui surgem muitas vezes com espargos, respeitando a sazonalidade. A textura é mais solta, menos compacta, o que agrada a quem prefere migas mais leves, sem perder intensidade.
Rua Cândido dos Reis, 27, Ferreira do Alentejo
São Rosas (Estremoz)
Estremoz entra na rota com autoridade. No São Rosas, as migas com carne de alguidar são presença regular e justificam a paragem. O pão absorve bem o tempero, o alho aparece sem agressividade e o azeite faz o resto do trabalho. Cozinha honesta, sem desvios.
Largo Dom Dinis, 11, Estremoz
Venda Azul (Estremoz)
Um espaço discreto, quase fora do radar, mas com migas que merecem atenção. Aqui surgem muitas vezes acompanhadas por entrecosto grelhado e enchidos regionais. Migas mais rústicas, com sabor marcado e sem concessões.
Largo de São José, 26, Estremoz
Malhadinha Nova (Beja)
A Malhadinha Nova mostra como a tradição pode conviver com um ambiente mais contemporâneo. As migas aparecem em versões cuidadas, frequentemente com carne de porco preto de produção própria. O prato mantém a alma, mas ganha apresentação. Sem perder credibilidade.
Herdade da Malhadinha Nova, Albernoa, Beja
O Celeiro (Moura)
Com vista para o Alqueva, mas pés bem assentes na tradição, o Celeiro apresenta migas com tomate e carne de porco, num registo muito alentejano. Aqui, a paisagem pode distrair, mas o prato segura a atenção.
Rua Henrique José Pinto, 10/12, Moura
Casa do Alentejo
Finalmente, Lisboa também tem um ar de Alentejo, sabia? Aqui, as migas alentejanas são clássicas ou de grão, acompanhadas por carne frita ou febras, dependendo do dia. Um daqueles sítios onde se percebe que a receita não mudou porque não precisava.
Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa
Migas alentejanas: tradição que se recomenda

Num tempo em que a gastronomia vive muitas vezes obcecada com novidade, a rota das migas lembra algo essencial, ou seja, a tradição não precisa de ser reinventada para continuar relevante. Precisa apenas de ser bem tratada.
As migas alentejanas são memória comestível. Cada restaurante desta rota acrescenta uma nuance, um gesto, uma pequena variação que ajuda a contar a história de uma região inteira à mesa.
E talvez seja isso que faz desta rota uma das mais sólidas do país. Não promete espetáculo. Promete verdade. E isso, convenhamos, já é muito. Já agora, se conhece outros templos alentejanos para degustar este pitéu, não se faça rogado. Diga de sua justiça nos comentários.