Chega ao café, ao supermercado ou ao táxi sem carteira, só com o telemóvel. Em Portugal, isso já é rotina para milhões de pessoas, mas há mais do que uma forma de fazer o pagamento e nem todas funcionam da mesma maneira, nem têm os mesmos riscos.
O MB Way, da SIBS, tem uma base própria de conta e número de telemóvel. Já o Apple Pay e o Google Pay funcionam como uma extensão digital do cartão bancário, sem criar uma conta nova. A diferença parece técnica, mas tem consequências práticas na segurança, nas burlas mais comuns e em quem paga a conta quando algo corre mal.
Em maio de 2026, a SIBS anunciou que o MB Way ultrapassou os 7 milhões de utilizadores em Portugal. As carteiras digitais da Apple e da Google também têm vindo a crescer, sobretudo entre quem já paga por aproximação com cartão e quer eliminar mais um passo. Perceber onde cada solução ganha e onde pode custar caro, ajuda a escolher melhor.
Como funcionam o MB Way e as carteiras digitais
O MB Way associa-se a um número de telemóvel e a uma conta bancária (não tem de ser a conta principal). A partir daí, permite enviar e receber dinheiro, pagar em lojas físicas e online, levantar numerário sem cartão em caixas Multibanco e até pagar transportes públicos. Basta o PIN da aplicação para confirmar a operação.
O Apple Pay e o Google Pay funcionam de outra forma. Em vez de criar uma conta nova, guardam uma versão digital (tokenizada) do cartão de débito ou crédito já existente. Ou seja, o número real do cartão nunca fica gravado no telemóvel: cada pagamento gera um código único, válido apenas para aquela transação. A confirmação faz-se por biometria (Face ID, Touch ID ou impressão digital) ou pelo código de desbloqueio do aparelho.
Há ainda o Wero, a alternativa europeia lançada pela EPI em parceria com a SIBS e o Bancomat italiano, que já permite transferências imediatas por número de telemóvel entre Portugal, Espanha e Itália, um caminho que aponta para mais interoperabilidade nos próximos anos.
As vantagens que pesam na escolha
O MB Way ganha em versatilidade dentro de Portugal: além de pagar, envia dinheiro a um amigo, divide a conta do jantar ou levanta notas sem cartão físico. É também a opção mais aceite no comércio local e nas plataformas de venda entre particulares.
O Apple Pay e o Google Pay ganham na integração com o cartão que já se tem, sem inserir dados manualmente e na compatibilidade internacional, já que funcionam em qualquer terminal contactless dentro e fora de Portugal. A tokenização é, do ponto de vista técnico, uma camada extra de proteção: mesmo que alguém intercete a comunicação do pagamento, não fica com o número real do cartão.
Compare os dois métodos que já usa no dia a dia e perceba qual encaixa melhor no seu comércio habitual, como café, supermercado, viagens.
Os riscos que poucos veem chegar
O maior risco não está na tecnologia em si, mas na engenharia social. Segundo a Polícia Judiciária, entraram 264 inquéritos por burla informática com transferência imediata de dinheiro em 2025, muitos deles ligados a este tipo de aplicação. A GNR registou ainda 2.756 burlas dirigidas a idosos em 2025, um aumento de 8,3% face a 2024, com o MB Way frequentemente usado como isco.
Os esquemas mais comuns seguem um padrão semelhante: um suposto comprador ou vendedor num site de classificados pede o número de telemóvel e induz a vítima a autorizar uma operação como se fosse receber dinheiro. Outro esquema em crescimento é o do “engano na transferência”, a vítima recebe um valor inesperado e é depois convencida a devolvê-lo para outra conta, tornando-se sem saber intermediária de uma possível lavagem de dinheiro.
As carteiras digitais não estão imunes a este tipo de manipulação, mas o roubo direto de dados do cartão é mais difícil, precisamente porque o número real nunca é partilhado com o comerciante.
Quem paga a fatura quando corre mal
Aqui está a diferença que mais importa. Segundo o Banco de Portugal, numa operação de pagamento não autorizada, o utilizador só pode ser obrigado a suportar até 50 euros de prejuízo, e o banco deve reembolsar o valor até ao final do primeiro dia útil seguinte à comunicação, exceto em caso de fraude ou negligência grosseira. O problema é precisamente esse “exceto”: se a vítima confirmou a operação, mesmo enganada, muitos bancos consideram-na autorizada e recusam devolver o dinheiro.
Ligue a conta do MB Way a um saldo limitado em vez da conta principal, para que um eventual incidente fique circunscrito. É um ajuste sem custo e reduz o prejuízo potencial de forma imediata.
Nunca partilhe códigos de PIN, de ativação ou de levantamento com desconhecidos, seja por telefone, SMS ou WhatsApp, nem quando a mensagem parece vir do banco. E, se receber dinheiro sem explicação, contacte o banco antes de devolver seja o que for a outra conta: pode ser o primeiro passo de uma burla, não o desfecho dela.
Nem o MB Way nem as carteiras digitais são, por si, mais ou menos seguras, a diferença está em como cada pessoa as usa. Testar as duas, perceber onde cada uma encaixa e manter os limites de conta ajustados evita a maior parte dos prejuízos antes de acontecerem.
Mantenha-se atualizado sobre economia e finanças pessoais. Subscreva a Newsletter Ekonomista e receba todas as semanas, as mudanças que afetam o seu orçamento e as estratégias para poupar mais.