Assunção Duarte
Assunção Duarte
28 Mai, 2019 - 09:48
Trotinetas elétricas: mais mobilidade ou praga a evitar?

Trotinetas elétricas: mais mobilidade ou praga a evitar?

Assunção Duarte

As trotinetas elétricas tornaram as cidades mais amigas do ambiente, mas também mais perigosas. Revelaram-se bons indicadores da saúde da nossa cidadania.

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Trotinetas elétricas: perigos que trazem a quem se cruza com elas. Parecem estar a ser encaradas como um mal necessário para as cidades, pois oferecem soluções de mobilidade alternativa aos seus habitantes e visitantes.

Nos últimos anos, este pequenos veículos sem motor ou com motor elétrico, invadiram várias cidades em todo o mundo e cativaram muitos utilizadores, principalmente nas faixas etárias mais jovens. Duas vantagens atraem os seus utilizadores: a forma rápida, económica e versátil de circular dentro da cidade e o facto de os ajudarem a reduzir a sua pegada ecológica.

Chegadas ao mercado nacional o ano passado pelas mãos da empresa norte americana Lime, que disponibilizou entre 200 a 400 trotinetas em Lisboa, neste momento já estão instaladas na capital portuguesa 9 empresas que fornecem este tipo de veículos.

A estreante Lime, a mais recente Bird, a Hive, a Voi, a Tier, a Wind, a Flash, a Bungo e a Iomo, a única de origem portuguesa. Outras cidades do país como Coimbra, também já as têm a circular, e as empresas preparam-se para expandir o negócio a cidades como Leiria e Porto.

Mas, ao contrário da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que apenas enquadrou a sua utilização no Código da Estrada, entregando a fiscalização às entidades policiais – limitando-se a licenciar o espaço público dos locais de descanso, os chamados hotspots – as outras cidades já estão a ser mais cautelosas.

O Porto por exemplo, está a criar um regulamento bem mais apertado para preparar uma entrada destas empresas mais user friendly e acautelar as situações de risco que acontecem diariamente em Lisboa.

Trotinetas elétricas: perigos

mulher a andar de trotinete eletrica

Acidentes diários com os seus condutores

Segundo números da PSP, em 2018, morreram 2 pessoas em consequência de acidentes com trotinetas e bicicletas, 40 ficaram gravemente feridas e 908 sofreram ferimentos ligeiros.

As empresas que gerem o negócio das trotinetas e bicicletas reportam poucos ou quase nenhuns incidentes. Estranho? Talvez não. É que muitos dos acidentados não comunicam à empresa os acidentes que tiveram. No caminho para a urgência são poucos os que se lembram de fotografar uma trotineta caída ou avançar com queixas, a não ser nos casos mais graves.

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Os médicos das urgências afirmam que a maioria dos ferimentos provocados por este veículo envolve traumas na cabeça, fraturas de ossos faciais e no resto do corpo, e alguns dentes partidos, adiantando que a maior parte destes ferimentos poderia ser evitado se o condutor utilizasse um capacete.

O problema maior dos acidentes que acabam nas urgências atinge os jovens que, durante a noite, conduzem trotinetas alcoolizados.

Atropelamento de peões

Os atropelamentos de peões são frequentes e já há cidades que proibiram a circulação destes veículos nos seus centros históricos ou em zonas pedonais. Isto porque os condutores gostam de andar muitas vezes nos passeios e não cumprem os sinais de trânsito convencionais como o sinal verde para peões ou as passadeiras.

Estes veículos só conseguem circular a um máximo de 30 quilómetros hora, mas o seu choque pode ser fatal ou ter consequências muito graves.

Acidentes com veículos

Quanto tirámos a carta nada nos preparou para conduzir em ruas com trotinetas e bicicletas a surgir de todos os lados. Ainda que a legislação recente tenha tentado reduzir os problemas face à circulação de bicicletas, o mesmo não aconteceu com as trotinetas.

Não respeitar os semáforos, passadeiras ou sinais de trânsito, descer de passeios para a estrada sem sinalizar a sua manobra, tudo isto são acidentes à espera de acontecer e que em alguns casos já aconteceram.

Em Espanha, uma mulher de 40 anos foi mortalmente atropelada por um camião quando circulava na estrada e uma idosa veio a falecer depois de ser atropelada por uma trotineta no passeio. Quando isto acontece, como se apuram responsabilidades e quem tem de pagar os danos causados?

Problemas de circulação para idosos e invisuais

Nas cidades onde as trotinetas elétricas circulam existem os chamados hotspots, locais onde elas ficam estacionadas quando ninguém as utiliza. Mas é frequente encontrarmos as trotinetas em todos os pontos da cidade, muitas vezes em locais que dificultam a circulação de invisuais e idosos.

