Catarina Reis
Catarina Reis
20 Fev, 2019 - 09:18
O retrato do trabalho feminino em Portugal em 2019

O retrato do trabalho feminino em Portugal em 2019

Catarina Reis

Caminhamos lentamente em direção à igualdade entre homens e mulheres. Saiba mais sobre o trabalho feminino em Portugal e o caminho a percorrer.

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Uma análise do trabalho feminino em Portugal revela que, apesar de mulheres e homens desempenharem funções profissionais de igual responsabilidade, não partem em condições de igualdade para o desempenho dessas mesmas funções. Em concreto, nota-se que as mulheres estão mais cansadas e são menos bem pagas do que os homens. Para quando uma mudança cultural definitiva?

Trabalho feminino em Portugal: um problema de gestão de papéis de vida?

O papel das mulheres no mundo laboral tem sofrido enormes alterações nas últimas décadas. Elas, antes confinadas à gestão familiar e doméstica, abraçam agora projetos de carreira. No entanto, não deixaram de ser o elemento central na gestão da família e da casa. O resultado? O trabalho feminino é a dobrar. E quase nunca é pago em condições de igualdade de género.

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A verdade é que a situação das mulheres que trabalham está longe de ser perfeita. Acaba de ser divulgado um estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) que reflete sobre como se sentem as trabalhadoras portuguesas no contexto atual do mundo laboral, intitulado “as mulheres em Portugal, hoje”, no qual participaram 2428 mulheres, entre os 18 e os 64 anos.

Os aspetos analisados neste estudo são o emprego, a vida doméstica, a situação económica, a relação com o parceiro, a existência de assédio, de violência doméstica e de género, entre outros. Os dados que resultam deste estudo são preocupantes, mas apontam a direção a seguir. Será que conseguiremos dar ouvidos, como sociedade, a este problema?

Sinais evidentes de descontentamento com o emprego

Para começar, a maioria das inquiridas neste estudo considera que o seu grande pilar de felicidade, ao longo das diferentes fases da vida, é o companheiro, o que deixa desde logo antever que o fator trabalho não assume um papel positivo nas suas vidas, ou pelo menos, tanto quanto poderia ou deveria.

Apesar de algumas melhorias, as desigualdades entre homem e mulher continuam a existir no mundo do trabalho em Portugal

Graças a este estudo, verificamos também que as desigualdades no tratamento por parte dos empregadores continuam a existir: em 46% dos casais portugueses, a mulher tem menores rendimentos do que o companheiro, ficando a percentagem magra de 15% reservada para as exceções a essa realidade.

Rendimentos médios ainda são baixos, e, pior que isso, a instabilidade reina

A maioria das inquiridas não recebe mais do que 900 euros líquidos mensais, e muitas consideram ter contratos de trabalho instáveis, que não lhes oferecem a segurança que procuram.

Além disso, verifica-se que ainda existe uma percentagem superior de casais nos quais as mulher não trabalha, apenas o homem. O contrário muito raramente acontece.

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Diferença entre níveis de escolaridade entre mulheres e homens não se traduz em maior reconhecimento profissional

Outro dado a ter em conta é que é normal as mulheres terem igual ou superior nível de escolaridade relativamente aos seus companheiros homens, mas isso na realidade do dia a dia do mundo laboral não tem qualquer expressão. Não existe um maior reconhecimento, nem são dadas mais oportunidades de progressão a mulheres mais instruídas e educadas do que os homens na mesma organização.

Sintomas de cansaço face à vida profissional, e a culpa é da distribuição das tarefas domésticas

Será que tudo começa em casa? Podemos mesmo esperar que as mulheres sejam igualmente remuneradas pelas empresas se, no lar, a divisão de tarefas já não é equitativa?

Um dado que salta à vista neste estudo é o facto de uma grande percentagem de trabalhadoras mencionar que sentem um cansaço crónico, o que pode abrir a porta à instalação de diversos problemas de saúde. O primeiro indício disso mesmo surge no facto de uma em dez trabalhadoras tomar medicação para atenuar os efeitos do cansaço.

As mulheres continuam a liderar o trabalho doméstico, desempenhando a maior parte das tarefas em comparação com os homens, e a consequência direta disso é a falta de tempo para descansar, cuidar de si próprias e até para direcionarem as suas energias para a gestão da sua carreira.

Salto geracional gigante, a nível de educação

Outro dado que salta à vista neste estudo é o grande salto que houve entre gerações, ao nível da formação e da educação das mulheres no nosso país.

Atualmente o grau de instrução das mulheres é muito superior ao das suas mães. Apesar disso, como já vimos, esta mudança nos níveis de educação das mulheres não foi acompanhada de uma mudança de atitudes em relação à gestão familiar e da casa, com consequências no reconhecimento remuneratório do trabalho feminino.

Uma questão de tempo – muito tempo!

Conclui-se assim com este estudo que é urgente resolver, de forma definitiva, a disparidade de investimento de tempo no trabalho doméstico entre homem e mulher. Uma vez dissolvida esta discrepância, estarão criadas as condições para que as mulheres também sejam tratadas com igualdade no mundo empresarial; assim, espera-se que encarem a sua vida pessoal e profissional de uma forma mais pacífica e prazenteira.

No entanto, provavelmente, teremos que esperar cerca de cinco gerações para que tal venha realmente a acontecer, e esse talvez seja o dado mais chocante que surge com este estudo.

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Isto porque na génese do problema estão questões relacionadas com a educação, a forma como o tema é abordado desde que se é criança, em casa, na escola, e nos conteúdos que nos são transmitidos pelos meios de comunicação: se prestar atenção aos anúncios comerciais a produtos de limpeza, verá que a protagonista é quase sempre uma mulher.

As consequências

Como consequência destes sinais de insatisfação das mulheres com a sua vida profissional, contam-se por exemplo um menor desejo de ter filhos, a quebra de produtividade, o aumento de crises relacionais, mais divórcios, menos saúde, e menor qualidade de vida.

Pode então dizer-se que a igualdade de género afeta todos, inclusive os homens, que aparentemente são beneficiados, a curto prazo, por terem menos encargos e serem melhor pagos – mas que também serão vítimas do decréscimo da taxa de natalidade, do envelhecimento da população e da desintegração das estruturas familiares.

Há quem afirme que uma forma de resolver o problema da desigualdade no trabalho doméstico seria entregá-lo a profissionais, pagando a quem o faz como atividade profissional. Mas, uma vez mais, a gestão desses profissionais em casa e a atribuição das tarefas ainda cabe às mulheres. Por outro lado, são elas as principais cuidadoras não apenas dos filhos, mas de outros familiares em situação de fragilidade ou doença – tarefas dificilmente atribuíveis a terceiros.

Por tudo isto, se torna evidente que a desigualdade salarial é apenas a ponta do icebergue de um problema social muito mais profundo.

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