Em alguns territórios a gastronomia funciona como um idioma próprio. Trás-os-Montes é um desses lugares. Aqui, a comida não serve apenas para matar a fome nem para cumprir calendário turístico.
Serve para explicar o clima, o isolamento, a resistência das aldeias e aquela relação muito concreta com a terra que não se aprende em livros. Tudo é mais direto. Às vezes rude. Quase sempre honesto.
Um roteiro gastronómico por Trás-os-Montes não se constrói com modas nem com listas genéricas. Constrói-se com mesas que sobreviveram ao tempo, cozinhas que nunca pediram licença à modernidade e pratos que não mudam porque não precisam.
Alguns restaurantes refinam, outros mantêm-se firmes na tradição. Todos contam a mesma história, cada um à sua maneira.
Este percurso passa por seis restaurantes emblemáticos de Trás-os-Montes, distribuídos entre aldeias pequenas e cidades com história, unidos por pratos de identidade forte.
Restaurantes a visitar em Trás-os-Montes
Podem ser as carnes maturadas com paciência, enchidos feitos como sempre se fizeram, receitas de tacho que pedem silêncio à mesa. É um roteiro que não se faz com pressa. Nem deve.
Estas são as nossas sugestões. Haverá muitas mais. Indique-nos nos comentários aquele local fantástico onde fez uma refeição inesquecível em Trás-os-Montes.
Maria Rita (Jerusalém do Romeu)

Em Jerusalém do Romeu, aldeia quase escondida no mapa, o Maria Rita construiu fama à custa da consistência. Aqui, a estrela é a cozinha transmontana clássica, feita sem desvios desnecessários.
A posta de carne mirandesa, bem maturada e grelhada no ponto certo, é o prato mais procurado, acompanhada por batata a murro e legumes da época. Também se destacam o cabrito assado no forno e os enchidos regionais, servidos com respeito e sem maquilhagem.
Tudo no Maria Rita parece simples. Não é. É rigor.
Jerusalém do Romeu, Mirandela
O Lagar (Torre de Moncorvo)

O Lagar, em Torre de Moncorvo, é conhecido pela ligação sólida à cozinha duriense e transmontana. A posta à transmontana, alta, suculenta e servida sem concessões, é um dos pratos de referência.
O cordeiro assado e o javali estufado aparecem frequentemente como escolhas seguras, sobretudo em épocas mais frias.
É um restaurante de sabores diretos, onde a carne manda e o tempo abranda. Quem entra sabe que não vai encontrar pratos leves. Nem é isso que se procura.
Rua do Hospital, 16, Torre de Moncorvo
Solar Bragançano (Bragança)

O Solar Bragançano é um dos grandes guardiões da gastronomia regional de Bragança. O prato mais emblemático é, sem surpresa, o butelo com casulas, servido nos meses tradicionais, com respeito absoluto pela receita original.
Fora da época, destacam-se o cabrito assado, o arroz de fumeiro e as alheiras artesanais, que aqui ganham outra dimensão.
É um espaço onde a tradição não é encenada. Está viva. E nota-se.
Praça da Sé, 34, Bragança
O Geadas (Bragança)

Falar do Geadas é falar de carne. Ponto final. A posta mirandesa é o prato que define a casa, servida em doses generosas e com uma execução consistente que raramente falha. Também o naco de vitela e o cabrito no forno fazem parte da lista de pratos mais pedidos.
Aqui, a cozinha não tenta convencer ninguém. Limita-se a cumprir. E isso, curiosamente, convence.
Rua dr. José Damasceno Campos, Bragança
Cais da Villa (Vila Real)

O Cais da Villa traz uma leitura mais contemporânea da cozinha regional, sem romper com as raízes.
A alheira de Mirandela, reinterpretada mas reconhecível, é uma das referências da casa. Surgem também pratos de carne bem afinados e sugestões sazonais que respeitam o produto local.
É um restaurante que mostra que tradição e modernidade podem coexistir, desde que nenhuma tente falar mais alto do que a outra.
Rua Monsenhor Jerónimo do Amaral, Vila Real
Panorama (Macedo de Cavaleiros)

O Panorama é um clássico em Macedo de Cavaleiros e não apenas pelo nome. Situado numa posição elevada, com vista ampla sobre o vale do Corgo, construiu reputação ao longo dos anos como um espaço de cozinha tradicional cuidada, onde o conforto da sala e a paisagem acompanham o prato.
Na carta, destacam-se os pratos de carne transmontana, em especial a vitela assada e o cabrito no forno, preparados de forma clássica, sem atalhos. O bacalhau, tratado com respeito e doses generosas, é outra presença regular entre os mais pedidos.
Pontão de Lamas, Porta 21, Macedo de Cavaleiros
Um roteiro que se faz com tempo
Este roteiro por restaurantes de Trás-os-Montes não é sobre acumular refeições nem sobre riscar nomes de uma lista.
É sobre perceber uma região através da mesa, dos produtos e das pessoas que continuam a cozinhar como sempre fizeram, mesmo quando o mundo à volta acelera.
Aqui, comer é uma forma de orientação geográfica. E cultural. Bom apetite.