O stress e os problemas de saúde psicológica no trabalho custam às empresas portuguesas até 13,3 mil milhões de euros por ano. A estimativa é da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), num relatório divulgado a 8 de outubro de 2026, com dados referentes a 2024.
O valor resulta de dias de trabalho perdidos: faltas (absentismo) e dias em que a pessoa está no posto de trabalho, mas a render abaixo do normal (presentismo). Em 2020, a mesma estimativa apontava para 3,2 mil milhões. Em quatro anos, a fatura mais do que quadruplicou.
Dividindo pelos dias do ano, são cerca de 36 milhões de euros por dia. E por detrás do número global há uma conta individual: até 40,5 dias de trabalho afetados por trabalhador, por ano.
Quanto custa o stress no trabalho, ano a ano
A OPP calcula o custo do stress no trabalho com uma fórmula simples: dias perdidos × número de trabalhadores × valor de um dia de trabalho. Para esse valor, usa a remuneração base média de 2024, de 1.309 euros mensais, segundo a Pordata, o que dá cerca de 65 euros por dia.
| Ano | Dias de falta por trabalhador | Dias de presentismo por trabalhador | Perda de produtividade |
|---|---|---|---|
| 2020 | 6,2 | 12,4 | 3,2 mil milhões € |
| 2022 | 8 | 15,8 | 5,3 mil milhões € |
| 2024 | 13,5 | 27 | 13,3 mil milhões € |
Dos 13,3 mil milhões, 4,4 mil milhões vêm das faltas e 8,9 mil milhões do presentismo. As pequenas e médias empresas (PME) suportam a maior fatia, cerca de 10,2 mil milhões, contra 3,1 mil milhões nas grandes empresas.
Em proporção, o custo equivale a 2,1% do volume de negócios das empresas não financeiras e a 13,5% de tudo o que gastam em salários e encargos sociais. Nas PME, esse peso sobe para 16,5%.
Atenção a dois pormenores. O salto entre 2022 e 2024 reflete sobretudo o aumento dos dias perdidos por doença: segundo o Índice de Saúde Sustentável da NOVA IMS, citado pela OPP, cada trabalhador perdeu 27 dias em 2024, contra 15,8 em 2022. Além disso, a estimativa assenta em pressupostos assumidos pelo próprio relatório, por exemplo, que metade das faltas por doença está ligada ao stress.
Ainda assim, a OPP classifica o valor como conservador. Ficam de fora a Administração Pública, o setor financeiro e os custos diretos, como consultas e tratamentos.
Presentismo: o custo que não aparece no mapa de faltas
O presentismo é a perda de produtividade que acontece quando o trabalhador vai trabalhar, mas funciona abaixo das suas capacidades por causa de doença física ou psicológica. Não gera faltas nem baixas, por isso passa despercebido. Segundo os pressupostos usados pela OPP, custa o dobro do absentismo.
Em 2024, o presentismo ligado ao stress terá custado até 27 dias de produtividade a cada trabalhador. Equivale a mais de um mês de dias úteis, sem que ninguém tenha faltado.
E não é um fenómeno raro. O último Inquérito Europeu sobre as Condições de Trabalho, da Eurofound, concluiu que mais de um terço dos inquiridos ia trabalhar mesmo doente. Em Portugal, 49% dos trabalhadores relatam stress associado à pressão e à carga de trabalho, acima da média europeia de 44%, segundo a agência europeia EU-OSHA.
Quando o cansaço se arrasta durante semanas, convém perceber se já é mais do que stress. Conheça os sinais de alerta da síndrome de burnout.
Com os pressupostos do relatório, a conta por pessoa também se faz: 40,5 dias × 65 euros = 2.632,50 euros por trabalhador e por ano. É o equivalente a cerca de dois salários base médios.
