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Márcio Matos
Márcio Matos
26 Ago, 2020 - 12:15

Sim, os cemitérios também podem ser visitados pela arte

Márcio Matos

Mórbido para uns, apaixonante para outros, visitar cemitérios para admirar autênticas obras de arte é bastante comum. E há trabalhos de grandes artistas.

Cemitérios que podem ser visitados

Embora em alguns países estrangeiros a tendência de estudar e visitar cemitérios já remonte há muitos, muitos anos, podemos considerar que, em Portugal, esta foi uma prática que demorou algum tempo a ser aceite e compreendida.

Para a maior parte das pessoas, os cemitérios são locais associados a momentos de dor e, por isso, pensar em lá ir numa espécie de “passeio” é uma ideia que ainda impressiona muitos.

Porém, o ato de visitar cemitérios não é uma invenção da nossa era e é uma experiência muito enriquecedora do ponto de vista histórico e artístico. Descubra porquê!

visitar cemitérios e descobrir arte

Cemitério dos Prazeres em Lisboa

Certamente que em algum momento da sua vida já visitou um cemitério e, nesse instante, teve oportunidade de constatar que por lá existiam algumas construções mais sumptuosas, muitas delas remontando a séculos passados.

Talvez tenha ficado curioso quanto à história por detrás daquele momento e, também, em relação ao significado por detrás de todos aqueles símbolos.

Visitar cemitérios permite ficar a saber mais sobre tudo isto, mas também conhecer a última morada de muitas figuras ilustres. Os especialistas nesta temática consideram os cemitérios verdadeiros museus a céu aberto e não é difícil perceber porquê.

Visitar cemitérios não é ou não deve ser a mesma coisa do que visitar um qualquer outro espaço (mesmo que esse outro espaço seja um museu). O respeito, a limpeza e o silêncio (ou o tom de voz baixo) devem ser premissas essenciais nestas visitas por espaços que têm mais vida do que se pode imaginar.

O caso português

Como já referimos, em Portugal, esta tendência é relativamente recente, embora haja investigadores que já se dedicam a ela há bastante tempo. Apesar de ser possível encontrar cada vez mais ofertas de visitas guiadas em cemitérios nacionais, a verdade é que estas ofertas ainda estão muito limitadas aos principais centros urbanos, ou seja, Porto e Lisboa (só no Porto, as visitas mais do que duplicaram em quatro anos!).

Todavia, os indicadores apontam para a possibilidade desta oferta se estender pelo país fora, de norte a sul, até porque cada região apresenta uma riqueza e uma diversidade muito próprias, no que respeita à dita arte cemiterial.

Importa, ainda, referir que Portugal integra a Rota Europeia dos Cemitérios, um circuito promocional criado pelo Conselho da Europa, em 2010, e que integra 54 recintos, de 18 países.

Alguns exemplos de cemitérios, onde vale a pena fazer uma visita (guiada ou não) encontram-se nas principais cidades do país. Siga as nossas sugestões.

Cemitério histórico dos Prazeres

Porto

Na cidade do Porto existem diversos cemitérios, mas os mais importantes e que merecem uma visita são mesmo do da Lapa (onde está sepultado Camilo Castelo Branco), do Prado do Repouso e o de Agramonte.

Este último é particularmente interessante. É a última morada de vultos da cultura portuense e nacional como Júlio Dinis ou Carolina Michaëlis e conta com alguns jazigos imponentes, como o do Conde da Trindade.

Foi inaugurado em 1855, na zona ocidental da cidade. A construção da capela com projeto de Gustavo Adolfo Gonçalves e Sousa (1818-1899), decorreu entre 1870 e 1874.

A capela-mor foi alargada em 1906, sob a direção do arquiteto José Marques da Silva (o mesmo que gizou o Teatro São João ou a Estação de São Bento), sendo então realizadas pinturas de inspiração bizantina, da autoria do pintor italiano Silvestro Silvestri.

Ainda nota de destaque para o mausoléu em memória das vítimas do incêndio no Teatro Baquet em 1888, no Porto. Trata-se de uma gigantesca arca com materiais pertencentes ao próprio edifício do teatro, pedaços de ferro torcidos pelo fogo e uma enorme coroa de martírios também em ferro, simbolizando a morte das cerca de 120 vítimas

Nota: A Câmara Municipal do Porto possui também uma iniciativa anual – o Ciclo Cultural dos Cemitérios do Porto -, em que promove visitas, inclusive noturnas, a alguns cemitérios municipais e não só.

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Lisboa

Os cemitérios do Alto de São João e dos Prazeres são os mais conhecidos e ali repousam várias personalidades das mais diferentes áreas. Mas são também espaços de arte. Nos Prazeres, por exemplo, o destaque tem que ir para o Mausoléu de D. Pedro de Sousa Holstein, Duque de Palmela.

Trata-se do maior mausoléu particular da Europa, com cerca de 200 corpos e restos mortais pertencentes à mesma família, à excepção de dois padres. O seu espaço exterior recria a simbólica de um templo maçon e na capela, no interior da construção, várias estátuas de escultores de renome, como Canova, Teixeira Lopes e Calmels, embelezam os túmulos.

O jazigo do Duque de Palmela só existe graças à história de amor de D. Alexandre de Sousa Holstein (1751-1803) e D. Isabel Juliana Monteiro Paim (1753-1793). O 1º Duque de Palmela, só veio a este mundo porque os seus pais protagonizaram uma bonita história de amor com final feliz.

O casal esteve separado 13 anos por culpa do Marquês de Pombal, mas o matrimónio aconteceu. O jazigo do Duque de Palmela parece uma igreja. Para lá entrar é preciso abrir os portões e caminhar alguns metros até à entrada principal, ladeada por doze ciprestes de cada lado, onde repousam os restos mortais dos seus empregados. Homens do lado direito, mulheres do lado esquerdo.

Nota: A Câmara Municipal de Lisboa organiza visitas aos seus cemitérios.

Cemitérios a visitar noutras localidades

Todas as terras tem o seu cemitério. O culto dos mortos é bastante enraizado em Portugal, pelo que não é difícil encontrar excelentes exemplos artísticos, e até artesanais, deste tipo de arte. No trabalho da mármore, por exemplo, existem verdadeiras obras de arte país fora.

Cemitério de Père Lachaise

Cemitérios a visitar além-fronteiras

Já dissemos que me muitos países estrangeiros o hábito de fazer visitas guiadas em cemitérios já remonta há alguns anos. Cada um pelas suas razões, estes são alguns dos cemitérios imperdíveis, além-fronteiras:

  • Père-Lachaise, Paris: aqui estão sepultadas figuras como Edith Piaf, Chopin, Delacroix, Jim Morrison e Oscar Wilde;
  • Montjuic, Barcelona: interessante, principalmente, pelas marcas artísticas do modernismo catalão;
  • Cemitério Nacional de Arlington, Virgínia: conhecido por aí estarem sepultados os veteranos das principais guerras;
  • Cemitério de Saint Louis, Nova Orleães;
  • Antigo Cemitério Judeu, Praga;
  • Cemitério Monumental de Staglieno, Génova: um dos maiores cemitérios da Europa.
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