Miguel Pinto
Miguel Pinto
02 Set, 2026 - 15:00

Phubbing: quando o telemóvel começa a ocupar o lugar do parceiro

Miguel Pinto

Phubbing nos casais ou como o uso do telemóvel pode afetar a comunicação, a intimidade e a satisfação numa relação a dois.

phubbing

O jantar está servido. Duas pessoas estão sentadas à mesma mesa, mas uma delas olha repetidamente para o ecrã do telemóvel. Chega uma notificação, segue-se uma resposta rápida, depois uma passagem pelas redes sociais e, quando finalmente pousa o aparelho, já se perdeu parte da conversa. O episódio pode parecer insignificante, mas repetido todos os dias, pode deixar de o ser.

É este comportamento que tem sido designado por phubbing, um termo criado a partir da combinação das palavras inglesas phone e snubbing. Em português, pode ser entendido como ignorar ou colocar em segundo plano uma pessoa que está presente para dar atenção ao telemóvel.

O fenómeno não é novo, mas ganhou uma dimensão particularmente relevante à medida que o smartphone passou a concentrar mensagens, trabalho, entretenimento, informação e relações sociais. Nunca foi tão fácil estar permanentemente contactável e, ao mesmo tempo, nunca foi tão simples interromper uma conversa com quem está fisicamente ao lado.

O que é, afinal, o phubbing?

Phubbing é o comportamento de prestar atenção ao telemóvel durante uma interação presencial, em detrimento da pessoa que está presente. Pode acontecer numa conversa, durante uma refeição, enquanto se vê televisão ou até na cama, antes de dormir. Quando ocorre entre parceiros, fala-se frequentemente em partner phubbing, ou phubbing do parceiro.

Nem toda a utilização do telemóvel durante uma conversa constitui necessariamente um problema. Atender uma chamada urgente, consultar uma informação necessária ou responder a uma mensagem importante são situações diferentes de verificar repetidamente o ecrã sem uma razão concreta. A questão central está na frequência, na duração e, sobretudo, na forma como o comportamento é interpretado pela outra pessoa.

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Porque é que o phubbing afeta os casais?

situação de phubbing

Uma relação não é construída apenas através de grandes gestos. É também feita de pequenas respostas, como olhar quando o outro fala, demonstrar interesse, reagir a uma preocupação ou simplesmente partilhar alguns minutos de atenção exclusiva.

O telemóvel introduz uma terceira presença nessa equação. E, apesar de não ocupar uma cadeira à mesa, pode acabar por disputar diretamente a atenção de um dos elementos do casal.

A investigação tem encontrado associações entre o phubbing e uma menor satisfação com a relação, menor intimidade, pior qualidade da comunicação e maior conflito.

Uma análise que reuniu 52 estudos, com 19 698 participantes, identificou também associações com menor capacidade de resposta entre parceiros, menor proximidade emocional e maior ciúme.

Outro estudo, publicado em 2025, encontrou uma relação entre o phubbing do parceiro, a diminuição da confiança e uma perceção menos positiva da qualidade da relação.

Neste trabalho, a confiança e a qualidade da relação ajudaram a explicar a associação entre ser alvo de phubbing e sentir menor satisfação com o relacionamento.

Por outras palavras, o problema pode não estar apenas nos minutos passados ao telemóvel. Está também na mensagem que o comportamento transmite, ou seja, “aquilo que está neste ecrã é, neste momento, mais importante do que aquilo que está a acontecer entre nós”.

Sentimento de rejeição pode ser maior do que parece

Uma das características mais interessantes do phubbing é que o impacto não depende exclusivamente do tempo de utilização do smartphone.

Imagine-se uma pessoa que conta ao parceiro como correu o seu dia e recebe como resposta um olhar rápido, seguido de mais alguns segundos de scroll. Nada de dramático aconteceu.

Não houve uma discussão nem uma palavra desagradável. Ainda assim, pode surgir a sensação de não estar a ser verdadeiramente ouvido.

É precisamente esta dimensão subjetiva que a investigação recente tem destacado. A revisão publicada em 2026 concluiu que a perceção de ser alvo de phubbing pode produzir efeitos relacionais mais relevantes do que o comportamento objetivamente medido.

Num casal, a atenção funciona também como uma forma de reconhecimento. Quando é retirada de forma sistemática, podem surgir sentimentos de rejeição, solidão, desvalorização ou afastamento.

Phubbing pode criar um ciclo difícil de interromper

casal na cama com telemóveis

Existe ainda uma espécie de paradoxo. Uma pessoa sente que o parceiro passa demasiado tempo ao telemóvel, fica frustrada e procura chamar a atenção.

O outro sente-se pressionado, pega novamente no smartphone ou refugia-se nele. A primeira pessoa interpreta esse comportamento como mais uma prova de desinteresse. E o ciclo continua.

A investigação sobre phubbing aponta para uma relação entre o comportamento e fatores como utilização problemática dos meios digitais, medo de ficar de fora (fear of missing out), comparação social e determinadas características psicológicas.

A meta-análise publicada em 2025 encontrou uma associação particularmente forte entre dependência dos meios digitais e phubbing do parceiro.

Isto significa que reduzir o fenómeno a “falta de consideração” pode ser demasiado simples. Em alguns casos, existe efetivamente um hábito de utilização difícil de controlar.

escritório vazio
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Recuperar a relação

Combater o phubbing não implica transformar o smartphone num inimigo. O aparelho é uma ferramenta profundamente integrada na vida quotidiana e, para muitas pessoas, também uma extensão do trabalho, das relações familiares e da vida social. A questão está em recuperar algum controlo sobre quando, onde e como é utilizado.

Uma das estratégias mais simples consiste em estabelecer momentos em que o telemóvel fica de lado. As refeições podem ser um deles. O mesmo pode acontecer durante uma conversa importante ou nos minutos que antecedem o sono.

Também pode ser útil desligar notificações que não sejam essenciais. Cada alerta introduz uma possível interrupção e, quando estas se acumulam, torna-se mais difícil manter a atenção numa única pessoa ou atividade.

Mais importante ainda é falar sobre o problema sem transformar a conversa numa acusação. Dizer “está sempre agarrado ao telemóvel” tende a produzir uma defesa. Explicar “sinto que deixamos de conversar quando o telemóvel aparece entre nós” coloca o foco no efeito que o comportamento está a produzir na relação.

Objetivo é estar realmente presente

A tecnologia não é necessariamente o problema. Um casal pode passar bastante tempo com os smartphones e, ainda assim, manter uma relação próxima e satisfatória. Da mesma forma, duas pessoas podem passar uma noite inteira sem telemóveis e não trocar uma conversa significativa.

O verdadeiro recurso escasso é a atenção. Por isso, o smartphone não deve transformar-se no culpado universal de todas as dificuldades de um casal. Pode, contudo, funcionar como amplificador de problemas que já existem ou como fonte adicional de distância emocional.

No fundo, o phubbing fala menos sobre telemóveis do que sobre atenção. Um ecrã pode ocupar apenas alguns centímetros. A distância que cria entre duas pessoas pode ser bastante maior.

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