O que perde o trabalhador quando o stress leva à baixa
O custo não fica só do lado da empresa. Quando o stress leva a uma baixa médica, o subsídio de doença pago pela Segurança Social corresponde a uma percentagem da remuneração de referência, e não ao salário por inteiro. Essa percentagem varia com a duração da baixa. Saiba como funciona e quanto paga o subsídio de doença.
A estas perdas somam-se os custos de tratamento. As consultas de psicologia no privado são pagas pelo próprio, mas podem ser deduzidas no IRS. As despesas de saúde dão direito a uma dedução de 15%, até ao limite global de 1.000 euros por agregado familiar, segundo o artigo 78.º-C do Código do IRS.
Para isso, a fatura tem de ser emitida por um prestador com atividade de saúde humana e ficar classificada como despesa de saúde no e-fatura. Se pagou consultas de psicologia este ano, veja como validar as faturas de saúde no e-fatura.
Há também apoio público. A linha SNS 24 (808 24 24 24) integra um serviço de aconselhamento psicológico que funciona 24 horas por dia, todos os dias. Para outras opções, consulte as linhas de apoio psicológico disponíveis em Portugal.
O que a lei já exige às empresas e o que pode mudar
A Lei n.º 102/2009, que regula a segurança e a saúde no trabalho, já obriga o empregador a garantir que os fatores de risco psicossociais não constituam risco para a saúde do trabalhador (artigo 15.º). Também prevê a adaptação do trabalho para reduzir esses riscos.
Na prática, poucas empresas os avaliam de forma sistemática. Num inquérito europeu a empresas realizado em 2015 e citado no relatório, pouco mais de 10% das empresas portuguesas tinham procedimentos para lidar com riscos psicossociais, como o stress ou a violência no trabalho.
A OPP pede, por isso, mudanças concretas: tornar obrigatória a avaliação de riscos psicossociais e os planos de prevenção do stress e do burnout, integrar psicólogos do trabalho na saúde ocupacional e dar majoração, nos fundos do Portugal 2030, a empresas que cumpram critérios de bem-estar. Defende ainda testes alargados à semana de quatro dias.
O argumento é financeiro. Se a prevenção reduzir as perdas em 30%, as empresas poupariam quase 4 mil milhões de euros por ano. Os estudos citados apontam para um retorno de 5 euros por cada euro investido em saúde psicológica, e algumas intervenções ultrapassam os 9 euros.
Para quem trabalha, conhecer a lei abre caminho. Os trabalhadores têm direito a informação sobre os riscos do seu posto de trabalho e podem recorrer ao serviço de saúde ocupacional da empresa. Em caso de incumprimento, a entidade que fiscaliza é a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).
Prevenir custa menos do que pagar a fatura
Deixar tudo como está tem preço: 13,3 mil milhões por ano para as empresas, cerca de 2.600 euros por trabalhador e semanas de vida profissional gastas a funcionar a meio gás. Com uma redução de apenas 30%, ficariam quase 4 mil milhões no sistema.
Do lado de quem trabalha, a conta também se faz. Uma baixa paga a uma fração do salário sai mais cara do que agir cedo. Se o stress já pesa, não espere pela baixa: comece por estas estratégias para gerir o stress profissional e evitar o burnout e peça ajuda.
Mantenha-se atualizado sobre trabalho, direitos e finanças pessoais. A newsletter Ekonomista traz as mudanças que afetam o seu orçamento e as estratégias para poupar mais.
Autoridade Tributária e Aduaneira. (s.d.). Artigo 78.º-C — Despesas de saúde. Código do IRS. Portal das Finanças. https://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/informacao_fiscal/codigos_tributarios/cirs_rep/ra/Pages/irs78cx.aspx
Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro — Regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho. (2009). Diário da República, 1.ª série, n.º 176.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2026a). Prosperidade e sustentabilidade das organizações – Relatório do custo do stresse e dos problemas de saúde psicológica no trabalho, em Portugal. OPP.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2026b, outubro 8). Stresse e problemas de saúde psicológica podem custar até 13,3 mil milhões de euros por ano às empresas portuguesas [Comunicado de imprensa].