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Para as empresas que operam estes veículos, deixá-las durante o dia espalhadas pela cidade é uma mais valia porque alarga o acesso aos seus serviços. Afirmam que aconselham os seus utilizadores a não as deixar em locais que perturbem a mobilidade dos transeuntes ou dos habitantes, mas a verdade é que os utilizadores fazem orelhas moucas a estes conselhos.

Operadores com recolha de trotinetas pouco “ecológica”

O sistema de recolha de trotinetas dos operadores, como por exemplo a Lime, contam com as vantagens duvidosas dos negócios cada vez mais populares de economia partilhada.

No caso da Lime, existe uma equipa que a partir das 21 horas recolhe e carrega as trotinetas durante a madrugada e que, de manhã, as volta a colocar nos hotspots. Mas esta equipa não é uma equipa de trabalho tradicional, como já seria de esperar de um empresa que conta com a Uber e a Google entre os seus maiores investidores.

Qualquer pessoa se pode tornar um membro desta equipa a quem chamam “juicer”. Para se tornar um, basta ter mais de 18 anos, um veículo capaz de transportar trotinetas e andar à noite pela cidade a recolher as que encontrar. Depois deve carregá-las em casa e colocá-las no respectivo hotspot pela manhã.

Os vínculos laborais entre operadoras e os seus juicers independentes não são claros e os pagamentos variam de acordo com os tempos que as trotinetas ficaram fora de funcionamento e a que distância foram recolhidas.

Não estamos, portanto, perante um modelo exemplar de negócio ecológico, com base em veículos que utilizam fontes de energia alternativa para se recarregarem, como a energia solar, ou perante um serviço cuja gestão economize energia ou emissão de gases de efeito estufa. Estamos sim perante um modelo de negócio que aposta na redução de gastos com colaboradores e com responsabilidades sociais, ainda que sob a bandeira verde da sustentabilidade ambiental.

Em caso de acidente quem se responsabiliza?

trotinetas eletricas: perigos

A CML, por exemplo, afirma que não se responsabiliza por acidentes com veículos de utilização privada que circulem na cidade, sejam carros individuais, de aluguer, táxis ou trotinetas.

Afirma que para isso existem seguros de responsabilidade civil. Mesmo que o acidente possa ter sido iniciado por um pequeno buraco na via pública, tudo seria muito difícil de provar.

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Do outro lado, as empresas não se responsabilizam pela má utilização dos seus serviços e equipamentos. Apesar de estarem obrigadas a ter um seguro de acidentes pessoais e de responsabilidade civil, qualquer conduta considerada faltosa na utilização das trotinetas inviabiliza a sua cobertura.

A ajudar temos um Código da Estrada que diz que é obrigatório os condutores de trotinetas usarem capacete e entidades, como a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, que vêm dizer o contrário. Tudo isto não ajuda muito quando um acidente grave acontece.

Como as responsabilidade acabam empurradas de uns para outros, os processos judiciais tornam-se lentos e morosos, deixando os lesados por sua conta.

Numa tentativa de mudar este estado de coisas, já no ano passado várias vitimas se juntaram para avançar com um processo conjunto, em Los Angeles, contra as operadores Lime e Bird e os fabricantes das trotinetas que estas empresas utilizam, Xiaomi e Segway, acusando-as de negligência grave.

Por outro lado, alguns governos falam em alterar o Código da Estrada, mas ainda não parece haver soluções definidas para as trotinetas elétricas e os seus perigos.

Trotinetas elétricas: soluções procuram-se

trotinetas eletricas: perigos

Muitas câmaras municipais afirmam que a pegada ecológica e a pegada perigosa para a segurança das cidades poderá ficar resolvida com as aplicações das operadoras a identificarem as áreas nas quais os clientes podem iniciar e terminar a sua viagem.

Isso poderia evitar o abandono das mesmas em qualquer lugar, reduzindo os custos ambientais com a sua recolha noturna, e poderia ajudar na identificação, sinalização e melhoria de condições de segurança dos percursos mais utilizados. Mas quer empresas quer utilizadores torcem o nariz.

Os utilizadores mais pela limitação de mobilidade que isso implica e as empresas mais pelos custos que implicaria investirem em soluções mais ecológicas para o recarregamento das baterias da bicicletas nos hotspots e investirem em equipas de trabalho com responsabilidade social.

Para as autoridades a solução passa também pela divulgação e criação de novas regulamentações oficiais que acabam com os vazios legais. Em Portugal, por enquanto, apenas temos regras e multas estipuladas em regulamentos que foram recentemente criados.

Até que surjam novos cenários, gerir as trotinetas elétricas e os seus perigos ainda está maioritariamente nas mãos de cada utilizador e na sua consciência como cidadão.

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