Share the post "Ser parteira em Portugal demora quase 10 anos. Vale a pena?"
Ser parteira em Portugal significa, na prática, tornar-se Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica (EESMO). É este o título reconhecido pela Ordem dos Enfermeiros e é ele que confere autonomia legal para acompanhar a gravidez, o parto e o pós-parto em situações de baixo risco.
O percurso exige, no mínimo, uma licenciatura em enfermagem, dois anos de exercício profissional e um mestrado de dois anos numa das escolas superiores de enfermagem. Só depois disso a Ordem dos Enfermeiros atribui o título de especialista.
No total, entre estudo e prática obrigatória, o caminho até ao título ronda os oito anos. Em contrapartida, o salário-base de enfermeiro especialista arranca nos 1.920,20 euros e pode ultrapassar os 3.480 euros no topo da carreira.
O que é, afinal, uma parteira em Portugal?
Em Portugal, o termo “parteira” não corresponde a uma categoria profissional isolada. A função é exercida pela EESMO, enfermeira especialista reconhecida pela Ordem dos Enfermeiros ao abrigo do Regulamento n.º 391/2019.
Esta profissional acompanha a mulher ao longo de todo o ciclo reprodutivo: planeamento familiar, gravidez, trabalho de parto, parto e puerpério. Nas situações de baixo risco, conduz o parto de forma autónoma, sem necessidade de supervisão médica direta, e está habilitada a identificar complicações e a accionar medidas de emergência quando necessário.
A Organização Mundial de Saúde recomenda o acompanhamento contínuo por parteira ao longo de toda a gravidez, por associar este modelo a melhores resultados obstétricos e neonatais. O título de formação em Portugal corresponde ao que a Diretiva europeia 2005/36/CE designa por “midwife”, transposta para a lei portuguesa pela Lei n.º 31/2021.
O percurso: da licenciatura ao título de especialista
O primeiro passo é sempre a licenciatura em enfermagem, com a duração habitual de quatro anos. Sem ela, não há acesso ao mestrado nem ao título de enfermeiro.
Depois de terminar a licenciatura e obter a cédula profissional junto da Ordem dos Enfermeiros, é preciso somar pelo menos dois anos de exercício profissional como enfermeiro generalista. Esta exigência está prevista no artigo 12.º da Portaria n.º 268/2002 e é condição obrigatória para a atribuição do título de especialista.
Só nesta fase é que se candidata ao mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, com 120 ECTS distribuídos por quatro semestres, ou seja, dois anos. O plano inclui a unidade curricular opcional de Estágio de Natureza Profissional com Relatório, obrigatória para quem pretende obter o título profissional junto da Ordem, e não apenas o grau académico de mestre.
Consulte os prazos de candidatura na escola escolhida antes de organizar o resto do percurso, variam de instituição para instituição, mas costumam abrir em janeiro e fevereiro.
Onde estudar e quanto custa
O mestrado é ministrado em escolas superiores de enfermagem públicas, entre as quais a Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (ESEL), a Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP), a Escola Superior de Saúde da Universidade de Évora, o Instituto Politécnico de Santarém e a Universidade dos Açores, em consórcio com a Cruz Vermelha Portuguesa.
As vagas são limitadas. A ESEL, por exemplo, abriu 19 vagas para estudantes nacionais e uma para estudantes internacionais no ano letivo de 2026/2027, com candidaturas entre 13 de janeiro e 28 de fevereiro.
Por exemplo, na ESEL em 2026, a propina do mestrado é paga em dez prestações de 250 euros por ano letivo, o que equivale a 2.500 euros anuais — cerca de 5.000 euros ao longo dos dois anos do curso. O valor exacto varia consoante a escola e pode incluir descontos para pagamento antecipado.
Quanto ganha uma parteira em Portugal
Depois de obtido o título, a EESMO integra a categoria de enfermeiro especialista na tabela remuneratória única da Administração Pública.
Em 2026, após o Decreto-Lei n.º 111/2024 e a actualização do Decreto-Lei n.º 29-A/2026), o salário-base arranca nos 1.920,20 euros na primeira posição remuneratória e sobe progressivamente até 3.481,16 euros na décima e última posição. Para comparação, um enfermeiro generalista no início de carreira ganha 1.657,04 euros.
Fora da função pública, uma parteira pode exercer em consultas de preparação para o parto, acompanhamento de partos domiciliários ou apoio ao aleitamento, mas não existem dados oficiais consolidados sobre os rendimentos médios deste tipo de prática em Portugal, pelo que qualquer valor apresentado como referência seria especulativo.
Vale a pena?
Na prática: quatro anos de licenciatura, dois de prática clínica obrigatória, dois de mestrado e, no fim, um título que garante autonomia para acompanhar partos de baixo risco, com um salário-base que já parte acima da média nacional.
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